Droga Raia

Twitter Facebook Flickr Orkut Delicious RSS
dê uma nota para esta matéria:
Compartilhe:

conviver

Portas abertas

Fabiana recebe crianças que nunca viram o mar. Ana reúne poetas. Generosa faz uma feijoada de lotar a rua. E a sua casa? Ela também pode ser o palco de divertidos encontros
Texto: Daniela Marques // Ilustração: Mariana Coan
Portas abertas
AumentarDiminuir

Quando o último fim de semana do mês se aproxima, Maria Generosa da Silva, de 56 anos, já sabe que, junto, vem muito trabalho. Na quinta ou sexta-feira ela vai ao mercado e volta com 60 quilos de comida, entre sacos de feijão e carne. Sábado é dia de começar a cozinhar. No domingo, acorda às 3 horas da madrugada. Até as 11 da manhã tudo deve estar pronto para a multidão que lotará a rua da sua casa, em São Paulo, ansiosa pela famosa “feijoada da lajinha”.

Há quase 20 anos, ela repete esse ritual. O diagnóstico de mal de Parkinson, no ano passado, só a estimulou a manter a tradição. “Trabalho tanto que nem dá tempo de pensar na doença”, diz. A comida é vendida, mas não dá lucro – o dinheiro serve apenas para financiar o evento do mês seguinte. O que Maria Generosa ganha com tanto esforço é nada mais do que a alegria de abrir as portas da sua casa a quem gosta de um bom tempero e de um bom balanço. Os encontros são animados por uma tradicional roda de samba.

“As comemorações da minha família sempre aconteceram na laje de casa. A música e a comida começaram a chamar a atenção do pessoal do bairro. Quando vi, a gente já reunia mais de 100 pessoas. Agora, a turma nem cabe mais na laje. A festa acontece na rua, e eles só sobem mesmo para comer”, conta.

A feijoada ficou tão famosa que começou a atrair moradores de outros bairros. Como o doutor em antropologia José Guilherme Magnani. Segundo ele, encontros como os promovidos por Maria Generosa se destacam pela diversidade do público. “Quem realiza eventos assim deseja ampliar seus vínculos de sociabilidade. Quando existe essa disposição de entrar em contato com desconhecidos, ocorrem trocas importantes. Principalmente se são pessoas de realidades e culturas diferentes”, afirma.

A mistura de culturas também está na origem de eventos desse tipo. Para a historiadora Rosana Miziara, o fato de o povo brasileiro ter sido formado por uma ampla miscigenação nos torna mais predispostos ao diálogo. “Está na nossa história. É verdade que a convivência entre as várias culturas nem sempre foi pacífica. Mas, de qualquer forma, contribuiu para que aprendêssemos a lidar com as diferenças”, diz.

Prosa e versos

Celebrar a efervescência cultural que resulta do encontro de diferentes cabeças é o que move a poetisa e produtora cultural Ana Rüsche, de 31 anos, a realizar reuniões literárias no seu apartamento, em São Paulo. Duas vezes ao mês, em noites de sábado, ela recebe em casa uma turma que gosta de ler e falar sobre poesia. “Literatura não se faz de forma solitária, e nada melhor que dividi-la com quem está disposto a participar”, diz.

Ela prefere não chamar os encontros de “saraus”. Acha a palavra pomposa demais para descrever o clima informal das reuniões – que são animadas pelos latidos de seu cachorrinho e por petiscos que Ana tem o maior prazer em cozinhar. “Pão de queijo tem sempre, mas já fiz também caldinho de feijão e outras comidinhas de boteco”, conta.

Além dos frequentadores fiéis, as festinhas normalmente atraem gente nova. “Já recebi poetas até mesmo de outros países. Acho que essa é uma forma bem bonita de compartilhar o tempo e a amizade.” Em meio ao bate-papo, o pessoal apresenta seus novos poemas, apreciando em grupo aquilo que mais gostam de fazer. “É muito bom receber as pessoas, ouvi-las e sentir aquele arrepio na espinha que nos faz ter vontade de continuar a viver”, diz a anfitriã.

Mar à vista

Abrir as portas de casa é uma tradição que já dura três gerações na família Santos. Começou com Ana Ribeiro, a “vovó Anita”. Na chácara de frente para o mar, em Santos (SP), sua maior satisfação era reunir os 12 filhos, além de noras, genros, netos e quem mais eles quisessem convidar. Volta e meia aparecia por ali alguém que nunca tinha visto o mar. O caçula, Américo, ficava inconformado.

Quando Ana faleceu, Américo decidiu transformar a casa em um centro que permitisse a crianças do país inteiro ter o prazer que ele tanto curtiu na infância: brincar na praia. Em 1972, finalmente, ele cumpriu sua meta, inaugurando a Casa da Vovó Anita.

A instituição recebe grupos de dezenas de crianças atendidas por entidades sociais. Possui dormitórios para mais de 100 pessoas, refeitório, biblioteca, sala de brinquedos, auditório e enfermaria. Desde que Américo faleceu, em 1983, quem coordena o projeto é sua mulher, Maria Stella, com apoio da família.

A neta Fabiana Schaeffer, de 39 anos, é uma das envolvidas. Ela conta que a casa já recebeu até crianças do Acre. “É lindo quando elas veem o mar pela primeira vez. Algumas querem levar a espuminha, para mostrar aos pais”, diz. Assim como Maria Generosa e Ana, a família Santos descobriu que deixar as portas de casa abertas pode fazer muita gente feliz. A começar por quem mora ali.

dê uma nota para esta matéria:
Compartilhe:
Envie seu comentário:
Nome (preenchimento obrigatório)
E-mail (preenchimento obrigatório, mas não será publicado)
Website
Realização:
Patrocínio:
Instituições beneficiadas:
Medley P&G Kimberly-Clark Reckitt Benckiser EMS
EDITORA MOL Rua Andrade Fernandes, 303, sala 3, Alto de Pinheiros, São Paulo / SP | Email: contato@revistasorria.com.br | Telefone: (11) 3024-2444
2009 - 2010 Editora Mol. Todos os direitos reservados