movimentar
Ora, bolas!

Ela nasceu para rolar. Sem pontas, cantos, arestas nem lado de cima nem de baixo, a bola possui a forma certa para o chute, a tacada e o arremesso perfeitos. Apesar da genialidade do seu conceito, qualquer criança pode construí-la com um mínimo de esforço. Basta jornal amassado para o recheio e uma meia que faça as vezes de couro. Por isso, não há quem não tenha se divertido com ela, seja entre os colegas da escola, seja com os amigos da rua, e até mesmo sozinho. Enquanto houver imaginação, não faltarão maneiras de brincar com uma bola.
Ela nos é algo tão comum que... será que alguém já parou para pensar em como ela surgiu? Talvez o homem tenha apenas decidido reproduzir o desenho que encontrou em frutas, grãos, pedras de rio. Mas quem diria: no decorrer dos séculos, conforme a ciência jogava luz sobre nossa origem, descobriu-se que seu formato remete à conjunção de forças que, desde os tempos mais remotos, agem sobre o universo. “Ao longo de milhões de anos, a poeira que existia dispersa foi se aglutinando sob a ação da gravidade. A esfera era o formato mais compacto para essa massa se unir, e assim surgiram os planetas”, explica o professor de física Bassam Ferdinian.
Girando ao redor do Sol ou até as mãos do goleiro, a bola nasceu para estar em movimento. E quem contribui para manter essa escrita tem como recompensa um corpo mais saudável e uma vida mais feliz, como os personagens a seguir.

Na elite do talento
No dia em que conversou com a Sorria, Vitória Monteiro, de 11 anos, havia pedalado trinta minutos debaixo de chuva para chegar ao campo público de golfe de Japeri, cidade da Baixada Fluminense. É lá que ela pratica o esporte das 8 às 11 horas, de terça a sexta-feira – os dias da semana em que o local permanece aberto. Por que gastar tempo com outra atividade, se ela pode praticar? “É uma das coisas que mais gosto de fazer. Quando não estou na escola, estou jogando”, resume. A paixão da menina pela técnica de impelir as bolinhas de 4 centímetros de diâmetro na trajetória perfeita já dura três anos. Logo que um amigo lhe explicou o que era o esporte e lhe contou que as aulas eram de graça – trata-se do primeiro campo de golfe público do país –, Vitória foi conhecer o local. Vestiu as luvas e os sapatos especiais, aguçou a mira e arriscou as primeiras tacadas. Não foram certeiras, mas suficientes para lhe apontar um possível caminho para construir seu destino. “Ela é uma das alunas mais dedicadas. Destaca-se ano a ano e tem tudo para se profissionalizar”, diz Jair Medeiros, instrutor que a acompanha desde o início. Tímida, a menina prefere não comentar sua performance e, quando questionada sobre o futuro, apenas sorri. Mas talento para campeã não lhe falta: Vitória encerrou 2010 em segundo lugar no ranking estadual na categoria de jogadoras de até 13 anos.

Veterano das pistas
Quando James Douglas Bradfield fez os seus primeiros strikes, as pistas de boliche de São Paulo ainda dependiam dos “pinboys” – garotos que ficavam no fundo das quadras para erguer os pinos da jogada seguinte. Eram os anos 1970, e James, adolescente, praticava com um olho na bola e outro nos lances mirabolantes que os veteranos armavam ao seu redor. Hoje, quatro décadas mais tarde e cerca de quarenta medalhas e troféus mais experiente, James é quem dá show nas pistas de boliche de Campinas (SP), onde mora atualmente, imprimindo curvas e rodopios às esferas que chegam a pesar 7 quilos. Aos 55 anos, o economista é um dos fundadores do Clube Campineiro de Boliche, formado por competidores profissionais que se reúnem todas as segundas-feiras para treinar com amadores. Assim, eles vão incentivando a popularização da prática que tanto amam. “O importante é saber que o esporte exige muita concentração, porque é um jogo de repetição”, explica James. “Há coisas simples que o iniciante precisa descobrir, como o óleo das pistas, que interfere muito na condição do jogo, e que cada jogador pode ter a própria bola, com furação adequada à mão”. James possui mais de vinte delas, lixadas e polidas com frequência por ele mesmo. Com igual carinho, ele embala seu grande sonho: construir um par de pistas no quintal de casa. Um dia, quem sabe, será lá que acontecerão os animados encontros de segunda-feira.

Trocando as mãos pelos pés
Depois da aula, mal o almoço havia baixado e Natalie Martins já estava louca para ir à praia encontrar os amigos. Aos 16 anos, enquanto jogava vôlei em Ipanema, viu que na rede ao lado havia uns rapazes praticando uma modalidade diferente. Em vez de manchetes, toques e cortadas, matavam no peito e davam chutes com categoria, fazendo a bola passar de um lado a outro. Naquela época, o futevôlei já era conhecido nas praias cariocas, mas ainda raro entre mulheres. Natalie, que gostava de ficar batendo bola com o pé em rodinhas com os amigos, decidiu experimentar. Pediu para participar, esperou sua vez e se apaixonou. Depois daquele dia, suas amigas se acostumaram a ver sua canga abandonada sobre a areia, enquanto ela passava a tarde jogando com os meninos. Veio a formatura em desenho industrial, o emprego na área, e ela fazia o que podia para manter o hobby. Até que um dia decidiu transformar o prazer na sua principal ocupação. Cursou educação física e começou a treinar cada vez mais forte. Em 2006, disputou seu primeiro campeonato brasileiro. Dois anos depois, chegou a vice-campeã nacional. Hoje, Natalie é professora de futevôlei. Passa sua técnica e seu prazer a toda sorte de alunos, desde pais e filhos que só querem se divertir juntos até quem pensa em competir profissionalmente. No ano passado, após romper os ligamentos do joelho, a atleta teve de ficar um tempo afastada dos campeonatos. Mas em 2011, aos 32 anos, quer recomeçar com toda a disposição: “Meu sonho é voltar ao top 3 nacional”.
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