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O que será?

É uma regra inexorável da existência: não sabemos o que o destino nos reserva. Podemos suspeitar, mas, mesmo que o palpite se revele exato, só saberemos que estávamos certos quando o amanhã tiver virado ontem. Com bolas de cristal ou supercomputadores, tentamos fugir dessa lei do tempo, como se fosse uma condenação. Mas é ela que garante boa parte da diversão da vida. Ou alguém já ficou feliz em saber o fim do filme enquanto estava na fila do cinema?
Além da graça de nos surpreendermos com o destino, se o futuro não fosse um mistério, perderíamos a chance de praticar outro delicioso exercício: a livre imaginação. Chips no cérebro, teletransporte, energia limpa, igualdade social, férias em Marte, cura do câncer, Brasil hexacampeão... E no seu futuro, como a vida será? Fizemos essa pergunta a pessoas de todas as idades, de todas as regiões do país. Há palpites prosaicos e revolucionários, individuais e globais, práticos e filosóficos, temerosos e tranquilos, sérios e divertidos, realistas e sonhadores. Se são devaneios ou previsões precisas, não há como saber ainda. Certeza, só uma: o futuro é fruto dos sonhos e, principalmente, das ações que colocamos em prática hoje – e, quanto mais fé pomos na realização delas, maior a chance de fazer acontecer. Quer apostar?
“Espero que no futuro não tenha mais café da manhã, almoço nem jantar, só chocolate, chocolate e chocolate.”
Lucas Braga, 6 anos, Belo Horizonte (MG)
“Eu me imagino morando num apartamento de um quarto no centro da cidade, indo trabalhar de ônibus, fazendo compras no supermercado, lavando roupa na mão. Parece estranho porque é muito simples, mas meu maior desejo hoje é morar sozinha. Vou ter um jardinzinho na janela da cozinha, acordar de madrugada e fazer brigadeiro, deixar a cama bagunçada sem ninguém reclamar...”
Larissa Veloso, 23 anos, Belo Horizonte (MG)
“Acho que as pessoas serão mais felizes, porque vão trabalhar com o que gostam. Na minha época, a gente seguia uma profissão que desse segurança para sustentar a família. Fui motorista por 30 anos na mesma empresa. Não podia ter crise. Não é que desgostasse – nunca me dei licença pra pensar na questão. Hoje vejo minha neta de 24 anos: já teve mais empregos do que o avô. No começo, achei ruim. Falava: menina, trabalho não é pra ser bom, é pra ser trabalho. Mas ela me explicou que não vai parar de suar a camisa. Só não vai suar no que desgosta. Quer satisfação, mais até do que dinheiro. Vendo o esforço dela, comecei a dar razão. Se trabalhassem por gosto, as pessoas seriam mais competentes e gentis.”
Honório dos Santos, 72 anos, Novo Hamburgo (RS)
“Comecei a ver um brilho de melhora para o mundo, vindo dos principais atores do futuro – nossos filhos. Poxa, você já viu as crianças de hoje? Não jogam lixo na rua, ensinam aos adultos sobre reciclagem, querem salvar as florestas... Bem diferente das crianças que nós fomos, há tão pouco tempo.”
Elisa Brito, 23 anos, Belo Horizonte (MG)
“No futuro, os países não terão apenas um presidente, mas muitos ao mesmo tempo. Com mais pessoas juntas pensando em como fazer do mundo um lugar melhor, vão surgir mais ideias. E olha que estamos precisando! Se as pessoas não se conscientizarem para cuidar da natureza, aqui vai virar a ‘Era do Gelo’. E a gente vai ter de correr atrás da avelã do esquilinho!”
Júlia Multari, 12 anos, São Paulo (SP)
“Viveremos de passagem marcada. Familiarizados com diferentes culturas pelas informações que vimos na internet, não temeremos cruzar as fronteiras da Terra. Com o declínio da economia industrial, em virtude da escassez de matérias-primas e da mão de obra, o turismo se tornará o motor do mundo, e, por isso, viajar será mais barato do que nunca. E, ao conhecer de perto o mundo incrivelmente belo em que vivemos, nos sentiremos comovidos a lutar por sua preservação.”
Alexandre Barros, 33 anos, Blumenau (SC)
“Quero ver o rio Tietê navegável e meus bisnetos passeando de barco por ele.”
Antônia Albano, 79 anos, São Paulo (SP)
“Espero um futuro em que a leitura seja instrumento de emancipação do corpo e da alma. Aquele que portar um livro terá o cuidado que tem hoje com seu carro.”
Ademiro Alves, 26 anos, São Paulo (SP)
“Não desejo mais nada: só saúde, para não dar trabalho aos meus filhos. Ah, e quem sabe uma viagem ao exterior também...”
Java Oliveira, 94 anos, Belo Horizonte (MG)
“As pessoas sempre acham que no futuro vamos voar. Eu não. Acho que vamos é respirar debaixo d’água. Vão existir pílulas de brânquias instantâneas, que a gente compra na farmácia junto com o protetor solar. Daí ficamos que nem um peixe, e conseguimos nadar por horas, com todos os seres aquáticos, até com as sereias.”
Maria Isabel Mazzini, 9 anos, Rio de Janeiro (RJ)
“Quero um futuro em que o bom humor guie as relações. Que não haja seriedade demais em nossos compromissos, que o riso seja instrumento de luta e que sejamos livres para rir de qualquer um.”
Eduardo Goulart, 22 anos, Curvelo (MG)
“Espero que o politicamente correto seja substituído pela responsabilidade individual. O discurso da neutralidade colocou as pessoas – e, por tabela, a mídia, as empresas, a política – em cima do muro: para não ofender ninguém, é mais seguro não se comprometer com nada. Quero ver no futuro breve gente sem medo de assumir seus pontos de vista, mesmo que não sejam certinhos. Que todos tenham uma causa pela qual lutar, tanto faz qual seja.”
Luís Fernando Medina, 42 anos, Niterói (RJ)
“Desejo parar de escolher o ‘menos pior’ e passar a eleger partidos e políticos dos quais possa me orgulhar de verdade.”
Lúcio Esteves, 53 anos, S. J. dos Pinhais (PR)
“Como professora, espero que os governantes se conscientizem de que o país só se desenvolverá com educação de qualidade. Que no futuro as crianças saiam da escola realmente sabendo alguma coisa.”
Belisária Duarte, 49 anos, Pará de Minas (MG)
“A crise de 2008 levará a uma mudança do foco político e econômico: passaremos a longa fase em que tudo se organizou em torno do material (como terra, ouro, petróleo) para uma nova etapa, em que o intangível (como cultura, conhecimento, criatividade) será central. Ou seja, trocaremos uma economia da escassez e da disputa – pois recursos materiais são finitos – por uma economia de abundância e cooperação, já que o potencial de criação humano é infinito.”
Lala Deheinzelin, 50 anos, São Paulo (SP)

“Sonho o tempo todo. Ultimamente, tem sido com a família que pretendo construir com a minha futura esposa. Vamos nos casar no ano que vem. Divago sobre como será nossa casa, nosso cotidiano. Nos vejo tocando músicas para o casal de filhos que pretendemos ter. Tudo isso faz da capacidade de imaginar o meu futuro uma bênção.”
Filipe Mendonça, 24 anos, São Paulo (SP)
“O avanço tecnológico e a consciência que ganhamos sobre o meio ambiente e sobre nossa saúde nos últimos anos me mostram que dias melhores virão. Imagino que logo as pessoas irão preferir ganhar menos – se for para trabalhar menos, ficar perto de casa e ter mais qualidade de vida, evitando transtornos modernos, como o trânsito.”
Jadete Calisto, 65 anos, Mairiporã (SP)
“Espero que no futuro consigamos nos olhar e nos ouvir de
verdade. E que possamos aprender isso através do convívio
com as crianças, brincando, porque elas sabem tudo intuitivamente.”
“No futuro, vamos rir dos absurdos que fazemos pela beleza, do mesmo modo como hoje nos espantam as histórias das nossas avós, que usavam graxa para pintar os cílios e dormiam com touca de meia para alisar o cabelo. Será que injetar uma toxina paralisante para desenrugar a testa ou inflar os seios com plástico não são bizarrices também? Suspeito que sim, e o pior é que eu fiz do mesmo jeito! Espero que no futuro os padrões sumam e as pessoas se sintam genuinamente aceitas com suas bizarrices naturais, sem precisar das artificiais.”
Marta Ayres, 38 anos, Porto Alegre (RS)
“Aos 79 anos, estarei besuntada de protetor solar, sobre uma prancha, praticando meu esporte favorito, o surfe. Exatamente como faço agora.”
Luisa Leila Monteiro, 39 anos, Fortaleza (CE)
“Irmãos, primos e tios consanguíneos entrarão em extinção, já que as próximas gerações serão de filhos únicos. Como o ‘para sempre’ passou a ser desejo, e não mais obrigação, será natural colecionar cinco ou seis casamentos na vida – e até por isso sem grandes festas nem separações complicadas. Aposentadoria, só depois dos 70. Por falar nisso, haverá mais idosos do que adolescentes, e as baladas vão se encher de cabeças brancas. Veremos reportagens alarmantes sobre os problemas da terceira idade com gangues, drogas e loucas aventuras sexuais. Os jovens de hoje vão parecer santos perto do que os velhos do futuro – como eu – vão aprontar.”
Mariana Figueiredo, 19 anos, Curitiba (PR)
“O futuro será um pouco mais alegre. A começar pela quantidade de pessoas tatuadas que existe hoje – umas rirão das pelancas pintadas das outras!”
Hilda Moro Mitani, 57 anos, São Paulo (SP)
“Aos 61 anos, o futuro dá medo. Diminuição de renda, do mercado de trabalho, da capacidade física e mental, dependência... A gente se sente jovem, aberto a milhões de desafios, mas o corpo dá uma rasteira. Tenho uma mãe com 98 anos. Outro dia, ela sonhou que estava tendo um filho. Gritava como se estivesse parindo. Essa centenária senhora guarda em si a mulher apta a dar a luz. Velhos, não jogamos fora nosso jovem nem nossa criança. O velho convive com todos esses personagens, que, às vezes, afloram com um baita poder.”
Saulo Garroux, 61 anos, São Paulo (SP)
“A esta altura? Ih, eu quero é nascer de novo. Desta vez, venho mulher e perto do mar. Nem bonita que me incomodem, nem feia de se estranhar, mas bem cheirosa. Vou ser alguma coisa que mexa com a terra, porque gosto das plantas. Não quero marido, porque sei que se impacientam: eu mesmo só dou trabalho pra minha Quirina, que ela não me ouça. Vou precisar de pouco dinheiro. Muito sol. E água de coco, que é uma beleza. Talvez eu venda coco, é um bom ganho e se pode ficar o dia na praia. Tomara que eu lembre desse plano quando chegar do outro lado, porque é dos bons. Mas não sei, não. Ultimamente tenho esquecido até de vestir as calças de manhã.”
Arquimedes Paiva, 96 anos, Ribeirão Preto (SP)
“Almejo um futuro de expansão da consciência humana para a formação de seres mais integrados com a vida. Tudo o que é vivo deve ser respeitado. Gandhi dizia que, quando uma pessoa dá um passo em direção à paz, a humanidade toda dá esse passo. E já há muitas pessoas trabalhando por um mundo mais justo.”
Monja Coen, 63 anos, São Paulo (SP)
“Nunca fui sequer a uma reunião na escola do meu filho: era trabalho da mãe. Hoje o assisto trocando as fraldas do meu neto, feliz da vida. Nessa cena, vejo surgir uma nova geração de homens, que será ainda mais sensível e participativa que a do meu próprio filho. Criados de perto pelos pais, em parceria com as mães, essas crianças verão homens e mulheres como seres humanos com habilidades diferentes, direitos iguais e deveres compartilhados. Bom para as mães, que serão menos sobrecarregadas, para as crianças, que receberão uma criação conjunta, e, principalmente, para os homens, que viverão uma relação intensa de amor e aprendizado – que eu lamento não ter tido. ”
Henrique Corbioli, 68 anos, Florianópolis (SC)
“Espero que no futuro consigamos nos olhar e nos ouvir de verdade. E que possamos aprender isso através do convívio com as crianças, brincando, porque elas sabem tudo intuitivamente.”
Wellington Nogueira, 48 anos, São Paulo (SP)
“Por preferir ver o lado bom das pessoas, já fui tachada de ingênua. Mas gosto de acreditar que ninguém me deseja mal e que, caso alguém me chateie, o faz por acidente. O que mais desejo para o futuro é que as pessoas recuperem essa confiança umas nas outras.”
Tereza Miranda, 26 anos, Ibertioga (MG)
“Quero voltar a ter a inocência das crianças. Poder dizer, sem que me achem doida, que relâmpago é um barulho rabiscando o céu, palhaço é um homem pintado de piadas, rede é um monte de buracos amarrados com barbante, helicóptero é um carro com um ventilador em cima. Todos já pensamos assim um dia. Resgatar essa ingenuidade é uma forma de dar às pessoas esperança – esse pedacinho da gente que sabe que no fim tudo vai dar certo.”
Alessandra Kleine, 32 anos, Mairiporã (SP)
Esta é uma seleção dos vários depoimentos que recebemos. Agradecemos a todos que compartilharam suas ideias de futuro com a gente. Obrigada!


















































