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Pára, que eu quero descer

O tempo voa? O trabalho só se acumula? Precisa de um dia de 36 horas? Pise no freio. Desacelerar faz bem para a alma – e traz sucesso
Texto: Simone Cunha // Ilustração: Heitor Yida
Pára, que eu quero descer
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Ele vivia correndo. Um profissional atarefado. Fazia vários trabalhos simultâneos. Quando almoçava, era com tempo contado. Precisava de cada segundo do dia – e nunca bastava. Até que, para não perder momentos preciosos com o ritual de pôr o filho na cama, resolveu comprar um livro de historinhas para ninar de um minuto.

Pára tudo. Mas o que era realmente precioso? O tempo ou o filho?

O episódio foi o clique para que o jornalista canadense Carl Honoré resolvesse mudar de vida. Deixar de engrossar a multidão dos enforcados pelo tempo e tornar-se um dos gurus do slow movement, ação que preconiza uma vida mais lenta, atenta ao que importa – a conexão com as pessoas, a reunião da família, o trabalho que dá prazer. Ele passou a gastar as mesmas horas na labuta, mas faz suas tarefas com mais calma. Tirou o relógio do pulso para não viver ansioso. Almoça devagar, faz intervalos e medita. Recusa trabalhos quando vão se encavalar. Também desliga a conexão com o mundo quando dá. Ganhou não só uma vida, mas uma carreira mais feliz.

É como se ele tivesse entendido que, se o tempo parecia correr cada vez mais rápido, a ponto de ser impossível alcançá-lo, era melhor parar de correr atrás dele. Acabar com o rol infinito de compromissos, organizar a bagunça e se dedicar somente ao que lhe tinha valor.

A culpa é de quem?

Parar de culpar um “sistema” invisível que torna a vida moderna uma loucura é o primeiro passo. É claro que existe um panorama desfavorável. Psicólogos e pesquisadores enumeram os males que fizeram o relógio do mundo disparar: cidades grandes cheias de facilidades, a tecnologia mostrando quanto podemos e devemos ser rápidos, a concorrência exacerbada em todos os campos, o consumismo que nos faz querer dinheiro para comprar coisas de que nem precisamos... Pára tudo outra vez.

É necessário ver que não estamos fadados a nada e que dá pra reverter essa pressa coletiva entendendo como ela se instala. Para Honoré, nossas horas de comer, de dormir, de trabalhar, de brincar não estão mais tão definidas como antigamente. “A gente já pode fazer qualquer coisa a qualquer hora. Assim, fica difícil desligar”, defende. E, diferentemente do que se imagina, fazer tudo rápido e ao mesmo tempo não aumenta nossa eficiência. Ao contrário.

Estudos da Nasa e da Universidade de Maryland, nos EUA, já mostraram que o vai-e-volta entre várias tarefas atrasa o fim de cada uma em até 20 minutos. Ou seja, na ânsia de sermos rápidos, acabamos demorando mais. A qualidade também cai, já que nunca estamos focados. Ao querer viver tudo ao mesmo tempo, levamos a vida pessoal para o trabalho e os problemas do escritório para casa. Uma confusão que é o caminho para o fundo do poço.

A vida fora do trabalho


A executiva Elaine Bassaco, de 37 anos, quase chegou lá. “Eu trabalhava 24, 48, 72 horas seguidas, sem comer. E não me cansava”, conta. Ela só sabia de uma coisa: queria ser a melhor. E foi. Teve cargos que nenhuma mulher alcançou nas empresas pelas quais passou. Ia da China à Venezuela a negócios sem deixar de comandar o dia-a-dia no Brasil. O sucesso tinha seu lado perverso: úlceras, problemas de pele. Anestesiada pela adrenalina da correria, Elaine fingia que estava tudo bem. A lucidez só chegou depois da terceira úlcera, uma síndrome do pânico e cinco anos desmarcando médicos porque tinha mais o que fazer.  “Foi quando vi como estava me enganando”, diz.

Um dos grandes enganos que cometemos é ter medo de se dedicar à vida pessoal e, com isso, ser menos eficiente e competitivo no trabalho. Há décadas pensadores como o italiano Domenico de Masi, autor de O Ócio Criativo, defendem o contrário. “Mais tempo com a família e para o descanso é fundamental para melhorar a qualidade do próprio trabalho”, diz ele.

Várias empresas já perceberam que satisfação na vida pessoal traz produtividade e trataram de colaborar para o bem-estar dos funcionários. A Cisco, que vende tecnologias de conexão de internet, é um exemplo. Seus funcionários podem carregar o escritório para onde quiserem. Cada um com seu laptop, webcam, internet e ramal móvel trabalha onde e quando achar melhor. Pode programar o expediente de modo a evitar o trânsito das 6 da tarde. No escritório, não há mesas fixas nem em quantidade suficiente para todos os empregados ao mesmo tempo. Parece arriscado? Os prazos e as metas são os mecanismos de controle.

 “A gente trabalha por resultado e nos horários mais adequados a cada um,” conta o diretor de marketing da Cisco, Marco Barcellos. Há dias em que ele fica em casa. Quando tem reunião, vai ao escritório. Pode inverter o horário todo para estar na escola da filha ou porque precisa conversar com um cliente de outro país, durante a madrugada. Pode até trabalhar 24 horas seguidas para entregar um projeto. Ou seja, as supercargas horárias podem existir como em qualquer empresa. Mas, organizando-as com flexibilidade, elas ficam mais esparsas, e tudo se torna menos sacrificado.

“Somos tão impacientes e viciados em adrenalina que até
quando decidimos desacelerar queremos que isso aconteça
rápido”, diz Carl Honoré. Pra que tanta pressa?


Isso ocorreu com Marco, quando deixou de viajar a trabalho para ficar com a filha Clara, de 3 anos, com pneumonia. Ele participou da negociação de casa mesmo, por meio de uma tecnologia que simula a reunião presencial. O exemplo quebra o mito de que a tecnologia é a grande vilã de nossos tempos de pressa – nós é que temos de aprender a usá-la em nosso favor.

Devagar se vai ao longe


No caso de Elaine, quando ela percebeu que a correria a tinha derrubado, não houve condições para virar tudo do avesso e replanejar o dia-a-dia na empresa. Foi preciso largar aquele emprego. Fato que, um ano depois, se colocado em perspectiva, não foi nenhum fim do mundo. Hoje ela continua sendo uma executiva, em outra companhia. Percebeu que o trabalho pode ficar melhor, menos burocrático e mais criativo quando ela separa um tempo para correr todas as manhãs e para visitar a família nos fins de semana. Aprendeu a negociar prazos. Até promoção ela já recusou. “Não estava preparada emocionalmente para ela”, explica.

A mudança da vida de Elaine ainda está em curso e não é simples.  Segundo a psicóloga Miriam Barros de Lima, passar a viver em outro ritmo pode levar tempo. “A maioria de nós é viciada em adrenalina”, concorda Carl Honoré. Não é fácil quebrar o padrão. No consultório de Miriam, os pacientes chegam cobrando logo um nome para o seu problema e querendo um remédio ou uma solução instantânea. “A ironia é que somos tão impacientes que até quando decidimos desacelerar queremos que isso aconteça rápido”, constata Honoré.

Saudável é conduzir a mudança aos poucos e começar com gestos simples.

Pequenas revoluções

Essa é a idéia do gestor de tempo e produtividade Christian Barbosa. Uma pesquisa de sua consultoria, a Triad, calculou para uma organização que gere mal seu tempo um prejuízo de 500 milhões de reais por ano a cada 100 funcionários. Culpa de tarefas mal planejadas, que precisam ser refeitas, ou dos quilos de reuniões e e-mails inúteis. “É preciso começar a tirar o ‘urgente’ do vocabulário e trocar pelo ‘importante’”, diz ele. O importante é o que vai ser planejado, e será feito com método e qualidade. O urgente é aquilo que não foi previsto e, por isso mesmo, nem deveria estar sendo feito.

Há outras pequenas ações valiosas, segundo Christian: estipular prazos possíveis de cumprir, negociar mais tempo sempre que necessário, saber pedir ajuda, delegar funções. Além de arrumar a papelada na mesa, os arquivos no computador, as revistas no armário – coisas que tomam um dia, mas depois economizam vários.

Mais complicado é ter coragem de mudar radicalmente quando se percebe que está no caminho errado. “Encher nosso dia de compromissos às vezes é uma maneira de compensar um vazio de sentido em nossa vida”, lembra Miriam. E de adiar o momento de parar tudo, refletir sobre o que realmente importa e traçar um caminho – que pode ser desconhecido e assustador – até aquilo que nos faz felizes. “Tudo bem que nos ensinam que os valores da vida são trabalhar e ganhar dinheiro, mas é preciso se aproximar do que faz sentido para cada um”, completa.

Exatamente o que fez Honoré quando teve seu momento de iluminação. Ele não só desistiu de comprar o livro de histórias de um minuto como resolveu parar para escrever o próprio livro. E Devagar não foi só um símbolo de sua guinada para uma vida com mais significado. Foi também seu maior best-seller.

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