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Rindo à toa

Eles estão próximos do primeiro emprego, querem ser populares na escola e viver um grande amor. Mas não conseguem sorrir – simplesmente porque lhes faltam dentes. São os milhões de jovens brasileiros carentes de saúde bucal. Embora o país tenha quase o mesmo número de dentistas que os Estados Unidos, 45% da população não tem acesso regular a uma simples escova, e 90% dos adolescentes tem cáries.
Tratar dos dentes é mais do que saúde: é um resgate da autoestima e da dignidade. Essa é a missão de Fábio Bibancos, o cirurgião-dentista por trás da Turma do Bem, ONG que coordena uma rede de profissionais voluntários – os Dentistas do Bem – que atendem gratuitamente a jovens carentes até que completem 18 anos. O que começou no consultório de Fábio, como uma busca pessoal por mais sentido no trabalho do dia a dia, contagiou outros colegas inspirados e virou uma revolução para resgatar o direito de sorrir. Hoje são mais de 5 mil dentistas voluntários, e mais de 10 mil jovens pacientes atendidos em 26 estados. A seguir, conheça melhor as ideias desse paulistano de 45 anos, cujo modo de trabalhar é guiado por um princípio muito simples: “Fazer pelo filho de alguém aquilo que faria pelo meu próprio filho”.
Por que você decidiu criar a Turma do Bem? Não bastava ser um dentista?
Fábio – É uma coisa de família. Meus pais sempre foram generosos. Além disso, estudei em colégio jesuíta e lá aprendi a importância e a satisfação de ajudar o outro. Tive contato com as questões sociais na escola e na faculdade. Quando comecei a estruturar minha clínica, percebi que os dentistas particulares faziam mais por si mesmos do que para o paciente. Então decidi trabalhar para as necessidades do outro. Atendia à noite, de madrugada e nos fins de semana, porque era o horário em que as pessoas podiam. Tive sucesso. Comecei a atender ator, jornalista... gente que não tinha tempo. Virei o dentista das celebridades.
Isso foi nos anos 1990...
Fábio – É. Aproveitando essa “fama”, lancei um livro para pais e educadores. Achava que os problemas odontológicos do país estavam na educação e na prevenção. Ao dar palestras nas escolas particulares, funcionava – o público podia prevenir e tratar. Então comecei a palestrar nas escolas públicas, e vi quanto eu tinha sido elitista.
O problema não era só educação. Era acesso...
Fábio – É! As mães chegavam para mim no fim da palestra e diziam: legal o que você falou, mas não tenho dinheiro para cuidar da boca do meu filho. Tem família que só tem uma escova de dentes pra todo mundo, pasta custa caro. Então, eu me apegava, levava as crianças para o meu consultório para tratar.
Mas não era muita gente pra ajudar?
Fábio – Era. Por isso tive a ideia de juntar um grupo de amigos dentistas, para dividir o trabalho. Criamos o projeto Adotei um Sorriso, com a Fundação Abrinq, em que mobilizávamos voluntários para atender a pacientes carentes. Algum tempo depois, saímos da Abrinq e montamos a Turma do Bem.
Como foi esse crescimento? Em 2002, quando foi fundada, a Turma do Bem tinha 650 dentistas. Hoje são mais de 5 mil voluntários...
Fábio – Ganhar prêmios, como o Empreendedor Social do Ano, que recebi da Fundação Schwab em 2006, deu credibilidade ao nosso trabalho. Vivo do dinheiro que ganho no consultório. Ter uma organização social relacionada à clínica podia fazer com que as pessoas suspeitassem de algo errado. O prêmio reconheceu que estamos fazendo tudo certo. Os olhos das empresas e do terceiro setor se voltaram para a Turma do Bem. Aí o crescimento foi monstruoso.
Como é feita a escolha dos pacientes?
Fábio – Têm prioridade os mais pobres, com a maior quantidade de problemas odontológicos e mais próximos do primeiro emprego – porque buscamos a sustentabilidade e, se o paciente consegue trabalho, vai ter condições de cuidar da própria saúde. A maioria vem da escola pública. A triagem é feita entre jovens do 5º ao 9º ano do ensino fundamental, e os pacientes recebem acompanhamento até completar 18 anos.
O que significa para o paciente receber essa atenção toda?
Fábio – Além de tratar a saúde, tem as questões pessoais da autoestima, que são dificílimas de carregar. Me comove isso de ser adolescente e não poder dar um beijo na boca. Se você se sente feia, você não sorri, não tira uma foto, não paquera. E beijar na boca é fundamental na vida de todo mundo. Se o jovem pode rir, pode abrir a boca sem vergonha, ele fica confiante, fala mais, arruma emprego, deixa de se sentir excluído na turma, namora. Eles mudam de vida.
E qual a relação entre a Turma do Bem e o estado?
Fábio – Buscamos influenciar políticas públicas e empresas – por exemplo, insistindo pra ter pasta de dentes na cesta básica. E orientamos os dentistas para que eles cobrem dos governos o que é direito de todos: ter saúde bucal. Isso passa por ter na sua cidade, no seu bairro, um posto de saúde com dentista que ofereça acompanhamento para a população.
Quais são os desafios de um projeto como esse?
Fábio – O mais difícil é captar recursos. Falta às empresas consciência. A meu ver, elas têm obrigação de financiar projetos sociais, pois cada menino formado é um novo consumidor. É, portanto, um investimento autossustentável.
O que te toca nesse trabalho?
Fábio – O poder de transformar. Tinha esse dentista meio louco... que se juntou com outros dentistas malucos... e olha no que deu. A gente está vendo a mudança acontecer. Todo mundo pode mudar o mundo.


















































