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Ser feliz agora

O que você pode fazer neste exato momento para se sentir feliz? Pode ser qualquer coisa. Sair correndo, ficar parado, andar despreocupado. Propor, aceitar, negar-se a se conformar. Pode ser uma coisa de ouvir bem alto ou de falar baixinho. De suar, de se refrescar, de lembrar. Pode ser de fazer sozinho, a dois, com os melhores amigos, com a família inteira, para o mundo todo. Pode ser algo tão raro que só se faça uma vez na vida, ou tão rotineiro que nem se repare mais. Algo para que nos preparamos por muito tempo, ou que chega de surpresa. Um presente da natureza que só se vê nessa estação, uma vista que não há de nenhuma outra janela, uma delícia que só a pessoa ao seu lado sabe cozinhar, um sorriso que só você pode receber. Pode ser um cheiro, um gosto, uma textura, um som ou uma visão. Também serve um sexto sentido. Não há opção certa. Vale qualquer coisa que responda à pergunta: “O que te faz feliz agora?”
Taí uma questão tão simples e tão fundamental que não dá pra acreditar como não a respondemos mais vezes na vida. Para fazer essa reportagem, interrompemos a rotina de dezenas de pessoas de vários estados do país, de diferentes idades, e pedimos a elas que compartilhassem seus momentos felizes com a gente. Acabou que descobrimos uma nova resposta para a filosófica pergunta: contagiar-se com a alegria dos outros é uma ótima maneira de ser feliz agora.
O que me faz feliz agora é perceber meu bebê se mexendo dentro da minha barriga. É a sensação mais esquisita e sensacional do mundo. Meio alien, meio mágica. Faz a gente se achar muito poderosa.
E duas vezes mais viva.
Tereza Bertolli, 29 anos, Canoas (RS)
Filhotes me deixam feliz. De cachorro, gato, hamster e coelho. Porque eles são gordinhos, macios, tem olhos brilhantes, fazem cara de coitados e andam desajeitados. Gosto também de filhotes de gente, com pés que parecem pães. Já percebeu? Acontece com todo mundo: dá uma coisa boba, e a gente fica feliz só de ver um filhote. Por isso, quando eu crescer, vou ter oito filhos e uma pet shop.
Letícia Wang, 9 anos, Maringá (PR)
Felicidade é sair do trabalho no meio do dia, só para apertar as bochechas do meu filho recém-nascido.
Galileo Giglio, 29 anos, São Paulo (SP)
Desligar-me do mundo para ensinar meu filho a jogar bola de gude.
Fernando de Santis, 46 anos, São Paulo (SP)

Atender ao insistente convite de meu primo Robson, de 9 anos, para jogar futebol na rua. E sem me importar com meus 43 anos, meus 93 quilos, meu sexo feminino e se ficam olhando. Faz um bem!
Enice de Paula, 43 anos, São Paulo (SP)
Dar um beijo na bochecha da minha filha enquanto ela dorme. Isso me transporta para o tempo em que essa mulher independente, de 22 anos, era um lindo bebê, ou uma menininha que, cansada da escola, tirava uma soneca no sofá.
Norma Sono, 56 anos, São Paulo (SP)
Beber dois potinhos de Yakult no mesmo dia. Quando eu era criança, minha mãe nunca me deixava tomar mais de um. Hoje, quando subverto essa regra, é o êxtase.
Rick Levy, 36 anos, São Paulo (SP)
O cardiologista que não me ouça. Mas felicidade mesmo é dar aquela primeira pancadinha, de leve, com o lado da colher, para quebrar a pele dourada e brilhante de um porco à pururuca. Ouvir o barulho da casca rachando e, com as mãos mesmo, tirar pedaços desse torresminho, para mastigar fazendo croc, croc, croc. E depois ainda chupar os dedos, brilhantes de gordurinhas salgadas. Ai, como é bom.
Sérgio Amarante, 52 anos, Curitiba (PR)
Um copo de refresco de laranja com limão, como o que eu tomava quando criança.
Thaís Baraviera, 31 anos, Brasília (DF)
Chegar em casa e ficar perto da minha mãe enquanto ela faz o jantar. O cheiro da comida dela me diz: este é o meu lar.
Mariana Pereira, 23 anos, São Paulo (SP)
Chegar em casa e ser recebida com um latido de saudade.
Tiemy Hasimoto, 26 anos, São Paulo (SP)
Dizer “eu te amo”.
Luiz Gonçalves, 23 anos, Campo Grande (MS)
Num sábado de manhã, sem motivo aparente, interromper de repente a caminhada, virar para ela, segurar seu rosto entre minhas mãos, olhar em seus olhos... e tascar na minha mulher um beijo comprido, e desavergonhado, desses que fazem os carros buzinar e os feirantes aplaudir.
André Giacomelli, 44 anos, Rio de Janeiro (RJ)
Ouvir “eu te amo”.
Deolinda Guedes, 52 anos, Fortaleza (CE)
Deitar na cama e lembrar-se dele achando graça das minhas imitações. Contar minhas coisas pequenas, sentir orgulho do seu gol. Vê-lo dando bola para o meu ciúme e me fazendo uma flor com bexigas em uma festa de criança. O que me faz feliz mesmo é tê-lo por perto.
Flavia Elisa, 21 anos, São Paulo (SP)
O telefone tocar. E ser ela, dizendo sim.
Marcelo Vaz, 30 anos, Porto Alegre (RS)
Cinema no meio da tarde, num dia útil.
Heloisa Balardin, 47 anos, Porto Alegre (RS)
Uma vista para o mar.
Lúcio Gouveia, 50 anos, Itapema (SC)
Ficar de biquíni o dia todo, debaixo do sol.
Camila Fudissaku, 29 anos, São Paulo (SP)
Acordar no susto achando que estou atrasado, ver que é sábado e voltar a dormir.
Rodrigo Simões, 23 anos, São Paulo (SP)
Estar realmente atrasado e encontrar uma vaga que não exija baliza em frente ao prédio. E ainda achar uma solitária folha de Zona Azul no porta-luvas. Sorte, alívio e felicidade são coisas bem parecidas.
Mário Ikeda, 28 anos, São B. do Campo (SP)
Estar com sede e beber água. Bem devagar, sentindo a sede ir embora.
Zadir Ferreira Malta, 55 anos, Rio Grande (RS)
Chegar no meu prédio apertada pra fazer xixi e encontrar o elevador no térreo.
Priscilla Mazenotti, 34 anos, Brasília (DF)
Tirar os sapatos e mergulhar os pés numa bacia de água quente.
Elaine Lima Vital, 30 anos, São Paulo (SP)
Descobrir que aquele sapato incrível, que namorei por meses, está com desconto de 70%, e só tem um par – do meu número.
Lorena Kim, 33 anos, Santo André (SP)
Achar 10 reais no fundo do bolso daquela calça que não uso desde o ano passado.
Nathália Butti, 22 anos, São Paulo (SP)
Passar por um sebo empoeirado, entrar sem esperar muito e encontrar o livro que procuro há anos em um cestão, na promoção de “qualquer um por R$ 1,00”.
Caroline Pfiffer, 31 anos, Brasília (DF)
Ver minhas orquídeas florescer depois de passar o ano todo cuidando delas.
Maria Alice Augusto, 44 anos, São Paulo (SP)
Ouvir os aplausos da plateia, depois de meses e meses treinando para aqueles dez minutos do recital de piano.
Rodrigo Echeverría, 13 anos, São José (SC)
Logo antes de dormir, com todas as luzes apagadas, olhar da janela da cozinha o céu, por longos cinco minutos.
Priscila Yazbeck, 19 anos, São Paulo (SP)
Dormir sozinha em uma cama de casal, com o barulho do ventilador.
Vitória Klein, 15 anos, Campinas (SP)
Lembrar da sensação da água deslizando pelo corpo enquanto furo uma onda, a caminho da rebentação, para surfar outra.
Rodrigo da Cunha, 33 anos, São Paulo (SP)
Chegar em casa depois de pedalar 25 quilômetros e subir as escadas correndo com a bicicleta nas costas, como se tivesse acabado de achá-la dando sopa na portaria.
Junior Bernucci, 39 anos, Londres, Inglaterra
É um ritual: acordo, me alongo, danço ao som de Astor Piazzolla e subo nos dois pés de manga do meu quintal. Até no frio vale a pena: o bom humor dura o resto do dia.
Fernando Pimenta, 19 anos, São Paulo (SP)
Dançar de olhos fechados, cantando e representando a letra da música, como num musical. Na festa ou na sala de casa, dançar extravasa o que não sei dizer de outro jeito. É a melhor coisa que a gente pode fazer com o corpo – e com a cabeça.
Bia Weber, 27 anos, Rio de Janeiro (RJ)
Ah, não, a melhor coisa é quando não tem ninguém me olhando: daí pulo em uma poça d’água com os dois pés, fazendo muito splash, splash na roupa, na calçada e nas pessoas. Gosto do barulho de nhec, nhec que o tênis faz depois, quando caminho com eles encharcados. A minha mãe não fica feliz. Mas eu fico, muito mesmo.
João Gabriel Vogel, 7 anos, Belém (PA)
No sítio da minha avó, fazer guerra de travesseiros com meus primos e assistir pela nonagésima vez àquele vídeo da gente pequenos, rindo como na primeira vez.
Mariana Galante, 29 anos, São Paulo (SP)
Ouvir minha música preferida tocar na rádio, dirigindo de volta pra casa, depois de um longo dia. Então aumento o volume e canto bem alto, com os vidros abertos: passa o vento e chega o alívio.
Vanessa Lima, 23 anos, São Paulo (SP)
Pilotar um avião, dos simplesinhos mesmo, curtir o ronco do motor e apreciar, lá do alto, os contornos da terra. Fiz cursos e tirei brevê, mas há algum tempo não voo – só nos games e na imaginação, e mesmo isso já me faz muito feliz.
Claudio Luiz Vaz, 56 anos, Guarulhos (SP)
Dizer ao meu chefe: “Vou ali e já volto”, pegar um táxi para o aeroporto, escolher o primeiro voo para um destino legal e viajar sem mala nem dia para voltar.
Tarso Araújo, 32 anos, São Paulo (SP)
Ajudar alguém na rua. Vou com a pessoa comprar comida ou um pacote de fraldas, por exemplo. Para mim é simples, mas faz toda a diferença para quem está em dificuldades – às vezes nem pelo valor material, mas pela atenção recebida.
Hélio Gouveia Rizo, 42 anos, Brasília (DF)
Dar presentes a quem amo. Da última vez, surpreendi minha amiga Natália, que estava nervosa com o vestibular. Fiz uma caixinha com incenso, trevo-de-quatro-folhas, suco de maracujá, um disco de música clássica. É uma delícia ver a cara de felicidade quando a pessoa abre o embrulho.
Vanessa Peralmo, 22 anos, Brasília (DF)
Receber ligações espontâneas da turma na balada, falando que eu deveria estar lá.
Flávia Moreira, 23 anos, São Paulo (SP)
Em uma tarde entediada, receber um grande e-mail de um amigo distante.
Bebel Araújo, 26 anos, São Luís (MA)
Ah, me deixa feliz saber de boas notícias. Elas nunca têm destaque, mas procurando, se acha. Coisas como o desmatamento da Amazônia ter reduzido 32% ou que chocolate pode ser bom contra a calvície.
Haroldo Fonseca, 48 anos, Rio de Janeiro (RJ)
“Felicidade, neste momento, seria dizer ao meu chefe ‘vou ali e já volto’,
pegar um táxi para o aeroporto, escolher o primeiro voo para um
destino legal e viajar sem mala nem dia para voltar”
Acordar e ver que tem sol.
Rafael Takano, 24 anos, São Paulo (SP)
Andar devagar no meio da chuva, que começou na metade do caminho, bem no dia em que você resolveu ir a pé para casa.
Máurio Galera, 24 anos, São Paulo (SP)
Minha felicidade é assim: levanto cedo, numa manhã de sol, para fazer feira sem lista de compras. Imagino o cardápio conforme encontro os legumes, verduras e frutas mais frescos. Converso com os feirantes, provo pedacinhos maduros que me oferecem e troco receitas com desconhecidos. Lancho pastel de queijo com garapa, ganho ameixas de lambuja, escolho flores para a casa. Volto puxando o carrinho pesado pelo lado da calçada que tem árvores, com dor nos braços, mas feliz de planejar o almoço de domingo.
Celeste Godinho, 36 anos, São Paulo (SP)
Acordar no fim de semana, naquele silêncio, com o solzinho batendo na janela, e me aventurar na cozinha. Gosto de misturar coisas que ninguém imagina. Dia desses fiz queijo com chocolate (e deu certo).
Isabela Santanori, 35 anos, Florianópolis (SC)
Depois de passar o domingo capinando e remexendo no jardim, chegar naquela hora morna quando o sol começa a baixar, com a sensação orgulhosa de tarefa cumprida. E me recompensar, ainda suado e sujo de terra, com o primeiro gole de uma cerveja trincando de gelada.
Augusto Viana, 39 anos, Niterói (RJ)
Preciso de pouco para ficar feliz: de silêncio, solidão, um livro arrebatador, uma rede com brisa e a tarde inteira à toa.
Luiz Alberto Torres, 37 anos, Cotia (SP)
Ver um filme com final estupidamente feliz, desses que inspiram a gente a acreditar que o amor supera tudo, as amizades são para sempre, a família é o melhor dos problemas. Filmes que me dizem que, para ganhar, é só desejar de coração, que os justos sempre vencem no final e que basta coragem para salvar o mundo. É fantasia, eu sei. Mas é reconfortante como esperar o Papai Noel. Vai que dessa vez...
Rafaella Santos, 19 anos, Manaus (AM)
Saber que tentei o melhor que pude. E que posso aceitar se não tiver sido o bastante.
Reinaldo Cruz, 55 anos, Santos (SP)
Saber que o amor da minha vida está em paz agora. Francisco foi meu melhor amigo, meu amante, meu pai, meu filho, meu lar. Do dia em que nos conhecemos, até ele ir para o hospital esperar o transplante de coração, aproveitamos cada momento. Mesmo que aproveitar fosse ficar de mãos dadas na cama. Quando o sofrimento o impediu de viver até as pequenas coisas, desejei que ele partisse. A falta é imensa. Mas me faz feliz pensar que ele se livrou da dor, e agora carrega só a nossa história.
Margarete Appel, 56 anos, Curitiba (PR)
Do meu lugar na varanda, no fim da tarde, vejo-a vindo a pé pela rua, assobiando distraída para os passarinhos, com o jornal debaixo do braço, um saco de pão quente na mão. Faz 48 anos que assisto a Dora chegar em casa, e sinto o mesmo frio na barriga de quando namorávamos no portão.
Thomaz Lello, 70 anos, Belo Horizonte (MG)

















































