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Saia andando

Vá com os próprios pés. Ou de bicicleta, patins, metrô, carona, ônibus, balão, rolimã. Mas deixe o carro em casa de vez em quando
Texto: Nina Weingrill  // Ilustração: Estúdio Mopa
Saia andando
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Duas semanas inteiras, dia e noite, trancafiado em um espaço de menos de 4 metros quadrados, onde não dá para ficar em pé nem deitar, respirando gases tóxicos, sendo agredido, no meio de um barulho infernal, sem poder dormir nem ir ao banheiro – e ainda ameaçando a vida no planeta. Esse tipo de tortura é mais comum do que se imagina. Na verdade, é até bem provável que você esteja se submetendo a ela voluntariamente. Este é, em média, o tempo que uma pessoa que dirige diariamente passa dentro do carro a cada ano. Ao fim da vida, terão sido mais de 800 dias no trânsito. O que você faria com esse tempo se pudesse escolher?

O.k., todo mundo sabe que carros são vilões do meio ambiente e que o trânsito anda pavoroso. “Estamos à beira do colapso”, diz André Pinho, urbanista. Não é só em São Paulo, onde toda sexta-feira tem recorde de congestionamento. Capitais como Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília sofrem do mesmo mal. “A estrutura das cidades não suporta tantos carros”, afirma André. Resolver isso depende de soluções como transporte público eficiente, acesso a combustíveis mais limpos e reurbanização. Adianta reclamar se as mudanças estão tão longe de nossas mãos? Opa. Nem tanto. Se não dá para cavar um metrô ou inventar o teletransporte, uma coisa pelo menos a gente fazer: descobrir outro jeito de sair de casa.

O empresário Marcelo Grillo, de 50 anos, o Mig, descobriu a sua maneira quando nem estava procurando. “Minha bicicleta estava encostada havia tempos quando precisei dela para um passeio. Mandei-a para a revisão e, quando fui buscá-la, resolvi sair pedalando”, conta. “Na hora em que o vento começou a bater na cara, tive um estalo.” Há dois anos, aposentou de vez o carro e a moto e vai para o trabalho de bicicleta. Para o analista de sistemas William Cruz, de 34 anos, foi num daqueles dias em que tudo parece dar errado que ele descobriu a coisa certa a fazer. “Estava saindo para o trabalho atrasado e o carro não pegava. Pegar ônibus demoraria mais. Para completar, chovia”, conta. “Resolvi arriscar: peguei a bike e saí pedalando.” Chegou na reunião molhado, mas feliz. “Fiquei tão bem que resolvi ir de bicicleta para a empresa duas vezes por semana, depois três, depois sempre que podia.” Acabou vendendo o carro e hoje alterna a bicicleta com o transporte público.

Como William, para começar, nem precisa ser radical: diminuindo aos poucos o uso, acostuma-se a viver sem o carro – ou, pelo menos, a não “precisar” tanto dele. O músico Du Moreira ainda tem um automóvel na garagem. Mas só pega à noite. De dia, caminha. Aprendeu isso quando morou em Nova York, onde o transporte público era eficiente o bastante para que não sentisse falta de suas quatro rodas. “Antes, ia para qualquer lugar dirigindo. Hoje percebo que usamos o carro por um problema de infra-estrutura. É algo que demora a ser resolvido. Podemos tomar outras atitudes enquanto isso.” Mudar o mundo é difícil. Mudar de hábitos, nem tanto.
 

ECONOMIA SAUDÁVEL

Deixar o carro em casa – ou dividi-lo com caronas – faz bem também para o bolsoequenos hábitos na hora de fazer compras e embalar o lixo evitam o desperdício e ajudam o planeta    

Usar menos o carro também é questão de economia – uma conta que pouca gente faz. Entre compra, manutenção, impostos, combustível, estacionamento e seguro, muito dinheiro vai pelo ralo. “Mesmo que eu ande de táxi toda a semana, gasto um terço a menos do que se usasse carro”, conta Du Moreira. Impossível deixar o automóvel na garagem? Pense em dividi-lo. Muitas escolas e empresas incentivam mutirão de carona. Como um sistema de rodízio, formam-se grupos que moram na mesma vizinhança e, a cada dia, um leva a turma.

Pense também na máxima “tempo é dinheiro”. William, aquele da bicicleta na chuva, hoje não leva mais de 30 minutos pra chegar ao trabalho pedalando, pelo mesmo percurso que antes demorava até duas horas de carro. “As pessoas perdem tempo no trânsito quando poderiam estar produzindo”, acredita Ricardo Peres, ambientalista e empresário. Ele demora 50 minutos do centro de São Paulo, onde mora, até o trabalho, a 15 km. E o que ganha, além da economia, são aquelas coisas sem preço. “Me intoxico menos, sou menos assaltado, mais humanizado e mais feliz.”

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Acredito que a cidade pare antes que o transporte público melhore. Mas cada um pode fazer sua parte ou deixando o carro em casa e andando de bicicleta ou ainda pegando carona. Um site novo que parece interessante é o www.caronetas.com.br, se as empresas realmente se cadastrarem e divulgarem poderemos ter alguma chance. Quero andar por opção, e não por não haver outra saída, rs.
Giulia Sacardo
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