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Pernas, para que te quero!

São elas que sustentam e amparam nossos passos. E um par de pernas – de carne e osso, ou não – nos dá o maior apoio para as mais divertidas atividades
Textos: Jéssica Martinelli, Rafaela Carvalho e Tissiane Vicentin
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Andar, correr, saltar, agachar, dançar. São as pernas que suportam nossa vontade de sair por aí correndo, pulando, subindo escadarias ou fazendo piruetas. Sem o apoio das mãos, mudamos a história do planeta. Quando nosso ancestral australopiteco decidiu tirar os braços do chão e andar só com as pernas, ele acabou inventando uma nova espécie. Não se sabe ao certo por que ele decidiu usar as mãos para outras coisas – como pegar objetos ou tentar alcançar alimentos no topo das árvores –, mas o que se sabe é que, a partir daí, as pernas ficaram livres para se divertir.

Afinal, é nelas que está o maior osso do corpo humano. O fêmur fica na coxa e é um dos pilares de todo o nosso esqueleto (em um homem de 1,80 m ele pode chegar a 50 cm). Com a ajuda de músculos e tendões, divididos em duas coxas e panturrilhas, temos uma base sólida para todas as nossas aventuras. E não precisamos de mais. Enquanto uma centopeia usa até 320 pernas só para andar, nós precisamos de apenas duas para correr a altas velocidades, rodopiar ou tomar impulso para os mais belos passos de dança.
 


Foto: Guilherme Gomes

Na terra dos cossacos

As pernas se alternam em um ritmo cadenciado. Uma chuta o ar enquanto a outra mantém o corpo equilibrado. Agachado, o dançarino joga as mãos para cima e as costas permanecem eretas. Para pernas treinadas, como as de Boris Gers Dimitrov, de 18 anos, a plisiatka, nome desse movimento, é mais fácil do que parece. “Mas precisa de muita força nas pernas”, diz o estudante de São Paulo, que sabe os passos das danças russas desde os 3 anos. Feitas principalmente com a parte de baixo dos quadris, as coreografias do país têm origem nos rituais pagãos. Boris aprendeu as danças porque sua mãe, Tamara, é uma das fundadoras do Grupo Volga de Folclore Russo, no bairro de Vila Zelina, em São Paulo. Em 1981, ela e dois amigos fundaram a associação porque queriam manter as tradições de seus ancestrais. Aprenderam o significado de cada movimento. Na dança, as solteiras fazem um tipo de passo, as casadas, outro, e os cossacos – defensores das fronteiras russas no século 17 – são representados pelos homens, em trajes militares. As performances também são responsabilidade deles. Com tantos movimentos diferentes, cada um encontra seu lugar. “O único limite é físico. Mesmo assim, cada um participa com o que está ao seu alcance”, diz Boris.


 


Foto: Rodrigo Braga

A corredora de escadas

No último domingo de agosto de 2010, Rosalda Fernandes subiu de um fôlego só 765 degraus. E ela nem estava pagando promessa. A empregada doméstica de 51 anos era uma das participantes da corrida vertical, modalidade que consiste em vencer grandes escadarias em pouco tempo. No topo do quinto prédio mais alto de São Paulo, com 142 metros e 31 andares, Rosalda sentiu-se uma vencedora. “Não sei em que posição fiquei nem quanto tempo levei até lá em cima”, diz a atleta. “Terminar de subir aquelas escadas já dá uma sensação maravilhosa de vitória.”

A competição para quem gosta de subir degraus correndo faz parte de um circuito mundial organizado pela Federação Internacional Skyrunning e passa por países como Estados Unidos, Inglaterra, Taiwan e Cingapura. A corrida de escadas é dividida em pelotões de acordo com a idade dos participantes. Todos, desde jovens a partir dos 18 anos até idosos, são bem-vindos.

Rosalda descobriu a corrida por causa da filha, que soube da disputa e a inscreveu. Como corre e faz caminhadas para cuidar da saúde, Rosalda achou a corrida vertical uma boa. Afinal, para quem corre provas de 10 quilômetros e já participou de meia-maratona, o que são algumas centenas de degraus? Só que a escalada de escada em alta velocidade é mais desgastante que correr na rua. “As pernas doem mais, começam a queimar. É bem mais cansativo”, conta.

Para treinar, ela abandonou de vez o elevador do prédio onde mora. Sobe todos os degraus em um pique só para chegar ao seu apartamento, no 8º andar. “Tem dias que chego a subir de dois em dois!”, diz, orgulhosa. Nos fins de semana, Rosalda treina fazendo a subida três vezes seguidas. É que neste ano tem corrida vertical de novo, e ela quer participar. “Gosto de fazer isso porque sinto que estou cuidando da minha saúde.”
 

 


Foto: Luiz Marques

Corrida sem obstáculos

Sobre levíssimas pernas de fibra de carbono, Alan Fonteles faz 100 metros em menos de 12 segundos. Como um filho do vento, corre, todos os dias, centenas de metros. A meta é chegar ao pódio da Paraolimpíada de Londres, no ano que vem. “Quanto mais eu corro, mais tenho vontade de continuar”, diz o atleta paraense, de 18 anos. “É uma felicidade inexplicável.”

É que correr é o que Alan sempre quis fazer. Com apenas três semanas de vida, ele teve metade das duas pernas amputadas por causa de uma infecção. “Com 8 anos, vi meus amigos correndo e decidi que queria treinar atletismo”, conta. Começou na cidade de Marabá, onde nasceu, e hoje é um dos campeões brasileiros nas provas de atletismo. Corre sobre pernas que pesam 600 gramas e têm nome: cheetah. Foi com elas que ele conseguiu uma vaga na Paraolimpíada de Pequim, em 2008. Bateu o recorde brasileiro dos 200 metros e, com a equipe de revezamento 4x100, voltou para casa com a medalha de prata.

Mas, quando prefere andar na velocidade de um ser humano comum, ele substitui as pernas tecnológicas por um par feito de titânio e revestido de madeira. É mais pesado e não serve para grandes velocidades. Mas é com elas que caminha e faz as atividades da rotina fora das pistas. Como as aulas da faculdade de Educação Física, que frequenta para se aperfeiçoar. “Quero ser técnico de atletismo”, diz. Enquanto isso, vai treinando para o Parapanamericano de Guadalajara, no México, em novembro. E, depois, o objetivo é ser ainda mais rápido na Europa. “Ser reconhecido no meu país, e até no mundo,  é uma satisfação muito grande. Quero ser ainda mais veloz.”

 

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Clique aqui para conhecer o artista circense Wallace Kyoskys, mais um personagem dessa matéria!

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