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Pé na lama

Se chover, não tem jogo? Ah, tem sim – e quanto mais lama, melhor. Descubra os esportes perfeitos para quem não tem medo de se sujar. Nem de se divertir
Texto: Jéssica Martineli com colaboração de Anita Martins // Fotos: Rogério Cassimiro, Fernando Donasci e Edu Cavalcanti
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Dizem que foi do lamaçal que o homem surgiu, esculpido no barro para virar vida. No dicionário, a descrição é bem menos poética: lama é mistura viscosa, pegajosa, feita de argila, matéria orgânica e água. Para algumas crianças, a receita parece deliciosa – e elas comem mesmo, como se fosse chocolate. Para os adultos, pode ser medicinal: um creme fresquinho que vem do centro da Terra para deixar a pele sedosa. Para os práticos, é matéria de tijolos. Artistas enxergam formas bonitas que vão virar vasos e esculturas. Os mais afoitos a usam de explicação para feitos pouco orgulhosos: “Pois é, meti o pé na lama”, admitem, e boa coisa não foi.

E tem os esportistas e aventureiros. Um dia, alguém descobriu que na lama se escorrega sem machucar. Pronto: virou diversão. Futebol, pedalada e corrida no barro vêm com uma dose extra de risadas, por conta da sujeira e das videocassetadas involuntárias. E tem quem leve isso muito a sério, como o pessoal de Navegantes, em Santa Catarina, onde há as espetaculares Olimpíadas na Lama. Em 2009, dois agricultores viram num sábado de futebol chuvoso a oportunidade para se dedicar ao futlama. A modalidade virou competição, que acabou reunindo 800 pessoas. Aí o evento se aprimorou com o surfe, corridas da marreca (oi?), de obstáculos e de trator. Tudo chafurdando. “Eu chegava com lama até nos olhos”, conta Nilton Montagna, um dos criadores da maratona. Se do barro a gente veio, voltar a ele é como chegar em casa.



 

A trilha natural

Arnaldo Farias adora chuva. É ela que traz coisas boas da sua vida: a lama, a bicicleta e as trilhas dos fins de semana. Foi nos anos 1990 que o professor de espanhol de 56 anos lembrou que sabia andar sobre duas rodas. Com elas, passou a desbravar as noites de São Paulo. Poucas voltas depois, começou a se aventurar por trilhas mais inóspitas, em pequenas viagens rumo ao interior do estado. Apaixonou-se. “Com o ciclismo, eu descobri a natureza”, conta. Uma década depois, já era fera nas trilhas de mountain bike. Arnaldo chega a rodar mil quilômetros por mês, a maior parte deles no barro. “Gosto de pedalar na chuva, e a lama é inevitável”, diz. Nos últimos dez anos, contabilizou uns 70 mil quilômetros de trilhas e dezenas de trofeus. A distância vira experiência. Para ele, o lamaçal pede mais do físico do ciclista e de seu equipamento. “Um novato não consegue. É difícil, exige técnica. Mas é prazeroso e divertido. Eu dou valor a essas dificuldades e tiro como lição de vida”, conta. Como Arnaldo, quem prefere fugir do asfalto sabe que são situações assim, de contato com a natureza, que resgatam a espontaneidade na vida. “Se tem lama, tem lama. Você tem de aceitar e enfrentar, contemplar e vivenciar.”



 

Garotas que jogam sujo

Para Aline Osegawa não tem tempo ruim. A estudante de arquitetura de 21 anos, capitã do time USP Rugby Feminino, em São Paulo, já se acostumou com as intempéries do esporte que escolheu: campos esburacados, tombos e encontrões, o frio de jogar a céu aberto, na chuva e na lama – muita lama. E ainda acha graça. “A primeira queda é sempre um choque. Mas a gente se acostuma e leva numa boa.” Parente inglês do futebol americano, o rúgbi é considerado o segundo esporte coletivo mais popular do mundo – embora por aqui esteja só começando e meninas como Aline não formem mais do que uma dúzia de times, cada qual com 15 atletas em campo. Dizem que a modalidade surgiu quando, durante uma partida de futebol, um jogador teve a genial iniciativa de pegar a bola com as mãos e correr até a linha de fundo do adversário, proclamando que o feito equivalia a um gol. A maluquice virou esporte, cheio de contato físico – ou seja, trombadas, escorregadelas e montinhos. “É preciso ser ágil e veloz para escapar dos agarrões e fugir com a bola”, explica Aline (na foto, é ela sendo levantada). A chuva multiplica as dificuldades. “A bola fica escorregadia. Há mais risco de perdê-la, e a partida é mais difícil.” Praticante há cinco anos, Aline treina três vezes por semana, na posição de half scrum – uma espécie de meio-campo, que recebe a bola do fundo e, num passe preciso, passa-a à frente. Não é um esporte para fracas. “Tem de se acostumar com a sujeira e perder a frescura na hora de trombar”, afirma. “Mas depois a gente ri bastante. Sempre tem uma que diz: ‘Nossa, como você está limpa, hein?’”.



 

Na crista da onda de barro

De pé sobre a prancha de madeira amarrada ao trator, Ronaldo Corrêa autoriza o motorista a dar a partida. O trator então sai, puxando de arrasto o homem, que tenta se equilibrar na tábua. Menos de 10 segundos depois, ele cai na lama. Dessa vez, a onda de barro não foi boa para o surfista. Mas tudo bem: o que importa para esse catarinense de 37 anos, um pacato corretor de imóveis no dia a dia, é curtir o surfe no lamaçal. Ronaldo passou a infância na lavoura de arroz dos pais, e foi lá que começou sua relação com, digamos, a terra. “Eu e meus irmãos jogávamos barro uns nos outros sempre que o pai não estava olhando. A gente chegava em casa sujo até a orelha. Se não estivéssemos limpos depois do banho, a mãe mandava para o chuveiro de novo”, conta. Mais velho, partiu para outro esporte embarreado: o surfe de rio. “A prancha é puxada por uma lancha, e sempre pedíamos para o barco chegar bem perto da margem, onde tem lama”, explica. Quando soube da possibilidade de fazer o mesmo no barro, virou fã. Ou, melhor, campeão das Olímpiadas na Lama, a inusitada competição que reúne diversas modalidades do gênero chafurdar, na pioneira cidade de Navegantes, no litoral catarinense. Para Ronaldo, mais do que ganhar medalhas, praticar o esporte é relembrar a infância e recuperar a liberdade. Quando pratica o surfe no barro, ele deixa de lado a camisa de botão, a calça social e os sapatos de couro. No lugar, entram o short e a camiseta, que podem ir direto para o lixo depois da prova. E, enquanto não consegue surfar na lama todo fim de semana, por falta de espaço, chuva e trator, Ronaldo sonha com a popularização da prática. “Quem sabe, um dia, o surfe na lama estará nas Olimpíadas.” 

 

VEJA MAIS:

• Clique aqui e confira o making of do professor Arnaldo

• Para outras aventuras do professor Arnaldo, confira o blog http://www.professorarnaldomtb.com.br/

• Confira aqui as fotos que fizemos das Olimpíadas da Lama.

• Veja aqui outros vídeos da Sorria.

• Clique aqui e confira outras histórias dos nossos bastidores.

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