Droga Raia

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Para sentir saudade

A palavra nostalgia significa o sentimento que surge quando nos lembramos de algum acontecimento passado. Ligada aos nossos cinco sentidos, ela pode surgir a qualquer instante – mesmo quando a lembrança não foi vivida por nós
Texto: Chico Spagnolo // Ilustração: Danielle Bidóia // Imagem: Divulgação
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Para ver de onde viemos

Nós que Aqui Estamos, por Vós Esperamos. Filme de Marcelo Masagão, Brasil, 1998 (disponível no YouTube). Esse videoclipe dos nossos tempos é uma leitura cinematográfica do livro Era dos Extremos, do historiador britânico Eric Hobsbawm, e da obra de Sigmund Freud, o pai da psicanálise. A partir de uma receita muito simples – reunir, sob uma bela trilha sonora, imagens inesquecíveis do século XX, retratos de grandes personagens e de pessoas comuns –, Marcelo reconta a história de um período marcado por grandes guerras, avanço tecnológico, ideologias díspares e revolução de costumes. Para lembrar de onde viemos e ver que somos capazes de grandes coisas, para o bem e para o mal.


Para crer no sonho
A Hard Day’s Night
, disco dos Beatles. “Quando tinha 8 anos, lá nos anos 1980, meu pai me mostrou o disco A Hard Day’s Night, dos Beatles. Me apaixonei. A época não tinha muito a ver com os quatro garotos de Liverpool: as rádios tocavam outro estilo de música, a moda era extravagante. Tive de aturar os apelidos dos colegas na escola, que me chamavam de ‘Lunático’ e ‘Beto Beatles’, sem entender por que eu gostava tanto daquela banda velha. Mas não me importei, e mantive meu estilo – e a ideia, inspirada pelos meus ídolos, de ter uma banda. Acabei encontrando outros quatro garotos que pensavam como eu. Ainda hoje, quando subimos no palco, eu lembro dos Beatles. Eles me mostraram que você pode acreditar num sonho e transformá-lo em um estilo de vida. Só porque você pensa diferente não quer dizer que esteja errado.”
Dica de Beto Bruno, vocalista da banda Cachorro Grande.


Para conhecer nossa história
Caminhos da Estrada Real.
“Esse trajeto de 1.600 quilômetros, que vai de Ouro Preto (MG) até Parati (RJ), foi feito primeiramente pelos bandeirantes, no século XVII. Apesar da devastação provocada naquela época, hoje a Estrada Real renasce com vários patrimônios da riqueza brasileira. A igreja de São Francisco é um deles: uma obra-prima do barroco brasileiro feita por Aleijadinho. O passeio é feito a pé, a cavalo, de bicicleta e de carro. Cada passo nessa trilha histórica traz consigo um pouco do nosso passado.”
Dica de José Alves Neto, coordenador do curso de história da Unicamp.


Para celebrar a literatura
Uma Ilha Chamada Livro
, obra de Heloísa Seixas. “A escritora carioca Heloísa Seixas chegou a seu nono livro com mais nostalgia do que nunca. Lançado em julho pela Galera, selo jovem da editora Record, a coletânea de textos publicados durante sete anos na revista Domingo do Jornal do Brasil trata da magia da literatura e da palavra escrita. E faz lembrar uma época ainda não tão subjugada aos apelos audiovisuais e internéticos, como hoje.”
Dica de Ruy Castro, escritor e colunista da Folha de S. Paulo.


Para lembrar dos heróis
Saudades do Século XX
, livro de Ruy Castro. “Sempre tive a sensação de ter nascido na década errada. Meus artistas preferidos, meu senso de moda e os filmes da minha vida tinham passado havia muito quando eu nasci. Esse livro do jornalista Ruy Castro me faz sentir mais próxima dessas coisas que amo, mas não tive. Com humor e muito conhecimento, Ruy conta as histórias de vida – tão emocionantes quanto a obra – dos grandes artistas do século XX. Gente como Billie Holiday, Fred Astaire, Dashiel Hammet, Alfred Hitchcock e Frank Sinatra, que tornaram populares as grandes produções culturais dos últimos 100 anos: o jazz, o sapateado, o romance policial, os filmes noir. O livro é capaz de me transportar para um bar enfumaçado na Chicago dos anos 1940 e chego a suspirar de saudade de algo que nunca vivi.”
Dica de Roberta Faria, editora-chefe da Sorria*.


Para cantar a vida
Bossa nova
. “Minha nostalgia com a bossa nova começou depois que conheci a história do nascimento desse estilo e das noites boêmias de Vinicius e Tom no Rio dos anos 1950. Ah, queria ter vivido isso. Ouvir a música me traz um sentimento de pertencimento de causa, mas de ausência de tempo. Dá saudade. Não tenho um disco em especial, mas uma canção: Desafinado, de João Gilberto, com letra e melodia de Tom Jobim. E o mais engraçado é que eu cantava “Roleiflex” sem saber o que era. Só depois descobri que era uma máquina fotográfica alemã. Super do meu tempo, não é?”
Dica de Nina Weingrill, repórter da revista Sorria*.


Para colar na memória
Álbuns de figurinhas.
“Fui um colecionador voraz de figurinhas nos anos 80, dos mais variados assuntos: futebol, personagens da Disney, que brilhavam no escuro... Mas não fiz uma das coleções mais irresistíveis que surgiram no Brasil: a das estampas Eucalol. Por uma razão simples – eu não era nascido. As estampas eram cartões que vinham com os sabonetes Eucalol. Foram uma febre dos anos 30 aos 50, com dezenas de séries diferentes: bandeiras, aves do Brasil, monumentos históricos... Eu saboreava as coleções pela memória dos meus pais e avós. Em 1979, o chiclete Ping Pong amenizou minha nostalgia lançando o Futebol Cards, cartões de jogadores brasileiros, provavelmente inspirados nas estampas Eucalol. Guardo até hoje minha coleção, assim como guardo saudade das mais de 2.400 estampas Eucalol que nunca tive.”
Dica de Luiz André Alzer, jornalista e autor do Almanaque Anos 80.


Para revelar o passado
Filme fotográfico em preto e branco.
Por muito tempo, ele foi a única possibilidade de registrar um momento em imagens. Depois, vieram os filmes coloridos, que por sua vez entraram em extinção com as máquinas digitais. Mas as fotografias em P&B devem resistir – se não pela qualidade que dão às imagens, ao menos pela nostalgia que despertam. Grandes fotógrafos defendem a ideia de que fotos em P&B são mais belas e intensas, e a obra de gênios como o brasileiro Sebastião Salgado prova isso. Disposto a experimentar? Quem tem máquina analógica ainda encontra filmes preto e branco em lojas especializadas. Nas câmeras digitais, é só escolher a opção de fotografar em P&B. E você estará pronto para construir um álbum de marcar época.


Para abrir os armários
Almanaques.
Eles foram os avós das revistas, com anúncios, jogos e conselhos domésticos, distribuídos por lojas no começo do século passado. Hoje, dão nome às coletâneas que nos últimos anos abarrotaram as livrarias. Os almanaques resgatam as memórias mais queridas das décadas passadas. Moda, música, ídolos, filmes, brinquedos, propagandas, comidas e tudo o mais que marca o espírito de uma geração são a matéria de livros como o Almanaque Anos 70, de Ana Maria Bahiana; o Almanaque Anos 80, de Luiz Andre Alzer e Mariana Claudino; e o Almanaque Anos 90, de Silvio Essinger. E ainda tem almanaque de monstros, carros, rock, seriados... Para deixar na mesa da sala e ter assuntos intermináveis com os amigos.

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