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Passo a passo

O nome do lugar dava pistas de que chegar não seria fácil: Abismo das Anhumas. Depois da longa caminhada, havia a descida por uma fenda na pedra, a 72 metros de profundidade. Poucos ousaram encarar a escuridão da caverna. Edna Buozzi, 47 anos, bióloga, professora, diretora de escola, mãe de dois adolescentes, foi. O tempo demorou a passar enquanto descia pendurada pelas cordas. Quando pôs os pés no chão, fez-se a luz: uma imensidão de estalagmites, estalactites e lagos de águas cristalinas. A beleza daquele lugar, em Bonito, em Mato Grosso do Sul, foi tanta que Edna chorou. Mais um lugar fora dos mapas turísticos que ela encontrou por causa de sua forma singela de viajar: andando.
Em 1975, então com 15 anos, Edna descobriu o gosto por caminhadas. A primeira aconteceu quando topou um mochilão com amigos de São Paulo, onde vivia, para Resende, no Rio de Janeiro. De lá, seguiram a pé até Mauá, naquela época um vilarejo na serra da Mantiqueira, na fronteira com Minas Gerais, que escondia paisagens inacessíveis a motoristas. Edna se apaixonou pelo caminho. “Viajar a pé é a forma perfeita de conhecer os lugares, porque permite o contato direto com a natureza, as comunidades e a cultura de cada região”, conta. “Andando, me conhecia e me relacionava melhor com as pessoas.”
Desde então, Edna viaja assim, passo a passo. Todos os anos, quando as férias se aproximam, pesquisa lugares novos nos mapas, faz as malas e parte. Chega ao hotel, deixa a bagagem, põe o tênis, veste biquíni e short, pega uma garrafa d’água, guarda um par de meias extra e um dinheirinho no bolso, e sai a caminhar. Assim, sem rumo certo mesmo. “Tem gente que me acha doida. Mas penso que bom é você estar em contato com o que é seu. Quando faço uma caminhada, só tenho a mim. E eu me basto. Quando estou comigo, só entro em contato com o que tenho de melhor.”
As caminhadas não são curtas: chegam a 30 quilômetros por dia. Às vezes sai com o Sol e volta à noite para o hotel. Noutras, arranja pouso pelo caminho. Nesse ritmo, Edna já deixou pegadas do extremo do Rio Grande do Norte, passando por todo o litoral do Nordeste e do Sudeste, até chegar ao Sul (acompanhe as trilhas no mapa). Passou por praias desertas, subiu montanhas de vistas incríveis, atravessou rios, matas, estradas e cidades perdidas. “Só não andei o Brasil inteiro porque preciso voltar para trabalhar. Se tivesse dinheiro que bastasse para a comida e um lugar pra dormir, andaria pelo resto da vida”.
Viajando geralmente sozinha, Edna também já sentiu medo: uma maré que subiu de repente e a deixou ilhada, ratos invadindo o quarto no meio da noite, estranhos mal encarados... “Quando alguém era legal demais e me oferecia casa, ajuda ou qualquer outra coisa de graça, logo desconfiava”, conta. Pois nada de mau jamais lhe aconteceu. “Resistimos à gentileza, mas existe gente muita boa no mundo.” É assim, acredita, que também serão suas próximas viagens, pela Região Norte, passando antes pela Chapada dos Guimarães, em Mato Grosso – sem grandes planos, com bons encontros e muitas caminhadas. “Pode não ser a forma mais adequada de viajar, mas certamente é a mais divertida.”
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Nas pegadas de Edna Viajando nas férias escolares, Edna descobriu boa parte do Brasil, em especial o litoral. |
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• 2002: litoral do Ceará e de parte do Maranhão |

















































