Droga Raia

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Sempre é tempo

O que ainda falta você saber? Todos os conhecimentos da vida estão ao seu dispor. E o primeiro passo para dominar qualquer assunto é desejar aprender
Texto: Ana Luísa Vieira e Roberta Faria, com a colaboração de Cristina Casagrande, Flávio Carneiro, Juliana Dias e Nina Weingrill // Fotos: Rodrigo Braga // Beleza: Élcio Aragão (Maizena)/Agência First // Produção de moda: Marcelo Ultra
Sempre é tempo
Priscila compõe, cantarola para os amigos, mas o que sonha mesmo é em aprender a perder a vergonha e soltar a voz para uma legião de fãs
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Você já é sábio. Acumulou anos de vivências, lições, exemplos, informações de todo tipo. Algumas coisas, aprendeu por obrigação ou necessidade, conforme crescia, nas regras da casa, em uma sala de aula, no treino de uma profissão. Outras, descobriu observando as pessoas ao redor: gestos simples como andar e falar, e alicerces profundos como seus valores e hábitos. Há muito que ganhamos só por curiosidade e esforço próprio, porque ninguém nos pede para aprender, como fazer bola com o chiclete, tocar violão ou tricotar. E incontáveis lições vêm simplesmente das experiências – as que dão certo e as que saem errado também.

Não há um só dia da sua vida em que você não aprenda algo. É essa capacidade infinita de acumular conhecimentos que enriquece a existência e nos permite superar limites. Às vezes nos esquecemos disso. Parece que aquelas coisas todas que gostaría­mos de saber, como dançar tango ou ser mais pontual, são difíceis demais a essa altura do campeonato. Oras, que bobagem. Sempre há algo novo para descobrir. E sempre é tempo – sempre há tempo – de aprender. O que você quer saber?
 

 

Quero aprender a encarar a vida de forma mais positiva. Comecei com as pequenas coisas. Outro dia meu guarda-chuva não conseguiu enfrentar a tempestade, e passei o dia com a roupa molhada. Enquanto sentia as meias encharcadas, pensava: ao menos está fresco, e não estou suando.
Ivy Tomao, 32 anos, São Paulo.



Quero soltar a voz para uma multidão. No chuveiro, imagino um palco enorme e uma legião de fãs. Morro de vergonha de cantar em público, desde que participei de uma peça de teatro e, de tão nervosa, tive de ser dublada. Componho músicas e até cantarolo para os amigos. Um dia ainda ganho coragem de me fazer ouvir mais longe.
Priscila Ferreira, 22 anos, Limeira (SP).

 


Me falta fazer uma bela torta. Na adolescência, assei bolos tão horrorosos que enfiei na cabeça: jamais seria capaz de preparar nada com fermento. Há pouco, resolvi me dar outra chance. Comecei com uma torta de massa folhada, que vem semipronta. Deu certo. Próxima meta: ousar uma massa de liquidificador.
Paula Idoeta, 30 anos, São Paulo.



Há quarenta anos espero para aprender a lidar com plantas e mudas, selecionar sementes, cultivar flores. Foi quando comprei uma propriedade no campo. Nesse tempo, transformei a terra em uma reserva particular. Agora, falta fazer um curso para montar um viveiro lá. Se souber lidar com a natureza, vou poder preservá-la também com a mão na massa.
Heródoto Barbeiro, 64 anos, São Paulo.



Preciso aprender a ser organizado, para ter tempo de ler mais. (Na verdade, queria ter menos preguiça de ler também.)
Júlio César de Sousa, 26 anos, São Paulo.



Preciso aprender a não sentir sono depois do almoço. Já tentei comer bastante, comer pouco, não comer sobremesa...
Rubia Marques, 17 anos, São Paulo.



Gostaria de aprender a paciência. Uma vez, li um poema de Carlos Drummond de Andrade que dizia: “...contou-me que todo ano recebe um cartão nesses termos: ‘CALMA, RAPAZ’. ‘E quem é que te manda este cartão?’, perguntei-lhe. ‘Eu mesmo. Entro na fila, compro o selo, boto na caixa. Porque, se eu não fizer isso, ninguém o fará por mim’”. Não me mandei um cartão assim. Para me lembrar da virtude que não tenho, escrevi “calma” numa fita amarela e colei no computador. Toda vez que olho para ela, respiro uma dose de paciência.
Karina Sérgio Gomes, 24 anos, São Paulo.



É uma força irresistível, que me empurra antes que eu perceba. E, então, tarde demais – literalmente. De novo, deixei para depois. As pessoas reclamam que o mundo está acelerado: não o meu. Ando é atrasado, deixando tudo para a última hora. O nome disso é procrastinação. E o que quero aprender é como não ser mais assim.
Alex Camargo, 38 anos, Florianópolis.



Quero aprender a driblar igualzinho ao Cristiano Ronaldo.
Renato Nogueira, 11 anos, Icém (SP).



Desenhar como o Maurício de Sousa!
Luana Hass, 10 anos, Londrina (PR).


 

"Gostaria que meus pais, que já passaram dos 70 anos, aprendessem a
aproveitar toda a vida de que ainda dispõem. Como vou ensiná-los que
há tempo para isso? Talvez eu só entenda quando chegar a essa idade"





Disse Guimarães Rosa, e carrego como lição: “Mestre não é quem ensina, é quem de repente aprende”. Esta é uma verdade verdadeira. Eu, que sou um simples cantador, quero continuar aprendendo com os poetas sem nome, com o jornaleiro da esquina, com o barbeiro do interior. Aprendo com os garis que cumprem o trabalho como um dever sagrado. Aprendo com as pessoas pobres de espírito, que ainda se preocupam com o dinheiro, e não com a amizade. Aprendo com o agricultor que semeia a paz e colhe justiça. Gosto de ser esse mestre do Guimarães.
Rolando Boldrin, 75 anos, São Paulo.



Preciso aprender a ficar quieta. Não aguento um silêncio. Daí, já viu: falo sem pensar, não noto quando a piada perde a graça... E segredo, olha, melhor não contar pra mim.
Teresa Lourenço, 16 anos, Niterói (RJ).



Preciso aprender a falar o que penso. Reflito mil vezes antes. Daí, quando vou dizer, já não tem ninguém ouvindo.
Julio Cani, 51 anos, Porto Alegre.



Tenho de aprender a fazer malas pequenas. Ocupo 80% do porta-malas sozinha. Se viajo com a família, usamos até o bagageiro de cima. Tentei diminuir, reorganizar, até comprei essas embalagens de onde se suga o ar com o aspirador: nada resolve.
Letícia Frigo, 37 anos, São Paulo.



Quero trocar os pneus do carro sozinha. Eu me sujo inteira e não tiro um parafuso sequer. Certa vez, o pneu furou na estrada, à noite. Acabei pedindo carona à polícia até a borracharia. Se soubesse, teria resolvido. E poderia ensinar a outras pessoas.
Maria Helena Sampaio, 48 anos, São Paulo.



Quero saber subir rampas giratórias em shoppings. Por enquanto, só vou aos que têm estacionamento térreo.
Giulia Paludetti, 19, São Caetano do Sul (SP).



Quero aprender a dizer mais “sim”. Sempre sou a do contra: antes de ouvir a ideia, já acho que não dá, não pode, não funciona, não quero, não presta. De vez em quando, me arrependo.
Elenice Sandoval, 58 anos, Brasília.



Quero aprender a dizer mais “não”. Sempre fui o bonzinho: precisou de cola, dinheiro, carona, goleiro, hora extra, estou lá antes que peçam. Às vezes, eu me arrependo.
Henrique Gaertner, 29 anos, Belo Horizonte.



Quero deixar pra lá esse gosto assim, de gostar de quem não gosta de mim.
Daniel Pinheiro, 31 anos, São Paulo.



Eu devia aprender a desconfiar. Não resisto a uma promessa milagrosa. Aparelho que faz barriga de tanquinho enquanto dorme, amarração de amor, pílula que emagrece 15 quilos, horóscopo, sapato que laceia, corrente de e-mail, homem que liga: algo me diz que não é verdade, mas não custa tentar, né? (E pior que custa.)
Samantha Amaro, 44 anos, Curitiba.



Preciso aprender a economizar. Acho que só conseguirei se meu salário aumentar.
Ingrid de Carvalho, 22 anos, Rio de Janeiro.



Quero aprender a cantar, dançar, tocar um instrumento, falar bem francês e inglês. É a busca para ser um ator completo. Acima de tudo, quero acordar todos os dias e achar que ainda não estou pronto.
Lázaro Ramos, 32 anos, Rio de Janeiro.



Aprender polonês e russo, para assistir aos meus filmes preferidos sem legenda.
Vitor Novaes, 22 anos, Rio de Janeiro.





Jadete quer ver de perto como os vinhos são feitos. Mas tem de ser na França, de onde vêm os melhores




Quero aprender sobre vinhos – lá na França, onde os melhores são feitos. É uma memória que vem da infância, quando adorava assistir a meu avô cuidando da videira em seu quintal. Já por francês me interesso desde que tinha aulas da língua no colégio. Quero viver um tempo em regiões como o Vale do Loire, Champagne, Alsácia. Quem sabe um dia...
Jadete da Silva, 66 anos, Mairiporã (SP).



O que gostaria é que meus pais, que estão com 71 e 72 anos, aprendessem que o mundo mudou, e eles ainda têm muita lenha pra queimar. Vejo-os deprimidos com o avançar dos anos, sem aproveitar o que podem. Como vou ensiná-los que ainda há tempo? Talvez eu só entenda quando chegar a essa idade. Mas não desisto. Enquanto há vida, há esperança.
Alessandra Kleine, 33 anos, Atibaia (SP).



Certo dia, enquanto caminhava na praia, vi uma mulher surfando e perguntei se também podia participar. Faz pouco tempo, quando eu tinha 72 anos. Depois de algumas aulas, consegui subir na prancha. Agora me entendo bem com o mar. Mas ainda preciso aprender a nadar melhor. Enquanto não melhoro esse lado, surfo no raso.
E me dedico a outros esportes: já estou matriculada para o curso de canoagem.
Fusae Uraimoto, 80 anos, Santos (SP).
 

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