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Roda viva

Não existe movimento mais fácil de executar. Mesmo se você se esforçar ao máximo para permanecer parado, ainda estará girando. É algo primordial. Desde que o mundo é mundo, ele gira, levando consigo tudo o que está na superfície, incluindo você. Graças à rotação da Terra em torno do próprio eixo e ao redor do Sol, temos dias, noites, estações e, assim, as condições ideais para a existência da vida.
Talvez inspirado pelo giro dos astros no céu, o homem concebeu uma de suas mais antigas e revolucionárias invenções: a roda. E desde então temos usado e abusado desse princípio, sem o qual não existiriam parafusos, relógios, torneiras, máquinas de lavar, vitrolas, ventiladores, bambolês, automóveis, batedeiras, carrinhos de feira nem uma infinidade de outras coisas que facilitam e divertem nossos dias.
Mas para sentir o barato do giro não é preciso nenhum acessório. Basta rodar, como um pião. O desafio é não sair do eixo. Especialista no assunto, Maria Cristina Guazzelli, baiana da escola de samba Águia de Ouro, campeã do último Carnaval paulista, dá a dica: “Fechar os olhos e apoiar-se num pé só pode ser um bom treino”. Mas o desequilíbrio é parte da graça. Girar implica perder momentaneamente o ponto de referência, entregar-se a um movimento que envolve todas as partes do nosso corpo e que, mesmo após ter sido executado, parece continuar em nossa cabeça. Conversamos com três pessoas que adoram essa sensação. Confira como gira o mundo delas.
Revoluções no vazio
Para um leigo, ficar na pontinha de uma estrutura que se ergue a 10 metros do chão – mesmo que lá embaixo haja uma piscina – pode ser aflitivo. Para Fernando Ribeiro, é apenas um detalhe do esporte que ele pratica há 54 anos: o salto ornamental. A paixão por executar rodopios nos poucos segundos que separam o trampolim da água foi despertada na adolescência, no clube que frequentava, antes de se mudar do Rio de Janeiro para São Paulo. Seu talento foi reconhecido pelos atletas mais experientes, e ele começou a treinar a sério. A certa altura, o pai pressionou: “Vai ficar saltando ou vai trabalhar?”, e Fernando se desdobrou entre faculdade, emprego e piscina.
Formado engenheiro, ele se orgulha da invejável carreira paralela: participou de duas Olimpíadas e de três Panamericanos, ganhou campeonatos regionais, nacionais e sul-americanos. Incontáveis vezes, ele teve a sensação de girar no vazio, totalmente livre e, ao mesmo tempo, absolutamente concentrado na tentativa da manobra impecável. “Durante a rotação, sinto que há forças me puxando. Mas consigo prever o momento certo de me esticar. Quando o corpo toca a água, sabemos se o salto foi ou não um sucesso: quanto menos espirrar, maior a nota”, explica. Aos 71 anos, Fernando segue praticando, na piscina com trampolim construída no quintal de casa. E competindo. “Hoje tenho medo de executar alguns saltos, mas faço o melhor que posso”, conta, apressado para embarcar para os Estados Unidos, rumo a mais um campeonato.

Tontura da boa
Quando Enzo Franceschi discorda do nome que as pessoas dão para as coisas, não perde tempo em rebatizá-las. Foi assim na primeira vez em que viu um cone de trânsito. O mineirinho de Belo Horizonte achou que as listras davam movimento ao objeto, mesmo ele estando parado, e queria um nome mais dinâmico. “Então eu chamei de vomps”, resolveu. Foi assim também com o gira-gira. Ainda criança (“é que hoje eu já tenho 8 anos”, Enzo explica), ele se negou a chamar o brinquedo pelo nome usual. “Oras, se é uma roda e roda, então não é gira-gira, é roda-roda!” argumenta.
A lógica linguística é deixada de lado quando Enzo está rodando no gira-gira do sítio da família, em Itatiba (SP). Uma vez, ele brincava com um amigo no seu segundo passatempo preferido (o primeiro é o videogame) quando o brinquedo começou a tremer demais e derrubou o comparsa. Ao mesmo tempo em que achou engraçado, Enzo sentiu uma injeção de adrenalina – como se asas de borboletas cutucassem as paredes de seu estômago. E também caiu. A tontura tornou-se uma das maiores atrações da brincadeira. Depois de girar freneticamente, Enzo desce e se diverte trançando as pernas. Cristiane Franceschi, mãe do pequeno, conta que o filho sempre gostou de objetos que rodam. “Lembro dele admirando o ventilador e subindo num banquinho pra ver as roupas rodar na máquina de lavar. O mundo gira e ele quer girar junto.”

Sustentável leveza
Nas festas dos antigos imperadores chineses, uma curiosa atração hipnotizava os convidados: acrobatas realizavam delicadas coreografias enrolando-se e desenrolando-se em uma longa faixa de seda pendente do teto, exibindo graça e leveza diante da constante ameaça da gravidade. Assim nasceu o tecido acrobático, popularizado no mundo inteiro graças aos artistas circenses. A origem oriental, porém, não foi o que levou a descendente de coreanos Sabrina Yon Mi Kim, de 27 anos, a praticar essa arte. Sua razão é bem contemporânea: “Queria fugir do trânsito do fim da tarde em São Paulo, então me matriculei num curso de circo logo após a aula na faculdade”.
O início foi difícil. “Tinha um pouco de medo, porque eram 10 metros de altura. Mas aprendi a dar o primeiro nó, no pé, e comecei a subir”, lembra. Passaram-se quase dois anos até ela ter coragem de rolar tecido abaixo. “Os giros são a coisa mais difícil de fazer. É quase uma queda livre, com um pequeno tranco no fim. A receita é concentrar a força no abdome”, explica. Braços e pernas controlam a velocidade das rotações: quanto mais fechados, mais rápido. “É um lance de autoconhecimento. Hoje entendo melhor meu corpo, sei para que serve cada músculo e administro melhor meus limites”, conta. “Mas o melhor mesmo é que os truques nunca acabam. O tecido se molda ao corpo, e não há regras fixas. Vale tudo o que você conseguir fazer.”


















































