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Quando o fim é o começo

A vida acaba e recomeça todos os dias. Adaptar-se às mudanças pode ser difícil, lento e assustador. Mas dessa transformação renascemos mais fortes e realizados
Texto: Roberta Faria com reportagem de Amanda Rahra e Nina Weingrill // Fotos: Rodrigo Braga // Ilustração: Nelson Provazzi
 
Quando o fim é o começo
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Quando tinha 8 anos de idade, João Carlos Martins já era um gênio. Aos 20, apresentava-se ao piano com as melhores orquestras, nos maiores palcos do mundo. Sua maneira de tocar, com mãos tão rápidas que os dedos sobre as teclas pareciam borrões, era considerada pelos mais respeitados críticos de música clássica brilhante, virtuosa, possessa. O jovem pianista, um cabeludo magro, de óculos e fraque, que fazia cara de maluco enquanto interpretava as obras de Bach, era aplaudido de pé.
   
Então, aos 26 anos, num jogo de futebol, João morreu pela primeira vez.

Com 26 anos, Mara Gabrilli era livre. Morava sozinha. Fazia duas faculdades, de publicidade e de psicologia, trabalhava, namorava. Gostava de sair pra dançar e de correr longas e exaustivas maratonas. Desde criança, quando jogava tênis, nadava, tocava piano e violão, vivia dando piruetas e subindo em árvores, tinha o espírito do desassossego. Quando podia, viajava. Chegou a viver um ano e meio na Itália. Com menos tempo, ia ao litoral. Olhar o mar a ajudava a pensar sobre a vida que queria ter.

E então, aos 26 anos, ao voltar da praia, essa Mara morreu.

Ninguém está preparado para o fim. Seja previsível, já sentido num aperto no peito pelo jeito como andam as coisas, seja inesperado, como um degrau que não se viu no chão, todo fim é uma perda... Do que se tinha como certo. De planos e perspectivas acalentados. De quem pensávamos ser. Pode ser um relacionamento, um trabalho, sua saúde plena, uma fase da vida — tanto faz. Quando algo acaba,  uma parte da nossa história se encerra. E há duas maneiras de lidar com isso: apegando-se ao que sobrou ou começando tudo de novo.

“Recomeçar é nascer outra vez”, pensa Dulce Critelli, filósofa e terapeuta existencial, da PUC de São Paulo. “Não se trata de partir do zero: já temos uma vida, um passado, um jeito de ser. É a disposição de se lançar ao desconhecido.” O que provoca a transformação pode ser pôr em prática o velho sonho de largar tudo e viajar, uma doença, uma paixão ao virar a esquina, a perda do emprego, uma gravidez, a chuva no meio da festa, um acidente. Algumas coisas controlamos — e muitas outras não. Bastante natural, pondera Dulce. “A vida é assim. Não podemos planejar tudo. O inesperado nos convoca, e é preciso lhe dar uma resposta.”

As vidas de João

Quando foi convocado para uma pelada com a Portuguesa paulistana, seu time do coração, João Carlos Martins aceitou. A Lusa estava de passagem por Nova York, onde  morava. Durante o jogo, no verão de 1966, uma pedrinha resvalou do chão e foi cravar no braço do pianista. Cortou um nervo, e os movimentos da mão direita endureceram. Um ano de fisioterapia. Quando voltou aos palcos, um respeitado crítico americano escreveu que João não era mais o mesmo. “Tinha razão. Eu não estava concentrado na música, mas nas minhas limitações”.

Foi sua primeira morte. Arrasado, João vendeu os pianos, anunciou o fim da carreira e virou treinador de boxe. Se não podia ser o grande Martins, não queria mais saber da música. Só que João descobriu que doía mais ficar longe do palco que aceitar sua nova condição — e decidiu enfrentar o piano, mesmo com limitações. Depois de sete anos de reflexão, treinos exaustivos e tratamentos intermináveis, ele reestreou. Para surpresa geral, havia superado não só a lesão, como o próprio talento: o músico que voltava, mais maduro, era ainda melhor do que o perdido naquele jogo de futebol.

João renasceu. Aclamado como um dos melhores intérpretes do compositor alemão Johann Sebastian Bach que o mundo já havia visto, tornou-se o primeiro artista erudito latino-americano a receber um disco de ouro nos Estados Unidos. Viajou o mundo se apresentando, conviveu com as maiores figuras do seu tempo, fez fama e fortuna. Poderia ser o final feliz — mas a história ainda teria outras reviravoltas.

Primeiro vieram as dores na mão machucada, que o obrigaram a uma longa pausa nos anos 1990. Quando voltou pela segunda vez, um assalto na Bulgária em 2002 terminou com uma pancada na cabeça que paralisou o lado direito de seu corpo. Pois João entrou para os casos raros da medicina ao se submeter a um tratamento experimental nos Estados Unidos e recuperar os movimentos em menos de um ano. Voltou a se apresentar, mas a cura não fora completa. Logo as dores voltaram, tão fortes que ele escolheu cortar um nervo do braço. Os longos dedos de pianista se crisparam, e, da mão direita, sobrou o dedão para tocar. E, claro, os cinco dedos do lado esquerdo.

Pois João resolveu: seria o primeiro concertista de uma mão só do mundo. Por meses, ensaiou dia e noite. Na primeira apresentação, foi aplaudido de pé. Mas a mão estava estranha. Tanto esforço causou uma câimbra permanente. “Você nunca mais vai tocar”, disse o médico. “Dessa vez eu soube que tinha chegado ao fim da linha.” João ainda tentou tratamentos dolorosos e incertos. Recuperou o movimento de três dedos. Se no passado fazia 21 notas de uma escala por segundo, agora precisava de 21 segundos para fazer uma nota.

Ficou deprimido, é claro. E, então, uma noite, João sonhou com Eliezer de Carvalho, um dos maiores maestros que o Brasil teve. No dia seguinte, ligou para uma faculdade de música e se inscreveu nas aulas de regência. Um ano depois, em 2004, João Carlos Martins, aos 64 anos, com as partituras decoradas na cabeça e um jeito peculilar de mexer os braços -— já que não pode virar páginas nem segurar a batuta com as mãos -— fundou a primeira de suas duas orquestras, a Bachiana Filarmônica. O pianista virou maestro. No ano passado, fez 110 apresentações. De vez em quando, senta-se ao piano e toca com os quatro dedos bons. Na maior parte do tempo, comanda. “Como se cada músico fosse uma tecla.”

É preciso morrer

“Recomeçar é mudar de vida em vida. Implica poder morrer para renascer”, fala Dulce Critelli. João passou por todas as fases: negou, resistiu, sofreu, até que, esgotadas as tentativas, aceitou — e foi buscar uma nova maneira de viver. “Aprendi a separar o muito difícil do impossível”, conta ele. “Para superar o muito difícil, é preciso ter disciplina de atleta, que estabelece a cansativa mas necessária rotina de treinos e tentativas, e alma de poeta, porque, sem sonho, não há recomeço.” E  o impossível, João? “Encara-se com humildade.”

A filosofia dele, aprendida na marra, é antiga. Os gregos estóicos já diziam que, na vida, há dois tipos de acontecimento: os que dependem e os que não dependem de nós. “Aqueles que são de nossa responsabilidade, devemos enfrentar. Já os incontroláveis, não adianta remoer”, diz Yolanda Muñoz, filósofa da PUC-SP. Aceitar o imponderável, no entanto, não significa se conformar -— mas entender que, diante do que não controlamos, valem mais o esforço das tentativas e as pequenas conquistas do que medir nosso valor (e nossas possibilidades) diante de metas distantes.

Disse outro filósofo, o alemão Friedrich Nietzsche: “O que não nos mata nos fortalece”. À primeira vista pode ser difícil encarar, mas o que nos derruba também pode ser o que nos dá forças para levantar. “Para recomeçar, antes é preciso viver cada etapa do problema, sem negar o sofrimento. Não é amanhã que vamos enfrentar tudo: é aos poucos”, fala Yolanda. A resposta, diz ela, está em reunir forças para aprender e se reinventar. Não há fórmulas. Para cada problema e cada pessoa, há mil soluções. “Todos podemos transformar a tragédia num impulso para a vida.”

Desenvolver esse potencial de reinvenção, no entanto, tem lá seus pré-requisitos. Primeiro: é preciso desejar. Imensamente. Não é aquele hipotético “ah, que bom seria se...”. É lá, na essência, que deve morar a vontade de mudança. “E, então, é dizer sim a esse desejo”, fala Dulce Critelli. É a certeza de querer ir em frente que nos ajuda no passo seguinte: renunciar às outras possibilidades e focar no novo caminho. “Por fim, é fazer a nossa parte. O resto, é a vida.” E, sim, nada disso adianta se não estamos disponíveis, física e mentalmente, para a mudança. Como João, que, por mais que deseje ser de novo o virtuose que foi aos 20 anos, não pode: seu corpo já não acompanha sua vontade.

O começo no fim

O corpo de Mara Gabrilli também não. Em 1994, quando estava com 26 anos, voltava de Paraty, no litoral carioca, para São Paulo, onde vivia. Seu então namorado se perdeu numa curva e o carro rolou 15 metros ribanceira abaixo. Ele e um amigo que estava no banco de trás saíram com uns arranhões. Ela teve a terceira vértebra cervical esmagada. Pernas, braços, tronco: nada mexia mais. Mara se tornou tetraplégica. Movimenta apenas a cabeça e o pescoço. No começo, nem respirar sozinha conseguia.



Ainda no hospital, o médico disse que Mara tinha 1% de chance de voltar a andar. Trágico? Não para ela. “Um por cento não é zero”, diz. Depois de três meses internada e dois reaprendendo a respirar, Mara passou outros seis nos Estados Unidos, cuidando do novo corpo e da cabeça. “Não tinha tempo para ficar deprimida. Precisava lutar.” Mais fortalecida, começou uma peregrinação por hospitais e centros de pesquisa no mundo todo, em busca de melhoras possíveis — e de uma esperança de cura.

“Por um tempo, minhas perspectivas foram muito ruins”, conta. “Vivia eu mesma o tempo todo. Levava um dia inteiro para cuidar das coisas básicas, como tomar banho. Centrada na minha dificuldade, estava ficando chata”, relata. Mara foi então procurar a psicologia -— não para si, mas para os outros. Voltou à faculdade para clinicar.  Atender os pacientes lhe deu clareza. “Ouvir os problemas dos outros me distanciou dos meus. Vi que podia ajudar.”

Recomeçar exige desejo e renúncia. Antes, é preciso viver cada etapa,
com seu sofrimento. O fim é também de onde tiramos força

Ao mesmo tempo, continuavam as viagens pelo mundo. Nelas, Mara conheceu trabalhos brilhantes que, na volta ao Brasil, a inspiraram na criação de uma ONG para trazer soluções e pesquisas de lesão na medula para o Brasil. O Projeto Próximo Passo — hoje, Instituto Mara Gabrilli -— deu um novo sentido à sua vida. Além de ajudar muita gente, abriu as portas para a política, onde Mara ampliou seu trabalho. Em 2005 foi convidada a assumir a Secretaria da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida na prefeitura de São Paulo. Em 2007 virou vereadora. Graças a ela, cada linha de ônibus na cidade tem ao menos um veículo adaptado, dezenas de quilômetros de calçadas foram reformadas e deficientes ganharam acesso à cultura e ao mercado de trabalho por meio de programas especiais.

Para Mara, o fim foi o começo. Até o carro capotar, ela trabalhava com venda de publicidade em painéis eletrônicos. “Nunca mais pensei em gastar meu tempo com isso”, conta. “Sobreviver me fez ver que tinha de fazer algo maior, que me transformasse e transformasse a vida de outras pessoas. Não seria a mesma se o acidente não tivesse ocorrido. Minha condição me tornou mais sensível para entender as necessidades dos outros.”

Recomeçar todo dia

A história de Mara impressiona por sua capacidade de aceitar o que houve. Seja em grandes dramas, como uma paralisia, seja nos pequenos obstáculos do dia-a-dia, o mais comum é negar: fingir que não está acontecendo, culpar o mundo injusto ou apenas lamentar o fim. “Existe a idéia de que não mudar é mais fácil. Mas resistir à transformação exige ainda mais energia”, fala Dulce Critelli. “Faz-se um esforço enorme para reafirmar a cada dia as mesmas convicções e objetivos. Não se permitir fluir diante do inesperado é recusar a vida.”

É como no mar: podemos insistir em nadar contra a corrente, desistir e nos deixar levar... ou nadar, sim, mas usando a onda a favor. “Resistir dá a falsa idéia de que podemos prever tudo, e na repetição estaremos protegidos”, diz Yolanda Muñoz. As desculpas que costumamos dar para não mudar têm a ver com o apego. “Para recomeçar é preciso enfrentar o novo e abrir mão do que é conhecido e confortável. Isso exige renúncia”,  diz Dulce.

E, no fim das contas, mudamos de qualquer maneira -— porque esse é o ciclo natural da vida. “Todos os dias vivemos e morremos um pouco. Pensamos no recomeço apenas para situações extremas, mas a transformação é constante: é sinal de que estamos vivos”, diz Yolanda. Mara, no esforço diário de fazer exercícios para cultivar a saúde do seu corpo imóvel, sabe disso. João, reaprendendo a tocar e a reger, também. A transformação não é só fazer grandes mudanças, mas pequenas adaptações para lidar com o que não controlamos.



Alberto Amaral Junior faz isso desde que nasceu. Advogado, é professor de direito internacional da Universidade de São Paulo (USP). Fala fluentemente inglês, francês, italiano e espanhol, é pesquisador e autor de quatro livros. Toda essa carreira foi construída a despeito de sua limitação: Alberto é cego. Nascido em Itápolis, cidade no interior paulista, onde não havia professores, escolas nem livros adaptados a sua deficiência, ele encontrou no empenho dos pais a possibilidade de adaptar-se ao mundo, mesmo que fosse preciso reinventar o jeito de fazer as coisas todos os dias.

A mãe de Alberto estudou braile para poder alfabetizá-lo. Assim, pôde freqüentar a escola — acompanhado da mãe ou de uma tia na sala de aula, que repassavam a ele o que era escrito no quadro. Na época do vestibular, estudava através das aulas e leituras gravadas em fita cassete pelos pais. Quando foi para a faculdade, a mesma USP onde hoje ensina, a família inteira se mudou para São Paulo. Durante os cinco anos do curso, seu pai o acompanhou às aulas. Como os livros não tinham versão em braile, os pais transcreviam os códigos de direito ou gravavam fitas. Foi assim também nas duas pós-graduações que fez.

“Nunca subestimei minha capacidade ou superestimei meu problema”, conta Alberto. “As dificuldades foram essenciais para chegar aonde estou. Encaro minha limitação apenas como algo que exige mais de mim.  Ser cego é um problema entre tantos; cada um tem os seus. Começar de novo é uma tarefa diária para todos, não só para mim.” E, afirma Alberto, a arte de se reinventar não é feita só nas dificuldades. “Sempre que atingi um objetivo, vi que podia ir além. É a vontade de me superar que move o desejo de recomeçar -- e, assim, crescer e alcançar coisas novas.” Ou como diria Mara Gabrilli: “Não é questão de ser ou não deficiente, mas de como cada um ultrapassa as barreiras que inevitavelmente a vida oferece. É esse movimento que define nossa grandiosidade”.

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Essa matéria mudou a minha vida. Obrigado.
Heitor Ferreira Luz
Esse artigo precisava ser fixado num mural por muito tempo para que as pessoas lessem.Maravilhoso! Quantas pessoas reclamando... Não sabem o que dizem. Hoje mesmo uma amiga me confidenciou que se não fosse pela filha, daria cabo da própria vida, porque perdeu a vontade de viver, não acha graça em nada, está perdida.Ela precisava ler esse texto para ver a luta pela vida...
Norma
Olá pessoal da SORRIA...sorriam sempre porque o trabalho que vocês fazem é muito bom...estejam sempre certos que nos leitores recebemos todo esse carinho que voces colocam em cada materia...valeu!!!
rosinei silva da silva
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