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Saber olhar

Era uma vez um dono de uma fábrica de sapatos. Certo dia, o homem resolveu expandir seus negócios. Mandou dois funcionários para um país distante avaliar se por lá o negócio renderia. Dias depois, um deles voltou. Arrasado. “Pode esquecer, chefe”, foi falando. “Não vamos vender nada. Ninguém usa sapatos nesse país!” Dali a pouco, o outro colega ligou. Eufórico. “Chefe! Pode dobrar a produção”, disse, ainda esbaforido. “Vamos vender tudo. Ninguém usa sapatos neste país!”
Contada em palestras motivacionais, a história é a versão empresarial da velha metáfora do copo com água pela metade – se está meio cheio ou meio vazio, depende de quem vê. No trabalho, enxergar oportunidades onde só parece ter problemas (ou, simplesmente, onde não há nada) é o que se chama de visão empreendedora. Não se trata apenas de abrir um negócio. Qualquer que seja a profissão, seja o funcionário, seja o dono, todo mundo pode cultivar a vista para as soluções.
“O empreendedorismo é um comportamento que pode ser ensinado”, garante Emerson Vieira, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), de São Paulo. Há um tanto de conhecimento teórico, que envolve métodos para avaliar situações, transformar idéias em planos realistas e colocá-los em prática. Outras questões envolvem o jeito de agir e pensar. Ser empreendedor é tomar iniciativa, inovar na maneira de resolver as coisas, ter persistência e coragem para arriscar. “Adquirir esse conhecimento ensina mais do que abrir uma empresa. As pessoas aprendem a ser protagonistas de sua vida”, diz Emerson.
E tem escola para isso? Até tem: o Sebrae (www.sebrae.com.br) é pioneiro em cursos para o empreendedorismo, vários gratuitos, que ocorrem em cidades de todo o Brasil, presenciais e a distância. Outras instituições da indústria e do comércio, como o Senai (www.senai.br), o Senac (www.senac.br) e a Fiesp (www.fiesp.com.br), ONGs como o Instituto Empreender Endeavor (www.endeavor.org.br) e universidades também oferecem cursos, debates, palestras e conteúdo sobre o tema. O acesso à informação ajuda a atuar e a pensar diferente. Mas não faz tudo: calibrar o olhar também depende de atitude.
Ser empreendedor envolve conhecimento teórico de métodos
para transformar idéias em planos realistas. Mas é preciso
também rever atitudes para calibrar o jeito de ver as coisas
Do elefante ao chinelo
Em 1986, o vietnamita Thai Quang Nghia recebeu 800 bolsas como pagamento de uma dívida. O que seria um elefante branco foi o começo de um negócio milionário. Thai, que chegou ao Brasil em 1979, refugiado do regime comunista implantado no Vietnã após a vitória do país na guerra contra os Estados Unidos, foi vender as tais bolsas de porta em porta em São Paulo. Recuperou o dinheiro e montou uma pequena fábrica, a Góoc. Dessa vez, nada de bolsas. Em outro lance empreendedor, Thai começou a fazer chinelos de pneus reciclados, inspirados nos modelos que seus conterrâneos usavam – no Vietnã pós-guerra, pneus de jipes deixados para trás pelos norte-americanos viravam matéria-prima para calçados.
“Sempre tive esse espírito empreendedor que busca o novo”, conta Thai, hoje com 48 anos, 400 funcionários e exportando suas sandálias para dez países. “Isso que me impulsionou”, diz. Para Ronaldo Koloszuk, diretor da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e fundador do Comitê de Jovens Empreendedores da instituição, a visão empreendedora depende dessa capacidade de sair dos planos prontos. “Às vezes, para avistar uma boa oportunidade, é necessário mudar de caminho”, conta. “Se dá bem quem chuta uma pedra e, em vez de xingar, sobe nela para enxergar mais longe.”
Esse talento também pode ser cultivado dentro de empresas. Profissionais com uma atitude empreendedora são reconhecidos pela capacidade de abraçar projetos e pela criatividade em resolver problemas – em vez de fazer apenas o que lhe cabe e esperar soluções prontas dos chefes. “O funcionário empreendedor é aquele dedicado, que traz idéias novas e se comporta como se fosse um sócio da empresa”, diz Ronaldo. “Isso faz a diferença na hora de uma promoção.”
A engenheira civil gaúcha Cláudia Poll, de 25 anos, é dessas que sobem na pedra. Recém-formada, trocou o emprego no Rio de Janeiro por outro na desconhecida Palmeirópolis, no Tocantins, onde foi trabalhar na construção de uma hidrelétrica. A mudança, é claro, não foi fácil – mas ela levou na bagagem outra característica típica dos empreendedores: o otimismo. “Fui cheia de energia, querendo experiências”, conta. Logo, além de cumprir suas tarefas, inventou moda: vendo que não havia destino certo para o lixo local, instaurou a reciclagem na empresa. Para fazer a idéia render, cobra os colegas. “E mexo no lixo se percebo que alguém separou errado”, conta rindo. Para que se dedicar a algo que nem é da sua conta? Ela abre o sorriso. “Ah, quero ser presidente da empresa.”


















































