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Parceria animal

Fofos, robustos ou delicadamente coloridos, os animais são uma divertida companhia – e um estímulo e tanto para colocar o corpo em movimento e deixar a saúde em dia
Texto: Marília Kodic e Nina Weingrill // Imagem: Renato Pizzutto, arquivo pessoal e Mario Nogueira
Parceria animal
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Se você tivesse vivido uns 15 mil anos atrás e encontrasse um animal passando em frente a sua caverna poderia encará-lo apenas de duas maneiras: ameaça ou almoço. Era assim a relação primitiva entre os humanos, então caçadores nômades, e os demais bichos. Um dia, porém, alguma tribo de extrema vanguarda histórica percebeu que determinados animais – a princípio, os de carne pouco abundante ou mais dura – poderiam ser encarados de outra forma. O cão virou companheiro de caça. O cavalo, um aliado e tanto para carregar coisas e pessoas. O que os bichos ganhavam em troca? A proteção humana. E essa colaboração ajudou muito a definir quem somos hoje. A domesticação está ligada a um momento decisivo na trajetória de nossa espécie: o instante em que nos estabelecemos em aldeias fixas, abrindo caminho para o surgimento da civilização.

Da parceria pragmática nasceu o afeto. Hoje, mais do que achar que os cachorros, por exemplo, podem ser bons pegadores de jornal e pantufas, sentimos amor e companheirismo por eles. E isso trouxe novas vantagens: segundo pesquisas recentes, pessoas que têm bicho de estimação são mais generosas, preocupam-se mais com os problemas sociais e vivem mais. Uma das maneiras pelas quais eles contribuem para nossa saúde é nos contagiando com sua energia. Os animais são ótimos companheiros para os esportes, tornando qualquer atividade física mais divertida e cheia de momentos pra fotografar e pendurar na parede. Querem ver?

Amazona mirim

Todas as segundas e quartas, depois do almoço, Nayara Souza, de 10 anos, cumpre o mesmo ritual: pega o ônibus perto de casa, no extremo norte da capital paulista, e cruza boa parte da cidade até o Parque da Água Branca, na Zona Oeste. Chegando lá, veste o culote, a camisa polo, o capacete e as botas de couro. Pega o chicote, respira fundo e monta em um dos cavalos do pavilhão 15. Com postura ereta e concentração total, ela segue até o picadeiro para dar início à aula. Nem parece que começou a treinar há apenas dois meses. “Eu e minha mãe viemos ao parque pela primeira vez para dar uma volta. Quando vi os cavalos, fui correndo perguntar se poderia fazer uma aula”, conta. De onde vem essa paixão da filha, Luciana não imagina: “Ninguém em casa falava sobre isso, nem ela sabe de onde tirou!”, diz a mãe. Mas, agora que começou, a menina está disposta a ir cada vez mais longe. “De vez em quando, eu alugo uns livros sobre cavalos na escola e fico estudando. Você sabia que eles não podem ficar sem ferradura? É importante para a segurança deles e os ajuda a andar melhor”, afirma a pequena, cheia de razão. E já percebe como o convívio com os bichões a tem transformado: “Minha concentração melhorou muito. E também fiquei bem mais calma. Dou amor, carinho, e eles retribuem, passando tranquilidade. Por mim, ficava o dia inteiro aqui”.

Peixe grande

Tem gente que deveria ter nascido peixe. A paulistana Giselle Guerra, de 25 anos, é um desses casos. Desde pequena acostumada a passar as férias na praia, há quatro anos ela decidiu se aventurar em mar aberto. Foi durante uma viagem com a família para Fernando de Noronha. Seu mergulho de batismo – como é chamada a primeira imersão que se dá no fundo do oceano, de máscara, roupa especial, nadadeiras e cilindro de oxigênio – foi, entre os parentes, o mais sereno. Nem a sensação de falta de ar, a baixa temperatura e por vezes o aterrorizante infinito de azul profundo a intimidaram. “Observei o ritmo da água, a cor brilhante dos peixes, o modo como eles se deixam ser levados, e tudo isso me fez sentir calma”, conta, gabando-se de já ter visto tubarão de mais de 1 metro, arraia, moreia e polvo. “Tartarugas, então, foram dezenas.” A aeromoça troca os céus pelo mundo submarino na primeira oportunidade. “Junto dinheiro para mergulhar em todas as férias. Vale cada centavo”, afirma. Além de Fernando de Noronha, a moça já conheceu o fundo azul de Ilhabela (SP), Maceió (AL) e Angra dos Reis (RJ). Agora, ela espera incluir um destino internacional em seu currículo: as cinematográficas ilhas do Caribe, já que a empresa em que trabalha começará a fazer paradas por lá. “Mergulhar é aproveitar o melhor de ser um espectador no meio de uma dança que acontece debaixo dos nossos olhos, todos os dias”, diz.

Uma prancha, seis patas

Caruso Mozart Wolff, baiano de Itacaré, 25 anos, surfista desde os 15, já teve periquito, gato, galinhas e galos. Mas nada comparado à sua relação com Pacato, um pit bull que apareceu em sua vida há oito anos. “Um amigo me disse que estavam vendendo o bichinho. Cheguei ao canil e vi um cachorrinho desnutrido, com frio, à beira da morte. Comprei-o pelo preço de um sapato velho”, conta. Bem alimentado e com a saúde recuperada, Pacato começou a acompanhar o dono à praia, numa alegria só. Mas assim que Caruso subia na prancha, o cão tratava de desaparecer. “Nunca gostei de colocar coleira, mesmo porque, quando tentava amarrá-lo, ele se soltava ou latia muito”, diz. Foi então que surgiu a solução: surfarem juntos. Morder a prancha? Que nada! Pacato cuidou dela como se fosse sua. “Coloquei-o em cima e empurrei o board na marolinha. E ele foi gostando, abanando o rabo. Fomos praticando até eu conseguir subir junto na prancha. Com o tempo, demos pequenas manobras, até pegarmos nosso primeiro tubo. Foi demais!”, lembra. A prática levou a dupla ao estrelato. “Durante um campeonato feminino de surfe, em 2006, entramos na água e, de repente, a praia se encheu de gente para nos assistir. A segurança até nos pediu para sair, pois estávamos tirando a atenção das competidoras”, ri. A modalidade esportiva é inédita, mas serve para confirmar um velho clichê: para Caruso, não há melhor amigo que seu cachorro.

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