Droga Raia

Twitter Facebook Flickr Orkut Delicious RSS
dê uma nota para esta matéria:
Participe:

conviver

Passagem marcada

Grandes viradas em nossa vida merecem celebrações à altura. Reunir os amigos para comemorar essas datas é algo que jamais sairá de moda
Texto: Maurício Monteiro Filho // Ilustração: Paulo Quirino
Passagem marcada
AumentarDiminuir

Vera Carmo, de 54 anos, desconversa quando se pergunta a ela sobre o número de companheiros com que já se juntou – talvez não caibam nos dedos de uma mão. Mas ela não tem dúvida sobre quantas vezes se casou. Nem poderia: foi ela quem fez o pedido ao atual (e único) marido, José Mauro Pontes. Depois de muitos anos, a pesquisadora de mercado, de São Paulo, decretou: “Vamos parar de brigar e nos casar”. A decisão foi tomada em 2007, após José sofrer um grave derrame. O susto alertou Vera de que não poderia desperdiçar nem mais um dia. “A morte é o argumento mais forte da vida. Isso que nos fez entender que tínhamos de nos casar”.

O choque a fez trocar a falta de protocolo que marcou seus relacionamentos até ali por toda a formalidade a que tinha direito. Depois da papelada assinada no civil, foram comemorar numa grande festa. O vestido de Vera não era branco, mas de um elegante tom de rosa. Já o bolo tinha três andares e miniaturas de noivos, como manda o figurino. “Sem rituais, a vida fi ca chapada, com menos sabores e cores. E depois que você realiza um, passa a respeitar outros”, diz Vera.

Hoje em dia, porém, rituais como esse não andam muito em alta. Marcada pelo imediatismo e pelo senso de que tudo pode mudar a qualquer hora – seja o endereço, a profissão, seja até o grande amor –, nossa sociedade tem dado menos valor a cerimônias que pretendem registrar mudanças definitivas. Por acontecerem nesse cenário, é que histórias como a de Vera e José nos impressionam tanto. “O propósito desses rituais é trazer de volta a dimensão sagrada da vida”, diz a socióloga Vitória Mendonça de Barros. “Dessa forma, honramos tanto nossa realidade interior quanto nosso sentimento de pertencer a determinado grupo”, completa.

Début cadenciado

Em vez de matar os rituais, o tempo pode atualizá-los. Foi o que aconteceu com a estudante Bianca Abud, de São Paulo. Como presente de 15 anos, ela trocou a festa, que duraria só uma noite, por uma viagem de duas semanas. Mas uma complicação de última hora a deixou sem o visto para os Estados Unidos, e o passeio foi cancelado a 12 dias de seu aniversário, em dezembro do ano passado.

Enquanto a garota se contentava com uma noitada num boliche, “só para não passar em branco”, seus pais planejaram uma grande comemoração surpresa. Na véspera do aniversário, um domingo chuvoso, pensando que iria a um jantar chique com uma amiga, Bianca estreou um vestido bonito que comprara, sem ter ideia de que seria com ele que sairia nas fotos de sua própria festa de 15 anos. Ela só se deu conta do que estava acontecendo quando viu uma bateria de escola de samba entrando no salão. “Todo mundo começou a dançar! Até minha avó. Foi incontrolável”, relembra.

A festa surpresa da menina foi bastante diferente da que marcou os 15 anos de sua mãe, Vivian, que hoje tem 46. Na época, a comemoração se estendeu por mais de um mês, em que ela e outras 39 debutantes cumpriram uma verdadeira agenda de miss. “Hoje não pode ser tão pesado. Mas tem de fazer festa, porque, querendo ou não, ela deixou de ser uma mocinha”, diz a mãe. O esforço para proporcionar o momento à filha valeu cada noite maldormida. “A festa foi muito legal, marcou tanto quanto a viagem marcaria”, avalia Bianca.

Festa de separação

Mais do que atualizados, os rituais podem ser completamente reinventados. O fim de um casamento, por exemplo, precisa ser triste? A atriz Janaína Leite, de 28 anos, e seu ex-marido, o músico e filósofo Felipe Teixeira, de 32, acham que não. Muito pelo contrário. Para eles, o momento rende uma grande festa.

Apesar de a relação amorosa ter chegado ao fim, os laços afetivos e a parceria artística entre os dois permaneceram. Por isso, eles não se contentaram com o fato de cada um seguir seu caminho e transformaram o processo numa interminável balada: em vez de comunicar a notícia do término do relacionamento em tom solene, eles organizaram diversas festas para assinalar o momento. “Não fizemos isso como celebração de termos nos livrado um do outro, mas como ritual de passagem”, afirma Felipe.

Os eventos já faziam parte de um plano maior: levar toda essa vivência para o teatro, encenando, quase em forma de poema, o que a grande maioria vê como o drama do rompimento. O processo culminou com o espetáculo Festa de Separação – Um Documentário Cênico, que já está em sua segunda temporada, em São Paulo. “No dicionário, a palavra festa não faz nenhuma distinção entre motivos tristes ou felizes”, diz Janaína. “Criamos um espaço de passagem para viver a separação de forma mais leve. As pessoas veem a peça e depois voltam com familiares e até ex-namorados”, completa.

Segundo a especialista Vitória Mendonça, “ficamos mais pobres espiritualmente quando eliminamos os rituais de nossa vida. Vivê-los é valorizar o novo lugar que vamos ocupar”. Histórias como as de Vera e José, Bianca, Janaína e Felipe mostram que, mesmo em meio ao caos da vida moderna, isso continua sendo verdade. Na alegria ou na doença, no amor ou na separação, tudo pode acabar em festa.

dê uma nota para esta matéria:
Participe:
Envie seu comentário:
Nome (preenchimento obrigatório)
E-mail (preenchimento obrigatório, mas não será publicado)
Website
Realização:
Patrocínio:
Instituições beneficiadas:
Medley P&G Kimberly-Clark Reckitt Benckiser EMS
EDITORA MOL Rua Andrade Fernandes, 303, sala 3, Alto de Pinheiros, São Paulo / SP | Email: contato@revistasorria.com.br | Telefone: (11) 3024-2444
2009 - 2010 Editora Mol. Todos os direitos reservados