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Sim, você é preconceituoso

Nossa biologia e psicologia nos criaram assim. Mas não precisamos nos render a essa característica. Reconhecê-la – e então superá-la – é a chave para construir relações que extraiam o melhor de cada um de nós
Texto: Bruno Moreschi e Dilson Branco // Ilustração: Visca
Sim, você é preconceituoso
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Sentimento ruim e errado que pessoas más têm em relação a vítimas injustiçadas. Quem acha que essa é a definição de preconceito está sendo preconceituoso com a palavra. Preconceito pode ser, sim, negativo, equivocado e causar muito sofrimento. Mas não só isso. Seu significado é mais amplo. Veja o que diz o dicionário Houaiss: “Opinião ou sentimento, quer favorável quer desfavorável, concebido sem exame crítico”. O Aurélio complementa: “Existe em relação a quase tudo e varia em intensidade, da distorção moderada a um erro total”.

Ou seja: preconceito também pode ser um julgamento positivo, estar direcionado a coisas (e não só a pessoas), pode estar correto e render um grande prazer, sem trazer problemas a ninguém. No livro Prejudice, Its Social Psychology (Preconceito, Sua Psicologia Social, inédito no Brasil), o professor de psicologia da Universidade de Sussex, no Reino Unido, Rupert Brown, dá um exemplo disso por meio de um testemunho pessoal. “Tenho uma disposição favorável a todas as coisas italianas: amo, por exemplo, a comida e o cinema daquele país”, diz. Quando vê um prato de espaguete exalando convidativos vapores de tomate e manjericão, Rupert julga-se diante de uma deliciosa refeição. Não raro, o preconceito mostra-se certeiro, e o resultado é a satisfação que só nossas comidas preferidas proporcionam.

A gastronomia é uma área e tanto para estudarmos nossos preconceitos. Que o diga Marcelo Katsuki, de 41 anos, que se autodenomina “alguém sempre em busca de novos sabores”. Suas impressões culinárias ele publica no blog Comes e bebes. Visitando todo tipo de restaurante, Marcelo já pôde tanto comprovar quanto se surpreender, inúmeras vezes, com suas opiniões de antemão sobre os pratos.

O que agrada os olhos nem sempre tem o mesmo efeito sobre o paladar. “É o caso das comidas que levam flores”, diz. “Comi algumas para ver se o prato ganhava em sabor. Mas concluí ser só um truque visual”. Com o bife de fígado ocorre o contrário: Marcelo está longe de admirar a beleza da iguaria, mas só de lembrar já fica com água na boca.

Nada, porém, se compara a sua ojeriza à galinha ao molho pardo. Durante a vida inteira, era só olhar o nome do prato no cardápio que a mente de Marcelo era invadida por uma história de infância nada agradável: a tarde em que viu sua tia do interior depenar a ave. “Assim que teve o pescoço quebrado, a penosa saiu correndo bem na minha direção, enquanto eu fugia aos berros”, relembra.

Recentemente, em viagem a Recife, o blogueiro esteve num restaurante especializado na receita. Decidiu enfrentar o trauma. Ressabiado, levou à boca a carne embebida no espesso líquido feito de sangue. Resultado: adorou a ponto de raspar o prato.

Infelizmente, nem todos preconceitos são inofensivos quanto os culinários. O pintor espanhol Pablo Picasso resumiu muito bem o lado terrível desse sentimento. Perguntado sobre como definiria o nazismo ou qualquer outro tipo de perseguição coletiva, respondeu: “É a transformação do diferente no anormal. Quando alguém faz isso não prejudica somente um grupo, mas toda a ideia de humanidade.”

Anormal e desumanizado é como Ricardo Souza já se sentiu várias vezes ao frequentar determinados locais de São Paulo. O garoto de 19 anos é negro, gay e nortista – nasceu em Jordão, no Acre, uma das cidades mais pobres do Brasil. E desconfia que isso possa ter alguma relação com o fato de já ter sido abordado pelos seguranças sete vezes em um shopping center que costuma frequentar, nos dois anos em que vive na capital paulista.

A cena é quase sempre a mesma. Ao passar pela porta, os guardas pedem para ele parar e abrir a mochila. Só ficam tranquilos quando veem que está cheia de material da faculdade. “O mais curioso é que quase sempre o segurança também é negro. E, provavelmente, deve possuir uma condição social muito parecida com a minha. Para mim, sabe qual é a sensação? A de ser a pessoa mais feia do mundo”, explica o rapaz. “Da próxima vez, juro que vou exigir meus direitos e processar o shopping.”



"O preconceito é natural. É um estímulo discriminatório essencial à manutenção do
grupo. Pode ser entendido como algo genético e vital para a evolução das espécies"


 

Cacoete evolutivo

Que terrível força é essa que nos leva a tomar o diferente como pior, causando tanta injustiça? Acredite: a própria natureza. Trata-se de algo presente em nossas raízes biológicas, que nasce conosco e tem papel importante na formação da sociedade. “O preconceito é natural. É um estímulo discriminatório essencial à manutenção do grupo. Pode ser entendido como algo genético e vital para a evolução das espécies”, afirma a bióloga Marta Fischer, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

A especialista lembra que os humanos são animais sociais. E, para formar grupos, nos atentamos a características que nos aproximam de determinados indivíduos e que nos diferenciam dos demais. “Assim, a discriminação ajuda a manter a identidade e união do nosso grupo. Isso nada mais é do que o preconceito”, afirma. Quando um sujeito diferente se aproxima, ele tende a ser visto como ameaça. “Um animal com um cheiro ou aparência distinta dos demais de sua espécie pode chamar a atenção de predadores, por exemplo. Isso faz com que seja discriminado, abandonado ou até mesmo morto por alguém do grupo”, afirma a bióloga.

Nosso apego à tribo pode inclusive causar distorções na maneira como interpretamos a realidade. Um experimento relatado no livro de Rupert Brown comprova isso. Os participantes foram divididos em duas turmas, e receberam informações fictícias sobre ambas, por meio de frases criadas pelos cientistas. Algumas afirmações eram positivas, como: “O grupo A é generoso”. Outras, negativas: “O grupo A é injusto”. O número de afirmações admiráveis e condenáveis referentes a cada turma era exatamente igual. Porém, ao fim da experiência, quando foram perguntados sobre o caráter de cada agrupamento, os participantes tenderam a avaliar os seus de forma melhor do que eram de fato, julgando que tinham mais pontos bons que ruins. “Parece que, ter um envolvimento psicológico mínimo, de poucos minutos, com um grupo, é suficiente para influenciar o que lembramos sobre ele”, avalia Rupert. E o especialista deixa uma pergunta no ar: “Quão mais forte seria esse efeito no caso de uma identificação de vida inteira com um grupo étnico ou religioso?”

Outra experiência descrita no livro sugere que superestimamos características que fogem da normalidade, principalmente quando se referem a minorias. “Coisas que são menos comuns que a média, ou que acontecem raramente, parecem atrair uma fração desproporcional da nossa atenção e podem ser lembradas mais facilmente. Este fenômeno pode dar origem a estereótipos”, afirma Rupert.

No estudo, os participantes foram informados sobre a existência de dois grupos fictícios, A e B. O primeiro era composto por 27 personagens; o segundo, por 12. Em seguida, os pesquisadores descreveram o comportamento dos integrantes: alguns bons, outros ruins. A proporção era a mesma: tanto no grupo A quanto no B, havia 67% de pessoas de boa-fé e 33% de má índole. Mas quando perguntados sobre a impressão que ficaram de cada turma, os participantes tenderam a supervalorizar o comportamento menos frequente – ou seja, o ruim. A defasagem foi maior na turma menor, a B, tachada de ser 52% reprovável. “O fenômeno sugere que, num país predominantemente branco, as pessoas vão lembrar mais prontamente de comportamentos anti-sociais relativamente raros (como assaltos) cometidos por negros (o grupo minoritário)”, explica Rupert.

Lições de tolerância

A biologia e a psicologia comprovam: somos preconceituosos. E isso vem do berço: bebês de menos de 2 anos usando a mesma roupa tendem a não brincar com outra criança vestida com cores diferentes, segundo pesquisas americanas. Mas conhecer e admitir essa nossa característica não significa render-se a ela. Pode ser, ao contrário, o primeiro passo para contorná-la, buscando um comportamento muito mais nobre, capaz de trazer benefícios incríveis para os outros e para nós mesmos.

Foi o que aconteceu com o casal Raquel Delavari, de 25 anos, e Airton Justino, de 28. A tendência natural à discriminação foi o instinto que tomou a terapeuta ocupacional quando ela descobriu que o rapaz por quem se apaixonara num show, em São Paulo, onde moram, era motoboy. “Não vou mentir para você: eu de fato pensei que isso poderia ser um problema”, lembra.

Apesar do degrau socio-econômico entre os dois, eles logo engataram namoro, transformando as diferenças em admiração e motivação. Raquel diz que conviver com alguém que sempre teve que batalhar muito por tudo fez com que ela mudasse radicalmente sua maneira de ver a vida. Para Justino, a namorada trouxe o impulso que faltava para ele investir novamente nos estudos. Hoje, enquanto ela faz pós-graduação, ele estuda Ciências Sociais. “Temos que assumir nossos preconceitos, para então poder superá-los”, resume Raquel.



Imigrante em Berlim, Luciana era desdenhada pelo sogro alemão, que acreditava
na "pureza do homem europeu". Um dia, encarou-o. E mostrou quanto eram parecidos
 


Luciana Almeida, de 32 anos, passou por uma provação parecida. Mas, em vez de vencer um preconceito seu, teve de enfrentar e conquistar quem a discriminava. Imigrante em Berlim, na Alemanha, ela conheceu durante o seu expediente de garçonete o nativo Alexander Gebhardt, filho de um rico empresário da industria fonográfica europeia. Apaixonaram-se e começaram a namorar. Durante os três primeiros anos do relacionamento, porém, ela teve de suportar o desdém do sogro, Tino Gebhardt. Para o patriarca, a escolha do filho era uma heresia que maculava a “pureza do homem europeu”.

Luciana aguentou quanto pode. Um dia, resolveu encarar Tino. “Lembro-me exatamente desse dia. Fui até a casa de meu namorado bem na hora do almoço e entrei sem tocar a campainha”, diz. Na sala de jantar, a típica família alemã comia silenciosamente. O pai ficou nitidamente chocado com a audácia da garota. “Temi que ele pudesse machucá-la”, conta Alexander, “mas também sabia que precisávamos resolver essa questão de uma vez por todas.” Luciana aproximou-se do namorado, beijou seu rosto e sussurrou que tudo ficaria bem.

Aos poucos, a mãe do rapaz, que não fazia nenhuma objeção ao relacionamento, começou a puxar conversa para suavizar o clima. Tino continuava calado e nervoso. Quando o papo enveredou para o cinema, Luciana, apaixonada pelo tema, comentou sobre seu filme favorito, 2001 – Uma odisséia no espaço, do diretor Stanley Kubrick. Tino começou a chorar. Levantou-se, foi em direção a Luciana e lhe deu um longo abraço apertado. Kubrick também era seu cineasta predileto. “Aquilo me fez concluir que ela não poderia ser tão diferente de mim. Hoje posso falar com alegria: você não imagina quantas coisas temos em comum”, conta Tino, emocionado ao telefone. Em seguida, ele comenta de forma alegre: “Desculpa o choro. Odeio chorar. Acho que esse é um preconceito que ainda preciso vencer.”

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