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Precisa me amar

Na primeira vez em que me apaixonei, tinha 6 anos. Foi como ser acertada por um raio: trocamos olhares e – ai, que ainda me dói lembrar! – ele tinha os olhos mais imensos e brilhantes que já vira. Subitamente, soube: era amor. Pertencíamos um ao outro, e nada poderia nos separar – exceto minha mãe. Ela não deu trela para o filhote de coelho cinza e rechonchudo, que me chamava pelas grades da gaiola, na entrada da loja de rações.
Na volta para casa e por mais alguns dias, chorei rios e implorei, o coração partido:
“A gente tem de voltar! O coelhinho está triste e sozinho! Ele precisa de mim!”.
Até hoje esse impulso me domina. Todos os meus bichos foram adotados pela minha incapacidade de resistir a um filhote com jeito de coitadinho. Soube esses tempos que é um truque da natureza. Entre mamíferos, ser fofo é estratégia de sobrevivência: como exigem muitos cuidados, os filhotes precisam despertar nos adultos o instinto protetor. E, golpe baixo, fazem isso com orelhas caídas, dobrinhas extras de pele, olhos suplicantes, uma pancinha roliça, o pelo feito pra passar a mão. Basta ver um bocejo, o ar de surpresa enquanto explora a sala, o modo desajeitado de correr, e perdoamos sapatos roídos e xixis no sofá. Sem falar naquelas patinhas com dedos de bolinhas: quando são cor de rosa, olha, acho que sou capaz de tudo.
Se isso for um truque, adoro ser enganada. E encher meus braços com um bichinho de coração acelerado, que me faz sentir forte e necessária. Que me provoca sorrisos instantâneos e me faz falar desse jeito meio bobo. Filhotes são a coisa mais irresistível do mundo, porque amá-los é simples, e a retribuição é espontânea. Definitivamente, preciso de mais um coelho.


















































