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Para viver em paz

Está sufocado? Sente que não dá conta? Parece que os outros são muito mais felizes? Nada de soluções mágicas. Lidar com isso é um aprendizado que ensina a ficar com o essencial
Texto: Jéssica Martineli // Ilustração: Rômolo
Para viver em paz
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Em seu blog, Lalai Luna fez a confissão: “A impressão que eu tenho atualmente é que não dou conta de mais nada, que estou ficando para trás, que as novidades rolam e, quando chegam até mim, já são coisas do passado”. A empresária e DJ, de 38 anos, estava frustrada. Queria ir a festas, ler livros, acompanhar as revistas. “Isso incomoda a minha paz, arruína o meu estômago e colabora imensamente para a minha ansiedade”, revelou.

Lalai não acompanhava tudo o que acontecia ao seu redor. A sensação de “não vou dar conta” tornou-se crítica no fim do ano passado – época em que precisamos optar pelas boas festas com família ou amigos, escolher presentes, a programação das férias, estar em jantares e confraternizações. Para viver em paz, a empresária decidiu abrir mão de algumas coisas. Aproximou-se mais da família e de grupos restritos de amigos. “Instituí jantares em casa em que todos são obrigados a deixar o celular numa cestinha e resgatá-los ao ir embora”, diz. “Assim, prestamos atenção no outro, damos mais risadas e saímos mais felizes.” 

Tudo agora ao mesmo tempo

Essa impressão contemporânea de que a semana tem menos dias que o necessário tem levado médicos e psicólogos a debruçar-se sobre o tema. E eles descobriram que um dos motivos da ansiedade é a possibilidade de ter muitas informações, de forma fácil e constante. “Antes, não tínhamos a sensação de estar atrasados ou perdendo algo”, afirma Dora Sampaio Góes, psicóloga do Programa de Dependência de Internet do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas. “As coisas aconteciam em outro ritmo, e não havia o mesmo acesso às informações. Tudo se acelerou, mas o dia continua com 24 horas, e não estamos biologicamente preparados para isso.”

Deixar de lado algumas coisas é a única saída para enfrentar a avalanche de velocidade com saúde. No entanto, tomar essa atitude é raro. “Não é fácil acatar as consequências de uma escolha, e temos pouco estímulo para aceitar as perdas”, diz Dora. “Mas lidar com frustrações ensina a lidar com a vida.”

Para o publicitário paulistano Felipe Alvarez, de 23 anos, viver com tantas possibilidades era ainda mais difícil. Em vez de uma vida, o paulistano tinha duas: a real e a virtual. “Via ou ouvia algo interessante e me esquecia de curtir o momento. Pensava em postar quanto antes, para que outros curtissem por mim”, conta. Era nas redes sociais que ele se sentia presente na vida dos amigos. “Muitas vezes, nem interagia com as pessoas das minhas redes, mas só o fato de vê-las ali me fazia acreditar que estava participando”, explica Felipe.

Essa vida entre dois mundos tem levado à sensação de estar sempre perdendo algo. O sentimento ganhou até nome nos Estados Unidos: “Fear of Missing Out”, algo como “medo de ficar de fora”. Felipe, que fica quatro horas conectado diariamente, cansou da pressão. Repensou suas relações e abandonou algumas redes sociais. “Agora, quem quer me ver, fala comigo e me convida”, diz.

Dentro dos limites

Identificar o momento de parar é importante para preservar a saúde – e a sanidade. Viver no tudo-ao-mesmo-tempo-agora leva o cérebro a trabalhar no limite da capacidade. “Esse trabalho em multitarefa pode gerar ansiedade e depressão. E, se as fronteiras começam a ser ultrapassadas, chegam os sintomas físicos”, afirma o neurologista Marco Arruda, que estuda o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. Entre eles, estão o esquecimento, a dificuldade em apreender e a busca frenética por mais informações para não se desatualizar.

O tratamento para esses males ainda é identificar os seus limites e estabelecer prioridades. A estudante Beatriz Mendes, de 19 anos, percebeu que precisava pisar no freio para não se perder. Trabalha, estuda e dosa seu tempo com calma. “Fins de semana são na casa da avó. Fico com minha família, pois nos outros dias quase não nos vemos”, diz a garota, de São Paulo. Com isso, o número de amigos diminuiu, mas as amizades ganharam qualidade. Uma seleção natural que dá a ela a certeza de estar no caminho certo. “Aniversário e fim de ano não são para comemorar em balada. Prefiro ficar com quem amo, para desejar coisas boas”, diz. Assim, é mais fácil perceber que, mesmo longe da festa mais concorrida, a vida que você tem agora, ao seu redor, oferece muito para festejar.
 

Em marcha lenta
 
• Escolha suas prioridades.
E saiba que lidar com as perdas
é um aprendizado.

• Você não precisa acompanhar todas as novidades – só as essenciais.

• Não dá para ir a dois lugares ao mesmo tempo. Se o filme é na mesma hora da festa, aceite que
vai perder um dos dois.

• Não ultrapasse seus limites. Trabalhar em multitarefa pode levar à desatenção e a esquecimentos.
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