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Plantas invadem a cidade

Há dois anos, a operadora de telemarketing Marcela Patrícia dos Santos, de 28 anos, se mudou para o novíssimo bairro Residencial Atenas, em Birigui (SP). Chegou cheia de ideias: construir um parquinho para as crianças, um campo de futebol... E o que fazer com aquele terreno baldio repleto de lixo e entulho? Por que não transformá-lo numa horta coletiva, em que todos possam se divertir cuidando das plantas e ainda colher alimentos fresquinhos?
Seu marido, o vendedor Amauri Braulino de Melo, de 47 anos, deu todo o apoio. Juntos, eles bateram às portas dos vizinhos, para saber quem toparia fazer parte da iniciativa. Nem todos se empolgaram logo de início. Mas o casal não desanimou. Com a lista de interessados na mão, Marcela entrou em contato com a prefeitura, que forneceu sementes, terra, tela e adubo. Os moradores ofereceram trabalho e dedicação. “Quando o espaço finalmente ficou pronto, foi como uma vida nascendo”, diz a idealizadora.
O terreno de 1.000 metros quadrados é dividido em 30 partes – cada família fica responsável pela sua. Quem não se inscreveu antes da criação da horta ou chegou ao bairro depois entra em uma fila de espera. “Mas sempre acontece de uma família doar canteiros a outra que não tem”, explica Amauri.
Iniciativas como essa brotam em todos os cantos de Birigui. A cidade tem 45 plantações desse tipo, que atendem 2.600 famílias. Os cultivos fazem parte do projeto Hortas Comunitárias, criado há 25 anos pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social. “O objetivo é melhorar a qualidade da alimentação, principalmente nas áreas da periferia, e incentivar a convivência em comunidade”, afirma Josená Vitorino da Silva, coordenador de projetos sociais da secretaria.
Quando um morador faz o pedido para transformar algum espaço em horta, a prefeitura não só cede o material necessário como prepara o solo e disponibiliza apoio técnico. “Como as pessoas
começaram a colher do próprio quintal, conseguimos derrubar o preço dos vegetais no mercado”, comemora Josená. Marcela se considera uma privilegiada por não precisar mais enfrentar a fila do caixa quando quer fazer uma boa salada. E adora o ar de tranquilidade que a horta trouxe ao bairro. “Todos os fins de tarde, depois do trabalho, eu fico vendo meus pés de alface e batendo papo com os vizinhos”, conta. “A plantação já faz parte da minha família.”
Pausa suculenta
Em 1985, quando o Hortas Comunitárias surgiu em Birigui, dava para contar nos dedos de uma mão quantas capitais brasileiras tinham projetos semelhantes. Já em 2007, o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome registrou 635 iniciativas de agricultura urbana e periurbana – o nome oficial desse tipo de atividade –, em 11 regiões metropolitanas: Belém, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.
Mas a disseminação das hortas nos ambientes urbanos não se deve apenas ao poder público. Algumas empresas já perceberam os benefícios de implantá-las no ambiente corporativo. Como a Spcom, do setor de telemarketing, em São Paulo. A companhia oferece aos funcionários um espaço de 1.700 metros quadrados repleto de frutas e hortaliças.
Fabiana Oliveira, de 27 anos, contratada há dez meses, costuma chegar mais cedo ao trabalho para passear por entre as plantas. E, sempre que tem uma folguinha entre as cerca de 50 ligações que faz por dia, ela vai relaxar – e se deliciar – na horta. “Um dia eu e uma colega passamos mais de meia hora comendo ameixas amarelas”, lembra. “É uma área silenciosa, longe do tumulto. Só de caminhar aqui a gente já se sente bem”, completa.
Os 2.000 funcionários da unidade ainda podem levar os vegetais para casa. Sempre que dá, a operadora Deise Rodrigues, de 30 anos, sai do expediente com uma sacola de alface roxa, couve e o que mais lhe apetecer. “Levo para a minha casa e para a da minha mãe. É tudo sem agrotóxico!”, diz.
O espaço existe desde 2003. Um técnico se responsabiliza pelos cuidados, mas todos estão convidados a participar do cultivo. “Ao criar a horta, quisemos oferecer aos funcionários um espaço agradável e relaxante”, informa a diretora de marketing Méia Parreira. E ela não tem dúvida de que o investimento valeu muito a pena: “Houve uma significativa melhora no ambiente de trabalho. A equipe tende a ficar mais relaxada”, acredita.
Remédio verde
Nem só frutas, legumes e verduras são cultivados em espaços coletivos. Nos hortos do projeto Farmácia Viva, da Universidade Federal do Ceará, o que brota são ervas medicinais. Transformadas em remédios naturais, elas são distribuídas gratuitamente à população, que já sabe: para dificuldades respiratórias, xarope de xambá; se o estômago não vai bem, chá de boldo; no caso de problemas ginecológicos, a solução é o gel de aroeira.
Na origem do projeto está o trabalho do professor Francisco José de Abreu Matos, que, desde a década de 1960, pesquisava os efeitos das plantas locais sobre a saúde. “Ele catalogou 102 espécies, e, entre elas, escolhemos 40 para ser analisadas em laboratório”, conta a professora Mary Anne Bandeira, uma das herdeiras do legado de Francisco, que morreu há dois anos. Cientificamente testadas, as plantas são cultivadas em 54 hortos espalhados pelo estado. Os remédios produzidos com elas são encaminhados aos postos de saúde. “Devolvemos ao povo o que é dele”, diz Mary Anne. O projeto faz parte do Sistema Único de Saúde, do governo federal, e é realizado em parceria com as prefeituras.
O município de Maracanaú dispõe de uma Farmácia Viva desde 1992. As plantas vão para um laboratório na própria cidade e são transformadas em 18.000 medicamentos disponibilizados todo mês para a população. O acesso ao horto é controlado, para evitar os perigos da automedicação.
Uma das entusiastas dos fitoterápicos em Maracanaú é a assistente farmacêutica Katia Regina do Carmo, de 41 anos. Foram as plantas que ajudaram seu filho, de 25 anos, a se recuperar de um acidente de moto. “Ele teve escoriações e um ferimento grave na mandíbula. Usamos muito antisséptico de alecrim e pomada natural cicatrizante”, conta. Para o neto, que tem bronquite, ela se recusa a dar produtos cheios de química. É só xarope de xambá mesmo, o maior sucesso medicinal da cidade.
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