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Prova de força

Será que nossas ruas garantem o ir e vir? Juliana topou o desafio de viver, por alguns dias, com dificuldades de locomoção. E descobriu que quem não se adapta não é bem-vindo
Texto: Jéssica Martineli e Juliana Dias // Ilustração: Paula Gabbai // Fotos: Claudine Luz
Prova de força
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Sou a Juliana, tenho 23 anos e nenhuma dificuldade para me movimentar por São Paulo. Ou melhor, isso foi o que eu descobri ao topar o desafio de sentir na pele a experiência de acessibilidade (ou a falta dela) das ruas da cidade. A ideia era entrar na pele de uma pessoa com muletas, um deficiente visual, um cadeirante, uma mãe com carrinho de bebê e uma idosa, para enfrentar calçadas e avenidas. Antes de fazer parte da equipe da Sorria, quebrei o pé e percebi, aos 17 anos, o que significa caminhar de outro jeito. Mas não sabia que cada uma das cinco situações-prova à que eu seria submetida dessa vez exigiria uma adaptação especial. Apesar do medo, lá fui eu checar essa nova forma de sentir o mundo.

Comecei com uma venda no olhos, uma bengala e a ajuda do estudante Josias da Silva Neto, de 27 anos. Cego desde 2008, ele me ensinou a caminhar no escuro em plena luz. Começamos nosso passeio pelo quarteirão da Fundação Dorina Nowill para Cegos, na capital. Em poucos passos reconheci os vilões. A bengala afundou em buracos, e os postes são difíceis de ser identificados. Lixeiras, canteiros e árvores ocupam muito espaço. Nas áreas residenciais, não há nivelamento, padronização e muito menos piso tátil.

Nos cruzamentos não havia semáforo sonoro, que permite a travessia de deficientes visuais com segurança. Como só há quatro deles na cidade, precisei de ajuda para passar pelas ruas. Para não faltar a seus compromissos, Josias tem uma estratégia. “Ando mais durante o dia e em lugares movimentados, onde sempre há alguém para ajudar”, conta. Seguimos até o metrô em um ônibus – entrar nele foi difícil por causa dos altos degraus e pedi ajuda novamente. Já no metrô, descobri que o piso tátil ajuda muito pouco. Um funcionário nos levou da catraca ao trem e, em nosso ponto final, outro funcionário nos levou até a saída. Na rua, algumas pessoas, mesmo me vendo, esbarravam por falta de atenção e reclamavam. Com a tira nos olhos, descobri que cegos são os outros.




Juliana experimenta a vida com muletas,
cadeira de rodas e bengala. Não é brincadeira


 

Dias depois, encarei a muleta, sob a orientação de Naldo Rodrigues, 43 anos, voluntário do Clube dos Paraplégicos de São Paulo. Deficiente desde criança, ele tem na muleta seu apoio diário. Para mim, foi como aprender a andar novamente, escolhendo pontos de equilíbrio e aprendendo a caminhar nas calçadas estreitas e esburacadas. Pouca gente nos deu passagem e ainda fui surpreendida por comentários entre a pena e o preconceito, como o de uma senhora que me disse: “Tadinha, tão jovem, já manca”.

De muletas, os degraus do ônibus são barreiras. Poucos veículos são adaptados e, por ironia, há degraus até para subir no assento preferencial. No metrô, desta vez, passamos pelo acesso para deficientes ao lado da catraca, mas não havia funcionários para nos ajudar. Talvez por causa disso, mesmo no vagão preferencial, foi difícil entrar com tantas pessoas que desrespeitam a prioridade. Ninguém nos ofereceu o assento reservado e, no fim da viagem, enfrentamos uma escadaria para sair da estação. A experiência me rendeu bolhas nas mãos e dores nos braços e no tórax. Mas o que doeu mesmo foi perceber a “visibilidade relativa” do deficiente, como me explicou Naldo. “Com muletas, você sempre será visto, mas como um incômodo”, diz ele.

Tem, mas está em falta

Tetraplégica há 16 anos, a deputada federal Mara Gabrilli afirma que a legislação brasileira é uma das mais completas para pessoas com deficiência. Porém, a falta de fiscalização e de educação sobre o assunto faz a realidade negativa das ruas. “Por décadas, essa parcela da população foi ignorada ou tratada com políticas públicas assistencialistas. A sociedade enxergava as pessoas com deficiência sob a ótica da segregação. Ou éramos excluídos ou coitados”, diz a deputada. Desde dezembro de 2004, um decreto federal regulamenta duas importantes leis que estabelecem as condições gerais para a acessibilidade no país. Elas dizem respeito, principalmente, às regras arquitetônicas e urbanísticas, ao acesso aos transportes públicos e ao direito à informação e comunicação. No entanto, a cidade e a conduta das pessoas andam mais devagar do que as leis.

Para o engenheiro Augusto Fernandes, cadeirante e criador do Calçada Consciente, um projeto que busca promover a acessibilidade em Goiânia, as irregularidades nas calçadas são comuns, pois ainda é difícil encontrar manuais com as regras para a execução de obras nas prefeituras, as responsáveis por fiscalizá-las. “Cada proprietário acaba fazendo a própria calçada, pensando mais na estética, escolhendo o material mais barato ou bonito, esquecendo que ela deve ser funcional”, explica. Esse foi o maior problema dos dias seguintes.

Adriana Campos, pedagoga de 32 anos, e seus filho Alexandre, de 7 meses, foram os guias de minha caminhada com um carrinho de bebê. Fiz o mesmo trajeto da família para os passeios em dias de sol, três ou quatro quarteirões do bairro Alto da Boa Vista, na Zona Sul, até uma praça. Parece fácil, não fossem o tamanho e o peso do carrinho, que ganha uns quilos extras com o bebê.

Na calçada, comecei o que Adriana chama de “rally do carrinho de bebê”. Ele dava pequenos pulos a cada divisória entre pisos ou buracos no percurso. E aí, dá-lhe força para as manobras. As pessoas que vinham em nossa direção não desviavam nem ofereciam ajuda. Em alguns momentos, pela falta de espaço nas calçadas – ocupadas por carros –, fomos pelo meio da rua. Ao tentar atravessar a rua, motoristas me encararam como invisível, avançando. Quando chegamos à praça, a única rampa de acesso em boas condições estava obstruída por um carro. Por essas e outras, Adriana diminuiu seu trajeto diário. “É um desafio necessário. Mas só faço pelo meu filho”, conta.

Alvos fáceis

Já Anisia Spezia, de 65 anos, não pode diminuir seus caminhos. Os obstáculos começam no primeiro passo ao sair de sua casa, na Vila Brasilândia, Zona Norte da capital. Há uma escadaria na entrada e, depois dela, as calçadas – quando existem – são estreitas, tomadas por lixo ou automóveis estacionados. Ela me contou que, para caminhar, criou a “técnica do zigue-zague”: caminha na calçada até onde pode e, quando aparecem buracos ou outros obstáculos, atravessa a rua. E vai fazendo isso várias vezes. Mesmo com tanto cuidado, acidentes são comuns. Uma vez, torceu o tornozelo em um buraco coberto por um papelão e ficou sem andar por uma semana.



Ainda mais do que soluções de urbanismo, Juliana
descobriu que falta é respeito. Para isso, não há lei



Para Anisia, a idade é um complicador na hora de atravessar a faixa de pedestres. Com os passos mais lentos, demora a chegar ao outro lado. “Geralmente, na metade do percurso, o sinal começa a piscar e os carros avançam sobre mim”, conta. Com ela, percebi que a relação entre pedestres e motoristas é tensa por um motivo claro: falta ao motorista colocar-se no lugar de quem caminha. De dentro do carro, é mais fácil apressar o pedestre por meio do medo – com buzinas e arrancadas – do que esperar um pouco e deixá-lo atravessar de forma digna.

Contando o tempo médio do semáforo para atravessar avenidas movimentadas, dá algo entre 10 e 15 segundos. E o tempo não é curto apenas para pessoas com dificuldade de locomoção ou carrinhos de bebê. De acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo, duas pessoas morrem diariamente na cidade, atropeladas no momento de atravessar a rua, ou mesmo nas calçadas.

Não deveria ser assim. O Código Brasileiro de Trânsito define: pedestres têm preferência na faixa. O motorista que desrespeita a regra pratica infração gravíssima, com multa de 191,54 reais e perda de 7 pontos na carteira de habilitação. Mas, se a pressa acaba sendo a lei, a culpa não é só de quem dirige. “A população tem de aprender que os órgãos fiscalizadores dependem também das denúncias”, lembra Mara Gabrilli. Além dos órgãos municipais, um canal direto para reclamar seus direitos pode ser o Ministério Público, o responsável por fazer valer o cumprimento das leis.

Estamos aqui

E se é assim para quem está de pé... “É preciso ter coragem para sair de cadeira de rodas pela cidade”, me avisa Miguel Ferraz, 34 anos, cadeirante há 12. “Existe a barreira do corpo, mas o medo de sair na rua e a falta de respeito dos outros são os maiores obstáculos”, desabafa. A frase não me saiu da cabeça enquanto me colocava em seu lugar. Sentada em uma cadeira de rodas emprestada, levei mais de uma hora para fazer o caminho até o ponto de ônibus partindo do Clube dos Paraplégicos de São Paulo, que seria de 15 minutos a pé. Passamos por calçadas esburacadas e inclinadas, que me exigiram esforço para não cair. Ao atravessar a rua, faltou-me a coragem de Miguel. Não tinha nem chegado ao meio da faixa e o sinal de pedestres já piscava no vermelho. Foi por pouco.

No ponto, esperamos por um ônibus acessível para cadeirantes, mas havia espaço para apenas uma cadeira. Travei minhas rodas e segurei quanto pude, mas as curvas e freadas foram muito difíceis. No fim do percurso, o motorista me empurrou até a calçada e quase caí por causa de um defeito na rampa do ônibus. No metrô, usamos o elevador. Nas estações sem ele, o cadeirante é levado pela escada por algum funcionário e fica com a metade da cadeira no ar. O risco de cair é enorme e, diz o pessoal do Clube, as quedas acontecem mesmo.

Disfarçada de cadeirante, vivi um fenômeno interessante: fui, ao mesmo tempo, visível e invisível. Não passei despercebida, mas, aos olhos do preconceito, parecia não estar ali. Foi assim também nas outras experiências desta matéria. De tudo, ficou a lição de esforço daqueles que superam todas as provas no dia a dia. E, principalmente, o incômodo de que há muito o que fazer para garantir o direito de ir e vir de todos.
 


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Para ver a cobertura das aventuras de Juliana, documentada em vídeos, clique aqui.

 

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