educar
Sim, você pode

Marco Aurélio Oton, de 28 anos, dobra a bengala e saca uma câmera da mochila. Sente de onde vêm a brisa, a luz e os sons. Posiciona o visor da máquina na altura do coração, enche os pulmões de ar e só então dispara. “Tudo para a imagem não ficar tremida”, explica. O amigo João Batista da Silva, de 36 anos, o acompanha. Ambos são alunos do projeto Alfabetização Visual, do Senac de São Paulo, que ensina a arte da fotografia a quem não pode enxergar.
A criação do curso, em 2008, foi proposta por um grupo de cegos que frequentava a biblioteca de obras em braile do Senac. Marco, que também costuma ir lá, foi convidado a se matricular. Aceitou. Ele e João entraram na primeira turma e seguem estudando até hoje.
A oficina alterna teoria e prática. Na sala de aula, o professor descreve e analisa o enquadramento, o foco, as formas e a luz das obras de mestres como o francês Henri Cartier-Bresson e o brasileiro Sebastião Salgado. Também explica cada detalhe do funcionamento das máquinas, ensinando como seus recursos podem ser explorados. Na hora de praticar os cliques, os estudantes contam com a ajuda de monitores – alunos do bacharelado de fotografia do Senac.
Após serem registradas, as imagens são discutidas, selecionadas e, de tempos em tempos, expostas. Em três anos de curso, tanto Marco quanto João já fizeram cinco exibições. “E as ampliações não são em formato 20 por 25 (centímetros). São em tamanho gigante!”, conta, com entusiasmo, João. Claras, objetivas, ora com tom de poesia, ora de denúncia, as fotografias mostram flagras urbanos, apontam a falta de acessibilidade das ruas, registram a alegria no samba, no parque, em família. “É preciso que a gente também se aproprie de algumas imagens para que saibam qual a nossa percepção deste mundo. Temos o direito de experimentar, de degustar tudo isso”, acrescenta João.
Ao ver os belos trabalhos da dupla de amigos e observar como operam as câmeras com naturalidade, talento e competência, logo cai por terra uma eventual primeira impressão de que um cego fotografando seja algo descabido. Quem disse que deficientes visuais não podem registrar as próprias imagens?
Tabus como esse não são raros. Infelizmente, convencionamos que determinados conhecimentos e atividades não são adequados a certas pessoas, em razão de seu gênero, idade, renda ou qualquer outra condição. Por mais antiquadas e absurdas que sejam essas ideias, elas ainda impedem muita gente de aprender o que gostaria, de experimentar áreas em que possa se realizar. Pois, para chegar lá, muitas vezes é preciso criar a oportunidade, estar disposto a ser um pioneiro, enfrentar gozações e não capitular ao rótulo de deslocado.
"Antes, infomática era só para jovens antenados. Hoje,
todos usamos computadores. Prova de que, havendo
interesse, adquirimos qualquer tipo de conhecimento"
O manicure
Carlos Henrique Oliveira, de 37 anos, passou por tudo isso. Alto e forte, o pai de família se revezou durante mais de uma década entre as funções de vigilante, guarda-costas e segurança de carro-forte e de eventos. Seu último emprego na área foi na portaria de um centro de beleza especializado em unhas, em São Paulo. “Trabalhava havia apenas um mês ali e perguntei à dona do negócio, sem intenção nenhuma, só por curiosidade, se não existiam homens profissionais naquela técnica”, lembra. Ficou sabendo que os melhores manicures do mundo eram do sexo masculino, mas que no Brasil, por causa do preconceito, não havia nenhum.
Pensando em trocar de profissão, procurando algo mais rentável e seguro, ele se mostrou interessado em aprender. A chefe virou professora e maior incentivadora. Carlos abandonou a portaria e entrou num treinamento intensivo, estudando as técnicas de manicure durante oito horas por dia. Além disso, passou pelas áreas de almoxarifado e vendas do salão, para se habituar aos produtos.
A mudança não foi fácil. Os amigos acharam estranho. O filho, adolescente, no início ficou incomodado. Carlos chegou a ouvir piadinhas na rua, pensou em desistir. Ele sabia que a novidade era chocante. Confessa que, nos tempos em que era segurança, ele mesmo acharia graça se um colega se tornasse manicure. Mas gostou do que estava aprendendo e seguiu em frente. Hoje, é especialista na técnica de alongamento de unhas. Tanto que dá aulas sobre o assunto, não só em São Paulo, mas em outras regiões do país. E vê que seu exemplo está ajudando a derrubar o preconceito: entre os cerca de 100 alunos que Carlos treina ao mês, os homens chegam a representar 20%.
“Homens e mulheres aprendem da mesma forma. Temos mostrado que conseguimos fazer trabalhos tão detalhistas quanto elas. Basta vontade e dedicação”, diz o professor. Maria da Conceição Uvaldo, psicóloga do Serviço de Orientação Profissional da Universidade de São Paulo (USP), concorda. “Capacidade de aprender todos nós temos. O que define se vamos conseguir ou não é o nosso interesse”, afirma.
A especialista cita como exemplo a informática: antes de se popularizar, o mundo digital parecia um tipo de conhecimento restrito a jovens antenados às novidades. “Isso mudou. Algumas pessoas tiveram mais facilidade, outras menos, mas hoje em dia todos nós aprendemos a lidar com os computadores”, diz.
De volta às aulas
“Por que não?” Essa pergunta, que revelou a Marco, João e Carlos que eles poderiam fazer o que antes parecia não permitido, também pipocou na cabeça do engenheiro de produção Pedro Fontana, de 57 anos, num momento-chave da vida.
Após um sólido começo de carreira em Porto Alegre, Pedro não resistiu ao convite para um posto de chefia em São Paulo. Trabalhou ali por mais de 15 anos. Mas então a empresa foi vendida, e ele começou a discordar da nova diretoria. Passou a atuar por conta própria, na área de arquitetura comercial, montando estações de trabalho para grandes redes de lojas. Foi assim por uma década. Mas, então, tudo teve de mudar de novo.
“Minha esposa faleceu. Minha filha única decidiu ir para os Estados Unidos fazer intercâmbio. Eu precisava fazer alguma coisa para não ficar sozinho”, lembra. Foi então que, aos 53 anos, Pedro resgatou a velha ideia de voltar à faculdade. Tentou o curso de design e foi aprovado.
“A escolha seria uma virada, e eu fui com toda a sede ao pote”, revela o recém-formado. A turma era composta de uma garotada entre 17 e 20 anos. Mas Pedro estava tão motivado que não deixou a diferença de idade ser uma barreira para aprender nem para se socializar. “Fui a muitos encontros depois da aula, tomar cerveja e comer batatinha com meus colegas. Não tive dificuldade nenhuma, adorei. Passei a destoar é dos meus antigos amigos”, diz.
Na idade em que Pedro voltou à faculdade, muita gente já está sonhando em se aposentar. Segundo o especialista em psicologia da aprendizagem Lino de Macedo, essa postura rígida pode ser bastante perigosa. “O mundo hoje é muito dinâmico. É preciso flexibilidade para aceitar as mudanças e se transformar junto com elas, em todos os aspectos da vida”, diz. A psicóloga Maria da Conceição acrescenta que uma reorientação da carreira numa idade mais avançada pode se revelar mais acertada que a escolha inicial: “Quando somos mais velhos, nos conhecemos melhor, sabemos dos nossos interesses e no que podemos dar certo”.
Distante, mas possível
Aprender francês na França. Esse era o sonho de André Luiz Santos, de 19 anos, de Brasília. Sempre sobrou vontade e faltou dinheiro. Então, ele foi se virando como pôde para conhecer o idioma. Estimulado pelos pais, um bancário e uma dona de casa, por sete anos estudou num centro de línguas que atende alunos da rede pública do Distrito Federal.
No ano passado, André ficou sabendo de um concurso que premiaria os vencedores com uma viagem para Paris. Foi se informar melhor. Era uma competição de “slam”, um tipo de declamação ritmada de poesia. Algo como o repente brasileiro ou o rap. Com uma lista de dez palavras determinadas pela organização do evento, os participantes deveriam escrever um texto, em francês, e declamá-lo com um fundo musical. André nunca havia feito nada parecido na vida. Mas topou. Concorrendo com outros 30 alunos, ficou em primeiro lugar.
Como prêmio, ganhou passagens e hospedagem para a primeira viagem internacional de sua vida: dez dias na cidade de La Rochelle, no litoral da França, onde acontece um famoso festival de música, e mais cinco em Paris.
Na primeira parada, André dividiu o quarto com um grupo de sérvios com quem mantém contato até hoje. E ficou impressionado com as performances musicais realizadas nas calçadas, para quem quisesse ver. Mas do que ele mais gostou, sem dúvida, foram os dias passados na capital. “Fiquei hospedado em plena universidade de Sorbonne. Fui aos pontos turísticos, como a Torre Eiffel e o museu do Louvre, mas o mais divertido foi experimentar a rotina local: ir ao supermercado, passar a tarde nos jardins”, lembra.
André conta que aprendeu muito ao poder praticar o idioma com os falantes nativos. E também se encheu de confiança. Quando voltou ao Brasil, conseguiu emprego como professor de francês para iniciantes. “Sempre segui o conselho de meus pais para estar preparado para as oportunidades. Foi isso o que eu fiz, me dediquei e aproveitei a chance que tive para realizar meu sonho”, conta.
Sem dinheiro para bancar a viagem, André poderia ter pensado que aprender francês em Paris não era para o bico dele. Pedro, ao se enxergar numa sala repleta de jovens, poderia ter se achado velho demais para uma nova graduação. Carlos poderia ter aceitado que salão de beleza é mesmo só para mulher. E Marco e João poderiam ter acreditado que cego não deve se meter com fotografia. Preferiram desafiar o senso comum. E provaram que muitas vezes ele não passa de uma grande bobagem.


















































