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Quase irmãos

Quando criança, deixar a escola pelo portão da frente era raro para João Bruno Dacome, de 25 anos, de Maringá, no Paraná. Para fugir dos desafetos, pulava o muro. Se nem isso resolvesse a ameaça, sempre podia contar com a escolta de Marcel Dacome, um ano mais velho, que botava banca para defendê-lo, avisando: “Meu primo é um cara legal”. Com o passar dos anos, a camaradagem só cresceu, e foi além da companhia para festas e viagens da adolescência. Formados em direito, abriram um escritório juntos, e João ainda é padrinho de Isabela, de 3 anos, filha de Marcel – e sua prima de segundo grau. “Sinto orgulho de sermos tão unidos até hoje”, diz.
A história de João e Marcel exemplifica um tipo muito específico de relação familiar. Filhos dos tios e netos dos mesmos avós, os primos não são tão próximos como os irmãos nem tão distantes como um colega de classe, ou um vizinho. São candidatos preferenciais a amigos, a alegria das festas, parceiros de férias. O estabelecimento dessa amizade é o elo fundamental para que a família – no seu sentido mais amplo – se mantenha unida.
Ana Paula de Bragança, de 23 anos, de São Paulo, tem 11 primos de primeiro grau por parte da mãe. Cresceram juntos e mantêm a proximidade mesmo morando em cidades distantes. “Somos muito diferentes, mas a cumplicidade supera gostos pessoais”, conta. A família realiza encontros periódicos que reúnem primos de até sete gerações. Quem organiza tudo é a tia Flávia de Bragança, de 44 anos, do Rio de Janeiro: “Nossos filhos são amigos pelo fato de tentarmos preservar esse vínculo. Sempre demos importância para a família como um todo, não só como um núcleo isolado”.

À esquerda, as crianças Bragança: 11 primos só de um lado. À direita e abaixo, Marianne e Giane, que, depois de uma infância em pé de guerra, encontraram uma amizade verdadeira
A boa convivência com quem compartilha nossas origens costuma ser prazerosa porque nos causa a sensação de pertencer a uma mesma história. “Toda relação desse tipo é benéfica, se for real e espontânea”, explica a terapeuta familiar Léa Albertoni. Forçar os laços é uma tentação perigosa: “Às vezes, as famílias idealizam a relação entre primos como se fossem mais valorosas que as de um amigo. Primos têm qualidades e defeitos”, avalia o psicoterapeuta Antonio Carlos Pereira. Uma das armadilhas mais comuns para os pais é criar a imagem do “primo-modelo”, impondo o comportamento do sobrinho como um modelo a ser seguido. “Os adultos devem procurar o equilíbrio. Um ambiente de competição pode gerar inimizade”, completa Léa.
Se na infância as ligações entre os primos costumam ser intrínsecas, na fase adulta, quando cada um determina o rumo de sua vida, elas tendem a esmaecer. Mas o contrário também acontece. A jornalista Marianne Nishihata, de 27 anos, de São Paulo, e a bancária Giane Suenaga, 27, de Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo, descobriram suas afeições já crescidas. Até os 14 anos, elas viveram em pé de guerra. Agora, são as melhores amigas. Nem mesmo os três anos em que Marianne morou em Tóquio, no Japão, esfriaram a relação. “Naquela época, nos telefonávamos pelo menos uma vez por semana. Hoje é até mais de uma vez por dia”, conta a jornalista. Elas dividem desde as contas e compras no shopping até os cuidados com a faxina do túmulo dos avós.
Histórias como essas, porém, tendem a se tornar cada vez mais raras. Segundo dados do IBGE, a taxa de fecundidade no país é de dois filhos por mulher, e está em queda. Imagine o que vai acontecer se o índice chegar a 1: sem irmãos, não há tios e, portanto, não há primos. A falta da companhia desses amigos de sangue certamente vai fazer a infância perder um pouco da sua cor e deve tornar as famílias mais isoladas. Mas Antonio Carlos Pereira relativiza: “A convivência entre primos é importante, mas as pessoas se adaptam ao que têm. ?O fundamental é desenvolver uma rede social, ter pessoas que nos ?permitam ouvir, partilhar, compreender e aprender a amar e ser amado”. Se já for de casa, melhor ainda.

















































