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Rimas do aleatório

Méritos ou fracassos, nada acontece em nossa vida como consequência apenas de nossos atos. Fenômenos sobre os quais não temos nenhum controle seguidamente acabam sendo os mais decisivos
Texto: Chico Spagnolo e Nina Weingrill // Foto: Rodrigo Braga
Rimas do aleatório
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Normalmente, nem sequer percebemos a ação do imprevisto. Em determinados momentos, porém, ele parece fazer poesia. Como nuvens formam esculturas no céu. É o que muita gente chama de ironia do destino. Coincidências incríveis, encontros improváveis, inesperadas conveniências...

Confira uma coletânea de histórias desse tipo, que mostram a beleza de vivermos num universo que não governamos.

– Fui comprar ingresso para o Rock in Rio, em 2001. Entrei na fila, vi que não andava, decidi sair para dar uma olhada no tamanho da encrenca. Quando voltei, ela havia aumentado. Dessa vez, pelo menos, tinha uma tremenda gatinha na minha frente.
– Cheguei na fila com um amigo. Uma hora e meia depois vimos uma batida de carro. O garoto atrás de mim, que até então estava compenetrado num livro sobre mitologia grega, comentou alguma coisa.
– A batida era a deixa de que eu precisava. Engatamos uma longa conversa, falando desde Shakespeare até amoras.
– Cinco horas de fila depois, ele deu um jeito de passar na minha frente e comprar o ingresso antes, para me esperar na saída e pegar meu telefone. A gente nunca mais se desgrudou. E, dentro de alguns meses, vamos ter um bebê!
Gersiane Hosang, 26 anos, e Tarso Araújo, 32 anos, São Paulo (SP).

Estava saindo do estacionamento de um supermercado. Quando cheguei à cancela, o carro pifou. Não arrancava de jeito nenhum. O motorista de trás buzinou. Começou a forçar a passagem, batendo no para-choque do meu veículo. De repente, sacou uma arma e deu um tiro para cima! Em seguida fugiu correndo. Era um sequestro relâmpago! No banco de trás do automóvel abandonado estavam uma moça e uma criança. Elas saíram assustadas, mas também aliviadas com o fim do caso – e surpresas por ele ter sido resolvido por causa do motor pifado de um desconhecido.
Onéas Menezes, 46 anos, Embu (SP).

Estava na faculdade, em Florianópolis, compenetrado em um trabalho que tinha de entregar logo. Eis que aparece à porta um homem me pedindo alguns segundos de atenção. Não consegui evitar que ele seguisse falando. Explicou-me que vinha de Curitiba, que era cego, e estava vendendo uma espécie de brinquedo educativo que ensinava a linguagem braile.
– Conhece esse alfabeto? – perguntou-me.
– Um pouco. Minha mãe dava aulas numa escola para deficientes visuais.
– Ah, é? E onde fica essa escola?
– Lá em Rio Grande, no Rio Grande do Sul.
– Rio Grande?! Como se chama sua mãe?
– Zair.
– A dona Zair!? Ela foi minha professora!
Não pude acreditar. Ele seguiu:
– Olha, diz a ela que eu mudei, que agora sou um homem correto, de família!
Quando falei com minha mãe, ela me explicou que ele era suspeito de ter realizado pequenos furtos no colégio. E ficou feliz de o acaso arranjar essa maneira tão pouco provável de avisá-la sobre o paradeiro do antigo aluno.
Dilson Branco, 27 anos, São Paulo (SP).

Meu filho me mandou pelo correio uma câmera de vídeo. Quando recebi o pacote, percebi que o produto era de um modelo diferente. Liguei para os Correios e me informaram que eles haviam enviado a minha correspondência para outra pessoa, da qual me deram nome e telefone. Era um número do interior do Rio Grande do Sul. Para facilitar a troca, eles sugeriram que nos falássemos diretamente. Telefonei:
– Por favor, o senhor Eduardo Cruz está? – E expliquei quem eu era.
– É Victor Hugo, meu antigo professor de fotografia no Foto Clube Bandeirante?
– E você é o Eduardo, meu melhor aluno?
Victor Hugo Pires, 78 anos, Botucatu (SP).

Uma mulher linda, inteligente e solteira, com quem eu formaria um belo casal. Essa era a descrição de Paula, que uma grande amiga minha queria me apresentar numa festa à qual me convidou. Infelizmente, não pude ir. Meses depois, num bar, deparei com uma bela garota. Conversamos a noite inteira. O máximo que consegui foi seu e-mail. Um mês de insistência, e ela topou sair comigo. O papo fluiu e começamos a descobrir coisas em comum: uma amiga, uma festa e, quem diria... ela era a Paula.
Paulo de Tarso, 27 anos, São Paulo (SP).

Tinha 21 reais e alguns centavos para passar o fim de semana inteiro. Era sexta à noite, eu queria ir para a balada, mas a grana não ia dar. Fui assim mesmo. Quando estava saindo do prédio, o porteiro me avisou que tinha alguma coisa escapando do meu bolso. Passei a mão e peguei o papel dobrado: era uma nota de 50 reais!
Maria Teresa Cruz, 24 anos, São Paulo (SP).

Minha filha havia feito 15 anos e eu estava sem dinheiro para dar a ela um presente legal. Cavucando na internet, consegui achar um pacote para Foz do Iguaçu com pagamento em 12 parcelas. Cabia direitinho no orçamento. Falei a ela da novidade, mas avisei que o dinheiro era contado, que só tínhamos para pagar a alimentação. Enquanto arrumava as malas, encontrei um casaco do meu marido, já falecido. Coloquei a mão no bolso e não pude acreditar. Havia  1.800 reais em dinheiro! Com direito a regalias, a viagem foi uma das mais divertidas que fizemos juntas.
Emilce Bonafé Lima, 51 anos, São Paulo (SP).

Fizemos um mutirão no bairro para doar sangue. Uma vizinha havia sido internada por falta de plaquetas e precisaria de uma transfusão. Passados alguns dias, recebi uma ligação do hospital: eu havia sido diagnosticada com o vírus da hepatite C. Minha sorte foi grande, disseram os médicos: o exame foi feito cedo o suficiente para que eu pudesse me tratar e praticamente zerar a ação da doença.
Claudia Pereira, 43 anos, Mairiporã (SP).

Tinha ouvido, durante meu horário de almoço, que haviam implodido uma fábrica de calçados no bairro onde cresci. Indignado com a destruição de parte da história da minha infância, comentei com os colegas. Aí, o Valmir, que já trabalhava comigo no metrô de São Paulo havia cinco anos, disse também que cresceu na região. Começamos a trocar figurinhas, e as coincidências foram aumentando, até que ele largou os talheres e arregalou os olhos: “Você é o Carlos do futebol?”. Meus pais tinham uma casa com um grande quintal onde toda a turma da escola jogava, depois da aula. O Valmir batia cartão lá quase todo dia. Sem que a gente soubesse, nossa amizade já tinha 40 anos! 
Carlos Roberto Lima, 52 anos, e Valmir Gonçalves, 48 anos, São Paulo (SP).

Queria mostrar à minha neta, Gabriela, de 3 anos, como é um coral de Natal. Procuramos por boa parte da cidade, mas não encontramos. Então fomos ao cinema. Na hora de ir embora, erramos a saída. Na esquina, para nossa surpresa, lá estava um grupo de vozes entoando Jingle Bells. 
Eliana Costa, 58 anos, São Paulo (SP).

Minha irmã me pediu para alugar o filme O Júri, pois ela precisava vê-lo para fazer uma resenha para a faculdade. Eu saía da aula de inglês às 18 horas. Ela entrava na universidade às 19h30. Era só esse tempo que ela tinha para assistir ao DVD e escrever o trabalho, pois deveria entregá-lo naquele dia. Como o filme em si tem mais de duas horas, só um milagre a salvaria. Pois bem, ele aconteceu: ao sair da locadora, uma ventania trouxe um papel amassado até meus pés. Resolvi ver o que era e lá estava escrito: “Resenha do filme O Júri”. Minha irmã nunca acreditou na história. Mas passou o texto a limpo, entregou no prazo e ainda tirou nota máxima.
Carlos José Santos, 21 anos, Penedo (AL).

Eu estava extremamente atrasado para uma reunião com meu orientador de doutorado, um senhor rígido e ocupado que não toleraria perder seu precioso tempo. Saía da garagem do prédio quando me dei conta de que não levava meus óculos de sol. Calmamente, dei marcha a ré e pensei: “O mundo não vai acabar por causa de alguns minutinhos”. Estacionei o carro de volta, subi os 11 andares no elevador mais lento do mundo, abri a porta e, ao lado dos meus óculos, encontrei toda a papelada que deveria levar para a reunião. Entre as folhas estavam os documentos que deveriam ser assinados pelo orientador sem falta naquele dia, para garantir uma viagem de pesquisa que eu faria em breve.
Marcelo Téo, 31 anos, São Paulo (SP).

Estava no mercado em frente do meu trabalho, num horário de folga, com uma colega. De repente, toca meu celular. Era nossa chefe, pedindo que fôssemos imediatamente para o escritório, cuidar de uma emergência. Descontentes, lá fomos nós. Minutos depois de atravessarmos a rua, BUM, parte do teto do mercado desabou! Um funcionário saiu bastante ferido, mas sobreviveu. E nós passamos o dia agradecendo à santa urgência que interrompeu nossas comprinhas.
Lena da Silveira, 27 anos, Portimão, Portugal.

Sou brasileira por acaso. Meu bisavô, espanhol, emigrou para a Argentina para trabalhar em minas de carvão. Em 1911, quando se estabilizou financeiramente, ele chamou minha bisavó e seus filhos. Na hora de desembarcar, porém, ela se enganou e acabou descendo no Brasil. Ao ser avisado, ele achou mais fácil vir para cá do que pedir para que eles seguissem viagem para o sul. Não fosse o desembarque não planejado, toda a história da minha família a partir de então teria sido diferente.
Nilza Squillace, 58 anos, São Paulo (SP).

Meu pai morreu dois dias antes da minha festa de 18 anos.
Nunca mais comemorei meu aniversário. Mas, no dia em
que faria 28 anos, aconteceu a única coisa capaz
de devolver alegria à data: eu me tornei mãe


Meu avô era floricultor na praça Panamericana, em São Paulo. Meu pai não queria seguir a profissão de jeito nenhum. Tentou de tudo: foi violinista da Orquestra Sinfônica de São Paulo, jogador do Corinthians, teve loja de tintas, de acessórios para carro. Nada deu muito certo. Quando ele tinha uns 40 e tantos anos, minha mãe o obrigou a fazer o que, segundo ela, era o certo desde o início. Ao procurar um lugar para abrir a floricultura, ele acabou justamente na praça Panamericana. A coincidência se estendeu a mim. Morei na França por um tempo e, assim que voltei ao Brasil, quis abrir meu consultório de acupuntura e musicoterapia. Um amigo me indicou um imóvel. Quando fui ver, adivinha onde era? Hoje estamos lá, eu e meu pai, na praça que um dia também foi do meu avô.
Wellington Romano,  46 anos, São Paulo (SP).

Sou geólogo, estudo rochas. Em 1994, eu estava na Ilha do Cajual, no Maranhão, coletando material para minha dissertação de mestrado. Quando a maré baixou, avistei ao longe um conjunto de pedras bastante curioso. Fui lá ver, pois poderia ser importante para minha pesquisa. Não era. Porém, entre as pedras, encontrei algo que eu jamais poderia imaginar: ossos de dinossauros com mais de 95 milhões de anos! Assim, sem querer, eu me tornei o descobridor de uma das maiores concentrações de fósseis do Brasil.
Francisco Martins, 48 anos, Rio de Janeiro (RJ).

Faltava um mês para entregar a monografia, ainda quase toda por escrever, quando eu encontrei, no site de uma pequena editora da Inglaterra, um livro que era praticamente o que eu estava tentando redigir. Com medo de que não chegasse a tempo em Florianópolis, onde então eu morava, resolvi usar o botão “Contato” do site, perguntando se eles não poderiam vender uma cópia digital. Em menos de uma hora, recebi a resposta, positiva. Era o dono da editora, que vim a descobrir ser um especialista na área em que eu pesquisava. Conversamos, ele me ajudou com a monografia e eu o auxiliei com a tradução de alguns livros para o português. A convite dele, participei de uma mesa-redonda na Universidade da Califórnia, em Berkeley – até então algo totalmente distante da minha realidade –, onde conheci meu atual chefe. Acabei parando na França, trabalhando com aquilo que sempre sonhei. Tudo graças a um e-mail despretensioso.
Priscila Grison, 23 anos, La Ciotat, França.

Vi aquela patinete branca, cheia de adesivos, linda, descendo a rua. Não tive dúvida: fui lá abordar o menino que a pilotava. Propus trocá-la pela minha coleção de moedas. Só depois de muita insistência ele topou. Na conversa, descobrimos que nossas famílias eram muito parecidas, viviam fazendo música. Foi assim, há quase 50 anos, que conheci meu grande amigo e parceiro Beto Guedes. Até hoje ele curte com a minha cara, dizendo que não paguei a dívida toda. Mas eu tenho um plano: lá pelos nossos 70 anos, vou entrar no palco dele e entregar uma patinete novinha.
Lô Borges, 58 anos, Belo Horizonte (MG).

– Naquele dia, tive de ir a Jundiaí numa viagem de negócios, com alguns colegas. O restaurante em que iríamos almoçar estava fechado, então tivemos de procurar outro. Quando entrei, vi uma linda mulher numa mesa com alguns amigos.
– Sempre almoçava perto do trabalho. Naquele dia, porém, a empresa estava em greve. Então, eu e meus colegas decidimos ir num restaurante mais distante, para variar. De repente, vi um homem muito interessante chegar com alguns amigos.
– Troquei olhares com ela, mas, como sou tímido, fiquei na minha.
– Troquei olhares com ele. Como sou tímida, ia ficar na minha. Mas resolvi fazer diferente. Mandei um bilhetinho.
– De repente, a garçonete me entregou um papel com um número de telefone. No dia seguinte, liguei. Seis meses depois, fui de mala e cuia para a casa dela.
Rodrigo Rubira, 29 anos, e Rebeca Medeiros, 33 anos, Jundiaí (SP).

Eu me mudei de Brasília para São Paulo em 2006, com um grande desejo de me tornar ilustrador. Um ano depois, ainda estava desempregado. Decidi voltar. Justamente numa das viagens para procurar moradia na capital federal, conheci – e adorei – o trabalho do Carlo Giovani, numa exposição de ilustração. Comentei com um amigo, que disse que o conhecia, e nos apresentou. Dois meses depois, quando eu estava com as malas prontas, o Carlo me passou um trabalho temporário – que já dura três anos.
Fabiano Silva, 29 anos, São Paulo (SP).

Era uma manhã especial. Meu pai havia recém-voltado para casa, após mais um período de semanas isolado na embarcação em que trabalhava, transportando petróleo. Abraçou a minha mãe, a mim e a meus irmãos. Estávamos todos radiantes, principalmente eu, que dali a dois dias poderia comemorar meu aniversário de 18 anos junto dele. A festa já estava até encomendada. No meio daquela alegria, meu pai se afastou em direção ao pátio, como se quisesse olhar as plantas. Certamente sentiu alguma dor e não quis demonstrar. Subitamente, seu coração parou, transformando aquela felicidade numa imensa tristeza. Nunca mais comemorei meu aniversário, pois, todos os anos, quando ele se aproximava, aquela cena passava pela minha cabeça. Em 4 de dezembro de 1972, porém, justamente no dia em que completava 28 anos, vivi a única experiência capaz de devolver a alegria à data: eu me tornei mãe, pela primeira vez. Fiz as pazes com o acaso e sei que, seja lá onde ele estiver, meu pai também ficou feliz.
Zair Malta Branco, 65 anos, Rio Grande (RS).

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