amar
Obrigado por estar lá

Acontece quando mais precisamos e também quando menos esperamos. Pode vir da família, dos amigos ou de um desconhecido. Às vezes é o que sonhamos a vida inteira; em outras, algo que nem imaginávamos querer tanto. Seja como for, não há quem nunca tenha recebido uma valiosa ajuda.
Somos auxiliados desde o nosso primeiro respiro. Aprendemos a andar e a falar com o incentivo de alguém. Adolescentes, é no grupo que nos apoiamos. Os problemas da maturidade também ficam mais fáceis com um bom conselho. Não vivemos sem a sustentação dos outros. E essa colaboração pode vir de várias formas: uma lição, um presente, um reconhecimento, uma chance e até mesmo um merecido castigo.
Nem sempre percebemos na hora a importância do apoio recebido. E às vezes é tarde demais para agradecer pessoalmente. Quando a ficha cai, dá vontade de escrever no céu quanto estamos gratos, para todo mundo ver. Pois relatar a ajuda recebida já é uma forma de agradecê-la, passando sua generosidade adiante. E essa foi exatamente a motivação de quem nos contou as emocionadas histórias a seguir.
A crise do início dos anos 1990 fez com que eu, minha esposa e nosso filho recém-nascido nos mudássemos para a Austrália. Assim que desembarcamos, decidimos comprar um carrinho de bebê. Foi quando ouvimos uma mulher falando português e a interpelamos pedindo ajuda para encontrar a loja. Um pouco atordoada, ela nos passou seu telefone e foi embora. À noite, do hotel, decidimos ligar. Mariene e seu marido, Léo, nos ofereceram um jantar em sua casa, convidaram-nos para morar lá pelo tempo que precisássemos e nos ajudaram a conseguir emprego em menos de uma semana. Mineiros, responderam assim ao nosso espanto: “A gente quer ajudar vocês, sô”. Em 1998, tornamo-nos cidadãos australianos e os chamamos para ser nossos padrinhos. Eles retribuíram o convite no batizado de sua filha. Hoje moramos no Canadá, mas nunca esqueceremos o que nossos compadres fizeram por nós.
Mathias Gonzalez, 53 anos, Vancouver, Canadá.
Eu tinha uns 6 anos e ainda era incapaz de amarrar o cadarço do tênis. Um dia, na escola, vi que o nó estava desfeito. Pedi ajuda a um garoto do colegial, que estava passando por ali. Como se fosse meu irmão mais velho, ele não só resolveu o problema como ainda me ensinou a lidar com os cordões. Nunca esqueci o jeito generoso com que aquele menino me tratou.
Rayanne Azevedo, 22 anos, Natal (RN).
Logo que nasceu, minha filha Sofia esteve durante um longo período internada na UTI. Após receber alta, descobrimos que ela havia ficado com uma sequela neurológica. Foi nessa época que tomei conhecimento de uma história muito parecida: uma mãe havia lançado um livro contando sobre sua filha, também chamada Sofia, também internada na UTI, mas que infelizmente não havia resistido. Entrei em contato. Maria Julia compartilhou da minha angústia e me acompanhou numa consulta decisiva. Era um momento muito solitário para mim e angustiante para ela, pois o médico era o mesmo que havia lhe dado péssimas notícias. Seu apoio a uma desconhecida me tocou profundamente. Hoje, juntas, gerenciamos uma ONG que auxilia mulheres com filhos em tratamento intensivo, o Instituto Abrace.
Denise Crispim, 31 anos, Osasco (SP).
Estudante de medicina, eu aprendia a examinar os doentes, começando pelo histórico de cada um. De posse do roteiro de perguntas, afoito, passei a dispará-las contra o paciente que me tinha sido designado. Por perto, estava o médico-residente, que me aconselhou: “Por que você não o deixa falar? Ele vai responder a todas as perguntas do roteiro e ainda a mais algumas”. Foi uma lição para a medicina e para a vida: saber escutar é fundamental.
Moacyr Scliar, 73 anos, Porto Alegre.
Fiz hemodiálise por dois anos e precisei de um transplante de rim. Todos os meus irmãos se comprometeram a ajudar, mas só um era compatível. Justamente o que estava desempregado, com três filhos pequenos. Mesmo assim, ele aceitou se internar para fazer a doação. Desde então, há 28 anos, estou ainda mais feliz.
Felicíssimo Caetano, 61 anos, São Paulo.
Nunca tinha visto o ponto de ônibus tão cheio. Ilhada, eu telefonava para o trabalho para avisar que me atrasaria. Foi quando uma senhora, em um carro daqueles bem caros, parou, abriu o vidro e gritou: “Alguém quer carona?”. Todo mundo se entreolhou, ninguém disse sim ou não. Era estranho uma pessoa fazer algo assim para um monte de desconhecidos. Mas a última coisa que me veio à cabeça foi que ela estaria mal-intencionada. Fui a única a aceitar. Ela me deixou quase na porta do trabalho, ainda antes do horário de entrada. Em agradecimento, eu me comprometi a propagar sua generosidade.
Rita Squillace, 26 anos, São Paulo.

Trânsito caótico, ponto de ônibus cheio. Uma desconhecida oferece carona. Rita foi a única que aceitou. Não se atrasou para o trabalho e se contagiou com a generosidade
Comemorei meus 23 anos com um piquenique. Foi ótimo. Mas só três dias depois eu receberia o presente que mais me emocionou em toda a vida: uma de minhas amigas, estudante de cinema, fez um filme de cinco minutos durante o convescote, com trilha sonora e participações especiais. Fiquei muito emocionada de ver retratada, com tanto carinho, a minha juventude e o amor das pessoas que me são mais queridas.
Sheyla Miranda, 23 anos, São Paulo.
Em viagem pela Europa, eu reunia as melhores lembranças em um caderninho. Um dia, em Paris, o esqueci numa cabine telefônica. Voltei no dia seguinte e ele não estava mais lá. Com a ajuda de um garçom de um restaurante das redondezas, escrevi um bilhete e deixei no orelhão. Mas não houve retorno. Até que um amigo brasileiro me mandou o seguinte e-mail: “Recebi um postal seu, junto com um caderninho”. Meus olhos se encheram de lágrimas. Um francês encontrou o diário e o enviou para o endereço escrito num cartão que estava dentro do livreto. Junto, mandou a seguinte mensagem: “Não entendi quase nada do que está escrito, mas acredito que seja importante para você”. Quando cheguei ao Brasil, enviei-lhe uma camisa da seleção de futebol como agradecimento.
Larissa Ribeiro, 27 anos, São Paulo.
Quando eu era pequena, tive a má sorte de encontrar somente professores sem a mínima paciência com crianças. Eu adorava o ambiente escolar: aprender coisas novas, fazer amizades, brincar no parque... Só não entendia por que os professores tinham de ser tão maus! Tudo mudou na 3ª série, quando conheci a mestre mais doce e inteligente de toda a minha vida. Apesar da idade avançada, ela até pulava corda com a gente! Passei a estudar mais para poder ser uma professora como ela, que sabe que educação infantil é mais do que ensinar a cartilha. Hoje estou no penúltimo ano da faculdade de letras e no primeiro de pedagogia.
Vanessa Grazielli Silva, 25 anos, São Paulo.
Conheci uma amiga pela internet. Ela mora no Rio de Janeiro e eu, no interior de São Paulo. Conversamos todos os dias, virtualmente ou por telefone. No começo do ano, comentei que faria uma festa em setembro, para comemorar meu 18º aniversário. Quando a tão esperada data chegou, tive uma surpresa: minha amiga havia aberto uma poupança e juntado
dinheiro durante o ano para poder me visitar. Pegou dois ônibus até a minha cidade só para me dar um abraço ao vivo!
Giovana Rinaldi, 18 anos, Catanduva (SP).
Sabe aqueles papeizinhos coloridos feitos para recados? Pois então, eu sou uma “post-itólatra”. Muito obrigado a quem os inventou! A primeira vez em que declarei meu amor foi colando um post-it escrito “te amo” na testa e virando para ver a reação do menino de quem eu tanto gostava.
Gabriela Gaseta, 26 anos, Americana (SP).
Quando eu tinha mais ou menos 6 anos, simplesmente não possuía a devida educação. Em vez de “com licença”, falava: “Saia da minha frente”. E nunca dizia “obrigada” nem “por favor”. Até que um dia minha mãe contratou uma moça para cuidar de mim e do meu irmão. Com ela, as coisas foram diferentes. Sem essas palavras mágicas, ela nem mesmo conversava comigo. Assim, passo a passo, conquistei a minha educação. Obrigada, Dani!
Isabel Oliveira, 13 anos, Belo Horizonte.
Era Natal, e, naquele ano, eu não havia tido uma festa de aniversário, por causa das minhas notas na escola. Quando me chamaram na cozinha, foi engraçado. Não tinha percebido o movimento dos meus familiares saindo para comprar doces e salgados para a surpresa. Faço aniversário dia 27 de novembro e, mesmo com um mês de atraso, fiquei muito feliz com a festa. Aprendi naquele dia que o mais valioso não é a quantidade de presentes nem o número de convidados. E sim o carinho daqueles que te amam.
Luíza Cerqueira, 13 anos, Belo Horizonte.
Eu tinha 12 anos e espinhas nas bochechas quando meus pais decidiram me trocar de colégio. Eu deixaria a escola estadual onde estudava desde pequeno para concluir o ensino médio em outra cidade, no colégio tido como o melhor da região. Dividi apartamento com uma doméstica e um amigo. Nos fins de semana, eu voltava para casa. Foram tempos difíceis para mim, e mais ainda para os meus pais. A mensalidade era cara, e a saudade apertava: à porta do ônibus, todo domingo, notava o esforço deles para não chorar. Certo dia, um colega me perguntou: “Se eles gostam tanto de você, por que te deixaram sair de casa?”. Hoje tenho a resposta na ponta da língua. Meus pais, Francisco e Eliane, queriam a minha felicidade, ainda que o distanciamento pusesse em risco a deles.
Fernão Ketelhuth, 29 anos, São Paulo.
No fim de 2005, minha mãe descobriu que estava com câncer, já no estágio final, sem tratamento possível. Foram muitas as vezes em que senti sua companhia e amor invisíveis, porém muito fortes, depois de sua morte. Durante a minha gravidez, pensava na vovó maravilhosa que ela teria sido, nas experiências que trocaríamos, nos conselhos que receberia. Um dia, revendo meu álbum de bebê, percebi que ela havia escrito tudo ali: o que sentiu, como foi o parto, que mamadeira eu usava, além de poemas e piadinhas... Era como se ela estivesse ao meu lado me mostrando tudo o que aconteceu. Descobri que ela também fizera cesariana, que havia engordado o mesmo que eu e que passamos pelas mesmas descobertas. De todas as heranças que ela poderia ter me deixado, a maior e a melhor de todas é o ensinamento de que amor de mãe não tem fim.
Maria Clara de Oliveira, 21 anos, Itatiaia (RJ).
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