Droga Raia

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editorial

Somos o que compartilhamos

Entendi que pedir ajuda ou trabalhar em grupo não me torna mais fraca. Ao contrário: só amparada tenho força para realizar o que é preciso. Antes, eu achava que corajoso era quem se resolvia por si mesmo.
Texto: Roberta Faria // Foto: Michael Heiss
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Nunca gostei de pedir ajuda. Desde muito pequena, eu fiz sozinha tudo o que pude, fosse a lição de casa, cortar o bife ou me arrumar para o aniversário. Aprendi em algum lugar a palavra “autossuficiência” (vai saber onde) e dizia que era isso que eu queria ser quando crescesse: nunca precisar de ninguém para nada.

Tinha uns 8 anos quando minha mãe me levou a uma psicóloga, preocupada com que isso não fosse coisa de criança. A moça a tranquilizou: era só meu jeito. E continuou mesmo a ser por muito tempo. Detestava os trabalhos em grupo e os esportes coletivos. Se, para felicidade da classe, a professora deixava responder a prova em dupla, eu pedia para fazer sozinha. Eu tinha uma boa turma de amigos – que dura até hoje –, mas preferia mesmo era contar comigo: as pessoas, eu desconfiava, sempre davam muito trabalho ou me deixavam na mão. Metida, eu achava que as coisas saíam melhores (ainda que custasse muito mais) se resolvesse do meu jeito.

Precisei ficar sozinha de verdade pra entender quanto estava enganada. Foi quando minha filha nasceu, e eu me vi mãe solteira e de primeira viagem, mal tendo completado 18 anos, em uma cidade onde não tinha família nem conhecia ninguém. Entre trabalhar e estudar, cuidar de criança e casa, percebi a duras penas que não conseguia mais fazer tudo sozinha. E, por ter resistido tanto tempo, nem mesmo sabia como pedir ajuda.

E aí surgiram elas. Quatro amigas de faculdade, que não só roubaram meu orgulho besta sem me pedir licença, como também mudaram a minha vida – e, para ser sincera, salvaram-me de mim mesma.

A Ana me conheceu ainda grávida e amarrou meus sapatos quando minha barriga estava tão grande que eu já não enxergava os pés. Enquanto a turma de calouros varava a noite em festas, ela se mudou para minha casa para me acompanhar na aventura de cuidar de um bebê. Nas festas da escolinha e reuniões de pais, era meu par: amigos são família também, ela dizia. 

A Camila veio depois. Moramos juntas por anos, na época da faculdade e depois, quando mudamos para São Paulo. Dividimos o teto, a vida e tudo o mais: o dinheiro, os trabalhos da faculdade, as roupas, os segredos do coração, os problemas mais escabrosos e até a educação da minha filha. Nossos assuntos nunca tinham fim.

Já a Carol foi a melhor babá do mundo para que eu pudesse assistir às aulas da noite. Ela saía do outro lado da cidade para dar carona nos dias de chuva, me deu seu lugar numa bolsa da faculdade e nos levou para sua casa, garantindo almoços de domingo incríveis, quando não tínhamos grana nem para um miojo.

Quando as três se formaram e mudaram de cidade – eu me atrasei no curso por causa da licença-maternidade – me vi sozinha de novo. Ainda bem, por pouco tempo: conheci a Amanda, que fazia as entrevistas na rua para que eu pudesse escrever as reportagens das aulas, e ficava ao meu lado no computador por toda a madrugada (mesmo que fosse dormindo) só para dar apoio moral.

Elas fizeram mais por mim do que eu jamais poderei retribuir. E, porque estávamos juntas, fiz mais do que jamais teria conseguido sozinha.

Por causa delas, entendi que pedir ajuda ou trabalhar em grupo não me torna mais fraca. Ao contrário: só amparada tenho força (e mãos, ideias, apoio, confiança) para realizar o que é preciso. Antes, eu achava que corajoso era quem se resolvia por si mesmo. Que grande bobagem: coragem tem quem dá a mão para pular junto.

Essa descoberta tem moldado meu mundo desde então. É por essas e outras uniões que construí tudo o que tenho e que me tornei quem sou. E, porque recebi tanta generosidade, passei a ser mais solidária. Às vezes me dizem, por causa da Sorria, coisas como “que bom que existe gente como você no mundo”. Na verdade, não sou nada sozinha. São as companhias que me tornam capaz – e despertam o que tenho de melhor.

É verdade que ainda hoje por vezes tenho dificuldade em pedir ajuda. Por sorte, estou cercada de pessoas solidárias e mais maduras do que eu, que me lembram de quando em quando que compartilhar torna a vida mais leve (e muito mais bonita). E como é bom se perceber parte de algo maior que a gente... Espero que as histórias desta edição inspirem isso em você também.

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Comentários:
Não há como não refletir despois dessa leitura! Muito legal, Roberta! Acabei de ver a foto de cada um da minha trupe de amigos solidários!
@monteirohelio
Lágrimas de emoção cairam de meus olhos as 8:05 da manhã chuvosa,no meu primeiro dia de férias, ao ler essa estoria. Obrigada por me alertar e me emocionar.
A uns meses atrás alguém me disse a mesma coisa...peça ajuda,não se afogue, levante a mão e peça socorro....

Mas como é dificil às vezes..... Graças ao bom Deus, que existem anjos alertas que nos socorrem mesmo quando teimamos em nos manter em silêncio.

Beijos e muita luz pra você.
Erika Santos
AMO AMO AMO ! Verdadeiramente amo cada palavra que você escreve. Dizem que o que "pega" a gente pra ler qualquer coisa é a introdução, e com isso, acredito que a su única página me motiva muito. Sou muito fã do seu trabalho. Ah! A edição que mais gostei foi sobre PERSISTÊNCIA ... amei sua história ! Um grande beijo e siga em frente sempre !
=)
Andr?ia Vital
Roberta! Há muito tempo que não leio algo tão interessante quanto seus textos. Um dos que mais gostei foi o "EU DIGO SIM". Meus parabéns! Feliz 2012 , daniella
daniella amaral
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