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Pequenas grandes vitórias

Qual foi a maior conquista da sua infância? Atravessar sozinho a rua, trocar o berço pela cama, ganhar um concurso de desenho? Relembre as alegrias e lições desses imensos primeiros feitos
Texto: Ana Luísa Vieira, com a colaboração de Cristina Casagrande, Mariana Gomes, Rita Loiola, Romy Aikawa e Tatiana Bandeira // Fotos: Rodrigo Braga // Cenografia: Rafael Blas
Pequenas grandes vitórias
Há 60 anos, Adhemar, de 74, aprendeu a dirigir como os caminhoneiros que tanto admirava. Só faltou o quepe
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Você já foi capaz de conquistas incríveis. Venceu obstáculos que pareciam maiores que o mundo, experimentou sensações ditas inacessíveis, logrou êxitos até então reservados para poucos privilegiados. Não se lembra? É só pensar um pouco. Você recordará a sensação de maturidade que lhe tomou conta quando conseguiu vencer o vício da chupeta, o peito estufado de quem enfi m fez uma pipa levantar voo, o orgulho de desvendar o universo de mistério que rege os ponteiros do relógio...

Ao relembrar essas histórias, é impossível não se emocionar, rir de nossa ingenuidade, sentir saudade. Mas acionar essas memórias também traz uma lição fundamental às pessoas que somos hoje. Na época em que nos inquietaram, os desafios de nossa infância eram tão imensos quanto podíamos imaginar. Na vida adulta, não passam de tarefas banais, que cumprimos sem nem perceber. Será que as conquistas pelas quais lutamos hoje, e que parecem provações infi nitas, um dia também restarão diminutas? Confira uma seleção de depoimentos que celebra as alegrias e os aprendizados das pequenas grandes conquistas do começo da nossa vida.

 

Eu tinha uma vontade danada de ser chofer. Naquela época, usava-se a palavra francesa mesmo. E, para mim, nascido e criado no meio do mato, chofer era aquele sujeito de quepe – um tipo de boné mais encorpado que eu era louco para ter – à frente do caminhão. Volta e meia eu via um, transportando lenha ou porcos pelas estradas de terra, e fi cava sonhando com o dia em que eu seria igual. Até que, em 1950, meu pai comprou seu primeiro veículo, um Jeep Willys Overland. Aos 14 anos, com a ajuda de um primo, eu me esforcei e aprendi a dirigi-lo, inclusive na lama. Foi a glória! Eu me sentia um verdadeiro chofer – só não tinha o quepe.
Adhemar da Silveira, 74 anos, Atibaia (SP).

 

Eu ficava intrigada quando os mais velhos viam as horas em relógios de ponteiros. Como aquilo era possível? A resposta veio aos 6 anos. Na escola, recortamos um papel todo colorido e fi zemos as marcações de horas e minutos. Fiquei atenta às explicações da professora, e, depois disso, toda vez que passava em frente a um par de ponteiros, fazia questão de treinar. Quando chegou o Natal, ganhei o presente com que mais sonhara: meu próprio relógio de pulso! Achava o máximo quando alguém
me perguntava as horas: olhava para os ponteiros e, com cara de quem calcula algo muito sério, dava uma resposta precisa.
Giulia Andrade, 18 anos, Florianópolis.

 

Minha vida de garoto de 3 anos era pontuada por visitas de amigos. Brincávamos por várias horas, mas, como filho único, às vezes me enchia da companhia e queria que eles fossem embora. A exceção era minha namorada – ou pelo menos a menina que assim eu considerava... Queria de toda forma impressioná-la. Ciente de que ela não usava mais chupeta, decidi mostrar que eu também já era crescido. Tomado pela paixão, joguei minha companheira de plástico na lata do lixo. O dia transcorreu tranquilo. Mas na hora de dormir eu não parava de chorar. Fiz minha mãe ir até a farmácia comprar uma chupeta nova. Minha vitória logo se esvaziou, mas foi muito doce enquanto durou.
Felipe Mendonça, 30 anos, Londres, Inglaterra.

 

Parece mentira, mas eu tinha 2 anos e meio quando resolvi tomar essa decisão: assim que voltasse da viagem à praia, eu trocaria o berço pela cama e largaria a mamadeira e a chupeta, tudo de uma vez. Meus pais não deram muita trela. Mas, quando cheguei em casa, dito e feito! Arranquei a chupeta da boca e pronto, primeira promessa cumprida. Conquistada a cama pra dormir, fiquei esperando minha mãe trazer o leitinho – no copo, claro. Para atingir a maturidade, geralmente a gente acaba quebrando a cara. Eu molhei a minha: deitada, tal como fazia com a mamadeira, virei o copo todo em direção à boca. Meu rosto, o travesseiro e o colchão ficaram empapados. Senti na pele o sabor do amadurecimento: uma delícia!
Cristina Figueiredo, 27 anos, Osasco (SP).

 

Para nós, meninos daqueles tempos, uma experiência inesquecível era empinar o papagaio. Lembro-me como se fosse hoje. Era uma manhã limpa e fresca. Eu corria para cima e para baixo no pastinho à frente de casa com a pipa na mão. Ela ameaçava subir, mas logo descia, balançando o rabo. Eu tinha o papagaio, tinha a linha, mas ainda não havia aprendido a sentir o vento. Não é preciso correr. Vindo a rajada, é só dar linha. Quando percebi isso, a pipa subiu. Sorri como um bobo. O papagaio se tornou
para mim um símbolo de liberdade.
Rubem Alves, 77 anos, Campinas (SP).

 

Minha primeira decepção amorosa foi aos 11 anos. Eu era caída por um guri três ou quatro anos mais velho, líder do time de vôlei da escola. Achava que era correspondida. Desci das nuvens quando descobri que ele gostava, isso sim, da minha melhor amiga. Naquela tarde chuvosa, fui para casa fungando e desfiando um mantra: se não gosta de mim, não tem motivo para eu correr atrás, nem lamentar. Esse pensamento foi o meu sol naquele dia e o meu norte até hoje. Onde quer que tu estejas, Leandro, obrigada.
Catia Bandeira, 39 anos, Porto Alegre.

 

Em casa só tínhamos uma televisão. Minha irmã mais velha era quem decidia o que iríamos ver, e nossos interesses nunca batiam. Então, com 12 anos, resolvi comprar uma TV só para mim. Vi um anúncio em um panfleto e fiz a conta: se, durante um ano inteirinho, guardasse 1 real por dia – exatamente o valor que minha mãe me dava para lanchar na escola –, já teria boa parte do valor. Para conseguir o restante, passei a lavar os carros dos parentes e a carpir o quintal de casa. Mesmo morrendo de medo que o aparelho fosse vendido ou aumentasse de preço, não desisti. Um real atrás do outro, conquistei uma pequena televisão 14 polegadas.
Peri Semmelmann, 27 anos, Santo André (SP).

 


Jozelia, de 39 anos, viu que havia virado moça quando sua
mãe lhe confiou um lençol para ela lavar sozinha no rio

 

Todo dia pela manhã, aos 7 anos, eu ia sozinho nadar no clube. A piscina era quase toda minha, a não ser por uma mãe e sua filha, que também a frequentavam diariamente. Aquela moreninha linda, de olhos claros, mexia com meus brios: como ficar agarrado à beirada, sem saber nadar, na sua frente? Disposto a fazer bonito, fui me arriscando, aumentando as braçadas. Quando dei por mim, já conseguia ir de ponta a ponta. Não tive coragem de me apresentar, de modo que ela nem imagina a importância que teve no meu aprendizado. Mas nunca vou esquecer a sensação daquela conquista.
Nélio Abbade Jr., 45 anos, São Paulo.

 

Com uns 11 anos, pedi à minha mãe que me ensinasse a fazer tricô. Ela disse que seria desperdício de material, e que lã custava caro. Então, peguei uma blusa e descobri como descosturar. Enrolei os fios em uns cones vazios, peguei as agulhas emprestadas, sentei ao lado dela e fiquei observando. Tentei muitas vezes, até conseguir fazer os pontos mais simples. Assim tricotei meu primeiro cachecol. Ficou com cara de velho e sujo, por causa da lã reciclada. Mas meu orgulho era imenso!
Yara Verônica Ferreira, 45 anos, São Paulo.

 

Atravessar a rua sozinho: eis meu primeiro grande feito. Eu tinha uns 7 anos, e meu melhor amigo morava em frente de casa. Quando eu ia brincar lá, minha mãe me levava. Mas um dia ela decidiu que havia chegado a hora de eu ir sozinho. Ela me deu um beijo de boa sorte e fi cou me observando da janela, com minha tia. Com frio na barriga, lá fui eu, parecendo que ia cruzar o mundo. Parei na calçada e fiquei olhando os carros passar, esperando o momento exato. Quando ouvi um “vai” vindo de casa, corri como o Forrest Gump! Parei do outro lado da rua e acenei, orgulhoso, à dupla de torcedoras, que, emocionada, comemorava minha vitória.
André Rodrigues, 27 anos, São Paulo.

 

Aos 5 anos, eu já queria ser artista. Meu sonho era desenhar e criar músicas. Tanto que meu primeiro presente de Natal foi um pianinho, lindo. Toda noite, pedia a Deus para crescer rapidamente. Eu achava que, se tivesse de esperar até ficar adulta, não daria tempo de criar coisas novas, pois tudo já teria sido feito. Aí, um dia, minha avó me inscreveu em um concurso de desenho no jornal do bairro. Vocês acreditam que eu ganhei? Minha obra saiu na primeira página! Nesse momento, entendi que a criatividade é uma fonte inesgotável. Foi meu maior achado, uma grande conquista... E um alívio!
Aline Casassa, 25 anos, São Paulo.

 

Tinha 9 anos quando ganhei um estojo daqueles com canetinhas coloridas, giz de cera, lápis de cor e aquarela. Estávamos em meados de agosto, batia aquele solzinho gostoso. Quando cheguei do colégio, fui logo estrear meu kit. Inspirada por um álbum de adesivos do Garfield, comecei a traçar as primeiras linhas no meu caderno de desenho. Quando terminei, fui saltitando exibir a obra de arte. Não fi cou lá essas coisas, mas os olhos de meus pais brilhavam de orgulho. Dentro de mim nasceu, naquele momento, uma pessoa segura sobre sua capacidade. E é essa sensação que me impulsiona a descobrir coisas novas até hoje.
Luciana Pacheco Silva, 28 anos, Salvador.

 

Nasci num lugarejo no interior da Bahia chamado Barroca do Faleiro. Era serra de um lado e do outro, com um rio no meio. Nessas águas, minha mãe lavava as roupas de nossa família: calças, camisas, toalhas... E também os lençóis, que pareciam
enormes diante de meus olhos de 8 anos. Punha-me a pensar: como mamãe consegue lavá-los tão bem? Queria ajudá-la, mas ela dizia que eu era muito pequena. Até que um dia ela me pediu para colocar algumas roupas de molho. Junto havia um lençol, todinho pra mim! Eu o ensaboei, esfreguei e enxaguei, com muita alegria. Mas minha felicidade foi ainda maior quando a ouvi dizer que ficara muito bem lavado, que eu já era uma mocinha e que, a partir daquele dia, poderia dar conta de peças de qualquer tamanho.
Jozelia da Silva, 39 anos, São Paulo.


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