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Piada de bom gosto

Imagino que deve ser muito sofrido para um passarinho viver numa cidade como São Paulo. Nascidos para só produzir e ouvir música da melhor qualidade, eles se veem imersos em buzinas, alarmes, sirenes e roncos de toda sorte de motor. Mesmo assim, seguem cantando. Para quem souber escutar.
Hoje mesmo, quando acordei, eles estavam lá, bem-me-vendo. Afora esses, que gritam o próprio nome, não sou capaz de reconhecer nenhuma espécie. Tampouco sei se estão marcando território, anunciando algum perigo, cantando uma passarinha ou só treinando – dizem que eles não nascem sabendo os cantos; aprendem com os mais velhos. Só sei que é divertido. Fico com a sequência de notas na cabeça e, se não tem ninguém olhando, assovio para tentar me comunicar. Garanto que uma vez consegui estabelecer um diálogo. Não entendi nada do que ele me disse, mas foi uma grande emoção.
A gente não pode voar, não tem bico nem siringe – o que, acabei de descobrir, é o órgão vocal das aves. Mas pode cantar como passarinho. Nem todo mundo consegue, é verdade. E não há muito como ensinar além de repetir as regras básicas: faça biquinho e assopre. O resto é treino. Lembro como foi incrível quando, lá pelos 8 anos, após boas horas tentando, assoviei pela primeira vez. Até hoje acho impressionante: como sabemos o jeito certo de dobrar a língua e a abertura exata dos lábios para produzir a nota que queremos? Simplesmente sabemos... Não serve para marcar território, não anuncia perigo
e, principalmente se for um fiu-fiu barato, não conquista ninguém. Mas é uma experiência e tanto. Assim como ser acordado por bem-te-vis, em meio à barulheira de São Paulo.

















































