cuidar
Reconhecimento de território

Pense rápido: qual é a capital da França? Muito bem. Se você tem na ponta da língua essa resposta sobre um país localizado a um oceano de distância da sua casa, as próximas questões vão ser ainda mais fáceis: que flor é aquela plantada na janela da casa da sua vizinha, em frente à qual você passa todos os dias? De qual manancial vem a água que escorre pela sua torneira? Qual é o nome do rapaz que trabalha no estacionamento onde diariamente você para seu carro?
É curioso perceber como desconhecemos informações tão triviais sobre nosso dia a dia. Podem parecer questões banais, mas saber ou não respondê-las revela algo muito importante: a relação que mantemos com o lugar em que vivemos. É como um relacionamento entre duas pessoas: quanto mais elas se conhecem, mais próximas são entre si, mais cuidam uma da outra, e mais frutífera essa amizade se torna para ambas. Cada novo conhecimento que adquirimos sobre nosso bairro ou nossa cidade faz com que esses espaços se tornem um pouco mais nossos. E, só nos sentindo donos, vamos nos empenhar em cuidar deles. É dessa forma que construímos um lugar melhor para viver, como mostram as histórias a seguir.
RG vegetal
Há pouco mais de uma década, a empresária Rosely Brancaglione, de 47 anos, mudou-se para um apartamento no bairro Vila Madalena, em São Paulo. Um dos motivos que a fizeram se apaixonar pelo novo lar foi a bela praça localizada bem na frente do prédio. “Passei a caminhar no meio daquele verde todas as manhãs”, conta. Rosely foi ficando cada vez mais íntima do lugar. Mas um dia percebeu que simplesmente desconhecia o nome de quem diariamente lhe fazia companhia por ali: as árvores. Poderia ter sido uma divagação qualquer, logo esquecida, mas ela levou a questão adiante. E a transformou num projeto bastante original, que mudaria a cara do bairro.
Para encontrar as informações de que precisava, a empresária buscou ajuda especializada: foi ao Departamento de Botânica da USP. “Cheguei lá com a cara e a coragem”, lembra. O professor que poderia ajudá-la estava de férias na época, mas ela não desistiu. Voltou dias depois, sentou-se à sua frente e lhe contou seu plano: identificar as espécies das árvores do bairro plantadas em locais públicos e pendurar uma pequena placa em cada uma com seu nome científico e popular. O professor José Rubens Pirani logo topou a empreitada, convidando seus alunos a participar.
Passados seis meses, o trabalho estava concluído. Com a autorização da prefeitura, as placas foram penduradas, em setembro de 2005. “Criamos uma sala de aula ao ar livre, com mais de 600 árvores catalogadas e mais de 100 espécies diferentes”, conta Rosely, orgulhosa. O desejo de saciar a própria curiosidade estava realizado. Havia também a sensação de dever cumprido, de estar fazendo algo positivo em benefício do próprio bairro. O que talvez Rosely não esperasse era a capacidade de sua ideia contagiar os vizinhos, fazendo com que eles também mudassem de atitude em relação ao espaço público.
“Depois da inauguração das placas, observei que as pessoas cuidavam mais da praça, não jogavam lixo no chão, vigiavam o local. Eu mesma fiquei mais consciente em relação a isso”, diz. O antropólogo Johan Pottier, da Universidade de Londres, ajuda a entender o que aconteceu: “Nesse caso, ter sistematizado e organizado o conhecimento deu às pessoas mais acesso à cultura disponível, fez com que se aproximassem do seu bairro. Um primeiro passo para começar a gostar dele”. Ou seja: pesquisar e compartilhar informações sobre o lugar em que se vive torna a comunidade mais consciente e comprometida.
Em busca das raízes
Se mesmo as árvores, com seus troncos enormes e copas frondosas, correm o risco de passar despercebidas e de não receber o devido cuidado da comunidade, imagine o que pode acontecer com o patrimônio impalpável. É o caso da história. Se as pessoas não se esforçam para resgatar os fatos do passado e comunicá-los às gerações seguintes, eles simplesmente desaparecem.
É difícil imaginar a parcela de responsabilidade de cada um nesse processo quando pensamos na história das grandes guerras e revoluções que aprendemos no colégio. Mas e os causos e relatos individuais que formam a memória de cada povoado? Quem é responsável por mantê-los vivos? Estudantes da Escola Estadual Professor Otávio Guimarães de Toledo, em Bebedouro (SP), encontraram a resposta em si mesmos.
Estimulados pelos professores, os alunos passaram semanas pesquisando o passado da comunidade. Foram à biblioteca, entrevistaram moradores mais velhos, compararam fotos novas com antigas. No final, desvendaram muito mais do que uma história institucional. Descobriram, por exemplo, que um dos moradores comprou seu terreno pelo preço atual de um maço de cigarros. E que, como as crianças de agora, seus pais também aprontavam muito nas casas abandonadas do entorno. “Trabalhamos os contos, os causos, as historietas, a medicina popular. Tudo pra dizer que as coisas do dia a dia são tão preciosas quanto o que ensinamos na escola”, afirma a coordenadora pedagógica Andréia de Souza Vanelato.
Ao fim da pesquisa, os alunos apresentaram à comunidade um memorial, com todas as informações compiladas, e uma peça de teatro que contava a história da região. “É um resgate de identidade. A comunidade se sente valorizada por ter suas memórias pesquisadas e contadas”, diz Andréia. O morador Alzeni Justino, que há 30 anos vive na região, foi um dos que aprovaram a iniciativa: “Foi emocionante. A gente volta no tempo pelas lembranças do passado, percebe quanto os bairros foram beneficiados com as melhorias. Quando criança, a gente plantava e criava gado no meio da rua!”, diverte-se.
Além de manter viva a história da cidade, o trabalho comemora a identidade social despertada nos alunos. “Com a história em mãos, eles ficaram mais cuidadosos com as pessoas mais velhas, respeitam mais a escola e os professores”, avalia Andréia.
Um mapa de todos
Conhecer melhor o lugar em que vivemos é uma questão de abrir os olhos. De enxergar de maneira mais curiosa e crítica aquilo que nos rodeia. Essa é exatamente a intenção de um projeto recentemente lançado em Curitiba, pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
A ideia é criar o Mapa Verde da cidade, mostrando os lugares de interesse ecológico, social e cultural sugeridos pela própria população. “Convidamos a comunidade a indicar pontos próximos à sua casa, como praças e áreas de lazer, locais com atrações para crianças, idosos ou deficientes, espaços de preservação natural, postos de reciclagem, áreas degradadas, entre outros”, explica Ana Carolina Greef, uma das coordenadoras do projeto.
A iniciativa foi inaugurada em um evento aberto ao público realizado durante nove dias no Museu Botânico Municipal. A ampla divulgação atraiu cerca de 3 mil pessoas. Inicialmente, era oferecida uma explicação geral sobre o projeto, que conta com o apoio técnico da organização norte-americana Green Map. Criadora do conceito de Mapa Verde, a ONG já assessorou a produção de mapas desse tipo em 600 cidades de todo o mundo, incluindo Águas de São Pedro (SP), Parati (RJ) e Rio de Janeiro (RJ).
Logo em seguida, as pessoas eram convidadas a pôr a mão na massa. Na parede, havia um grande mapa da cidade. Cada um podia pegar um papel, copiar a área próxima à sua casa e marcar os lugares que considerasse relevantes. Os pontos deveriam ser identificados com ícones previamente estabelecidos, desenvolvidos pela Green Map com a intenção de serem entendidos em qualquer parte do mundo. A Praça São Paulo da Cruz, por exemplo, que abriga uma feira de produtos orgânicos, foi marcada com os símbolos que significam “espaço público”, “comida saudável” e “comércio local”.
Desde a realização do evento, os organizadores têm se dedicado a checar in loco as informações fornecidas pela população. Em seguida, eles as transferem para a internet, onde o mapa, ainda em construção, já pode ser acessado. (Veja em http://migre.me/gfKz).
Pode parecer que a simples identificação de lugares em um pedaço de papel não possa levar a grandes reflexões. Mas quem participa do projeto prova o contrário. O mestrando Leonardo Cossio, de 32 anos, que atua tanto no planejamento quanto na execução do mapa, é um exemplo. “Como ando muito de skate, decidi identificar todas áreas de lazer que conheço na cidade. Aí percebi que o transporte público para esses lugares é falho. Que os parques são escassos em bairros mais afastados. E que, mesmo eu, que moro no centro, não tenho onde praticar os esportes de que gosto nas praças mais próximas de casa”, conta.
Da tomada de consciência vem a vontade de transformar. “Acredito que, a partir da iniciativa do Mapa Verde, as coisas possam mudar. Se a gente identifica que na nossa vizinhança falta transporte ou segurança, por exemplo, com certeza vamos levar essas demandas à associação de bairro, para buscar soluções”, completa Leonardo.
Talvez a cidade em que moramos nunca seja exatamente como queremos. Transformações urbanas muitas vezes demoram para acontecer e nem sempre são eficazes. Mas só há uma maneira de começá-las: identificando o que queremos mudar. E, para tanto, é preciso seguir as lições de Rosely e do pessoal de Bebedouro e de Curitiba: começar conhecendo o lugar onde vivemos.


















































