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Refazendo histórias

Claudia Vidigal viu na literatura o caminho para ajudar crianças a fazer as pazes com a vida. Aos poucos, ela as ensina a superar o passado e a sonhar com o futuro
Texto: Daniele Martins // Foto: Guilherme Gomes // Beleza: Élcio "Maizena" Aragão/Agência First
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“Era uma vez um menino chamado Pedro. Ele morava com a mãe e dois irmãos. Sua mãe ficava muito tempo fora de casa. Enquanto isso, como não iam à escola, eles passavam a maior parte do tempo brincando na rua. Certo dia, uma mulher tocou a campainha. Disse que levaria Pedro e seus irmãos para um abrigo. Um abrigo? O que era um abrigo? Pedro ficou assustado.”

Assim que termina o parágrafo, Claudia Vidigal fecha o livro e fala sobre o Instituto Fazendo História, a organização não governamental que fundou. Para essa psicóloga de 36 anos, a literatura é o meio de iniciar diálogos. É com a ficção que ela recupera as histórias reais de milhares de crianças e jovens que vivem em abrigos de São Paulo, e devolve a elas a capacidade de sonhar.

Tudo teve início em 1999, com álbuns nos quais os jovens colocavam para fora suas angústias e alegrias. Em 2005, o trabalho que Claudia começou sozinha virou um instituto, que, no ano passado, tinha cerca de 400 voluntários em 115 abrigos, trabalhando  com 2 mil jovens. A meta é fazer com que eles se reconciliem com seu passado e olhem com esperança para o futuro. “De repente, eles começam a se orgulhar da sua história”, diz Claudia. A seguir, ela conta como é essa transformação.
 

De onde veio a proposta de trabalhar literatura nos abrigos?
Claudia - Minha primeira experiência foi em uma unidade de acolhimento, em 1993. Trabalhei por um ano com a Natalie, de 11 meses. Lembro que vi muitas  crianças, mas pouca história. Ninguém sabia quem elas eram. Quando a Natalie saiu de lá, fiquei com a sensação de que o que vivemos ali seria esquecido. Afinal, quem lhe contaria o que passamos juntas? Foi aí que pensei que cada uma das cerca de 30 mil crianças que vivem em abrigos hoje precisava ter sua história garantida. Algum tempo depois, trabalhei com adolescentes grávidas e fizemos álbuns para ajudá-las a pensar sobre o momento que estavam passando.

Foi aí que decidiu juntar as duas ideias?
Claudia - Escrevi o projeto Fazendo História e busquei patrocínio. Comecei sozinha, mas logo chegou mais gente. A proposta é trazer a literatura infantil para a vida das crianças e fazer com que elas consigam trabalhar e registrar a própria história. Quando entramos nos abrigos, a primeira coisa que fazemos é levar uma biblioteca com cerca de 150 livros. É por meio deles que começamos a conversar com os meninos e meninas. A ficção dá corda para que elas imaginem, inventem e fujam da dureza em que vivem.

E como isso acontece?
Claudia - São encontros semanais de uma hora, com o voluntário e sua criança, por um ano. Contamos histórias, elas vão rindo das aventuras e se abrindo. A partir das histórias dos livros, surgem as da vida. O que as crianças contam vai construindo os álbuns. A ideia é criar um canal para que digam quem são.

É com essas páginas que elas dão novos significados ao que passou?

Claudia - O que mais me chama atenção é quando percebem que sua história é bonita. No início, acham que o passado e que tudo o que têm a dizer são feios. Mas uma hora veem o outro lado e se orgulham dele. É quando pegam o álbum e mostram: “Essa é minha mãe, esse é meu pai, o meu tio. Eu tenho uma família aqui!”. E assim resgatam o vínculo com a família. Uma vez, tivemos dois irmãos que quase não se falavam. Um deles escreveu uma carta para o outro, que ficou tão feliz que a colou no álbum e respondeu à carta. Moravam juntos, mas as cartas chegavam pelo correio. Só começaram a se ver como irmãos pelo livrinho.

As crianças abrigadas sofreram violência. Como vocês lidam com essa dor?
Claudia - Há um momento em que elas chegam e falam “Hoje vou montar a página do segredo”. É quando contam o porquê de terem ido parar no abrigo, como “Vou falar do dia em que meu pai matou minha mãe”. Essas coisas muito duras vêm de uma vez. E a maioria quer registrar isso. Elas percebem o que querem e o que não querem falar. Entendem que não precisam falar tudo para todos.

E assumem o controle de sua história.

Claudia - Isso é o que ajuda a elaborar o passado e a projetar o futuro. Quanto melhor ela estiver com o que já foi, mais chances tem de ser feliz. Uma criança contou, um dia, sobre quando a avó mandava ela e a irmã buscar frutas. No caminho tinha aranha, cobra e uma cerca na qual a irmã cortou o braço. Quando voltou, a mãe cuidou do ferimento. Mas o pai delas bebia e batia na família. Então, a mãe resolveu ir embora com os filhos. Essa criança falou de onde morava, dos perigos, das tentativas da mãe. O ideal é que isso vá para o álbum com a legenda: sua mãe tentou. Para que ela aceite o que aconteceu e não fique só no negativo.

Além dos álbuns, o que mais vocês fazem nos abrigos?

Claudia - Desenvolvemos também o Perspectiva, que forma e capacita o pessoal técnico; o Com Tato, que dá atendimento psicoterapêutico às crianças; e o Palavra de Bebê, focado no vínculo de bebês e adultos. Tudo isso para formar integralmente as crianças.

O que te move nesse trabalho? 
Claudia - É acreditar nos sonhos das crianças, e validá-los, para terem esperança. Uma vez, uma delas escreveu no álbum que, no abrigo, tinha aprendido a crescer, a ter higiene, a ter educação, a comer. Mas ela preferia morar na casa da mãe porque era difícil ser feliz ali, mas não era impossível. Essa última frase me marcou. Nada é impossível. Por isso, são tão importantes os sonhos, registrar os projetos do que quer ser quando crescer: “Quero ser médico, ter uma família...”

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Comentários:
É a primeira edição da revista sorria que adquiri. Gostei muito deste artigo e do projeto. Sou assistente social e gosto de trabalhar com crianças e adolescentes. Já visistei abrigos e casas de acolhimento e fui educadora social, sei o quanto eles precisam resgatar, entre outras coisas, a auto-estima e a esperança. O projeto parece muito bom. Me interessei em conhecer melhor. Se puderem me informar um site ou contato fico agradecida. Att. Hélia.
Hélia Mara dos Santos Vicente
Olá Hélia. O site do Instituto Fazendo História é o: www.fazendohistoria.org.br
Você também pode entrar em contto por e-mail (contato@fazendohistoria.org.br), ou pelo telefone: (11) 3021-9889.

Espero ter ajudado!
Abraços
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