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Sucesso pra você

A jornalista Eliane Brum, de 43 anos, é, sem dúvida, uma pessoa de sucesso. Em 21 anos de carreira, conquistou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais. Pelos colegas de profissão, é considerada uma das melhores repórteres brasileiras. Para os estudantes de jornalismo, ela é uma senhora inspiração. Em 2000, quando foi contratada por uma das principais revistas do país, a Época, em São Paulo, atingiu um status reservado a pouquíssimos profissionais de sua área: poderia escrever sobre os temas que escolhesse e se dedicar durante várias semanas à apuração de uma mesma reportagem.
Apesar do futuro tão promissor, nem todo mundo entendeu quando Eliane decidiu trocar Porto Alegre, onde morava, pela maior cidade do país. Após anos cavando seu próprio espaço, impondo sua maneira de fazer reportagens, ela vivia seu melhor momento profissional. Havia acabado de ganhar o mais importante prêmio de jornalismo do país, o Esso, adorava seu emprego, a cidade, tinha muitos amigos e apartamento próprio.
O problema era que tanto conforto havia se tornado desconfortável. “Saí para que a vida pudesse ser diferente, para ter outras possibilidades. O imprevisto é uma das melhores coisas da vida”, explica.
Dez anos se passaram. Eliane se firmou na elite do jornalismo brasileiro. Em um texto recente, ela avalia o período: “Fiz matérias que mudaram minha vida – e, espero, algumas outras –, perambulei por Amazônias desconcertantes, viajei pelas muitas periferias de São Paulo, testemunhei pequenos milagres”. Tudo que poderia querer. Mas, em março deste ano, ela pediu demissão.
Dessa vez, o motivo não foi uma proposta irrecusável de uma empresa ainda mais prestigiada. Ela não terá um salário maior nem assumirá uma posição hierarquicamente superior. Bem pelo contrário: “Vou perder dinheiro, segurança, carteira assinada, benefícios, férias remuneradas, décimo terceiro”, enumera Eliane, no texto de sua coluna, no site da Época, em que anunciou publicamente a demissão. Sua ideia é trabalhar por onta própria, dedicar-se a novos projetos, realizar documentários, escrever literatura. “É a minha busca. E, se der errado, vai ser por causa das minhas escolhas, então está tudo certo.”
Oportunidade e mérito
Por que alguém bem-sucedido larga o emprego e decide recomeçar? Antes de responder, é preciso dar um passo atrás e pensar: afinal, o que é o sucesso?
“Em geral, vemos o sucesso pelo ponto de vista material”, diz o psiquiatra Frederico Porto, da Fundação Getulio Vargas. Usualmente, quando falamos que alguém é bem-sucedido, queremos dizer que tem muito dinheiro ou é reconhecido em sua profissão. Seja isso justo ou não, são essas conquistas que conferem uma condição especial às pessoas em nossa sociedade. Por isso, são essas metas que, instintivamente, tendemos a perseguir. “Somos ansiosos em relação ao lugar que ocupamos no mundo. Ele determinará quanta atenção receberemos e, por consequência, se gostaremos de nós mesmos”, defende o filósofo suíço Alain de Botton, autor de Desejo de Status.
O status seria uma questão de merecimento. Somos levados a acreditar que, com vontade e persistência, qualquer um pode chegar lá. Mas nem sempre foi assim. Na maior parte da história, aliás, predominou a visão de que a desigualdade era normal e justa. Uns nasciam para a riqueza; outros, para a miséria. Essa era a vontade de Deus e ponto-final. Nem os pobres, muito menos os ricos, questionavam tal determinação.
O sucesso era visto como determinação divina. Depois, passou a ser resultado
de nossos méritos. Mas nada garante que os melhores realmente chegarão ao topo
Essa forma de ver o mundo mudou a partir do século XVIII, com as revoluções Americana, Francesa e Industrial. O sucesso passou a depender das realizações de cada um. Entrava em cena a meritocracia. Segundo ela, os bem-sucedidos assim o são porque fizeram por merecer. Para os demais, o raciocínio é o mesmo: estão no fundo do poço por culpa própria. Em vez de “desafortunado”, como seria visto na Antiguidade ou na Idade Média, o pobre passou a ser “perdedor”. E eis aí a raiz de uma das maiores angústias de nosso tempo: a luta para estar do lado dos “vencedores”.
Na verdade, porém, não existe meritocracia perfeita. “A ideia de que todos os bons chegam ao topo e todos os ruins ficam embaixo é utópica. Há muitos fatores decisivos que fogem ao nosso controle”, diz Alain. O pensador americano Malcolm Gladwell concorda. Em seu livro Outliers – Fora de Série, ele investiga como o aleatório é crucial para definir quem terá ou não sucesso.
Um exemplo são os jogadores de hóquei do Canadá. Quase metade dos atletas da elite do país faz aniversário entre janeiro e março. Coincidência? Não. A causa é o fato de a inscrição para a Liga Nacional ser feita em 1º de janeiro, entre crianças com 9 ou 10 anos. Nessa idade, alguns meses a mais fazem muita diferença na composição física. Logo, quem nasce no início do ano tem significativa vantagem. São eles os escolhidos, os que recebem o melhor treinamento e que, de fato, se destacam. Quer dizer que os craques canadenses não têm nenhum mérito? Claro que têm. Afinal, nem todos os nascidos em janeiro se tornam profissionais. Mas, apenas por terem nascido em meses menos convenientes, alguns garotos com potencial jamais tiveram chance. “Os vitoriosos são aqueles que receberam oportunidades e tiveram força e presença de espírito para agarrá-las”, diz Gladwell.

Sucesso é... aprender com os fracassos e não
desistir do que amamos fazer, como Carlos
Fracassos bem-sucedidos
Resultados positivos seriam, então, um mix entre talento, persistência e oportunidade. Mas frustrações ao longo do caminho também ajudam. É o que mostra a história de Carlos Alberto Sobral, de 59 anos, de Nova Iguaçu (RJ). Ele é o dono e principal designer da fábrica de bijuterias que leva seu sobrenome. A Sobral tem lojas na França, nos Estados Unidos e na Alemanha. Já ganhou cinco vezes o prêmio de a melhor coleção da renomada feira Bijorhca, em Paris. E, em 2008, Carlos assinou a coleção de joias de um dos principais estilistas do mundo, o alemão Karl Lagerfeld. Mesmo assim, ele diz: “Meu sucesso é composto de fracassos”.
Carlos começou a carreira nos anos 1970, vivendo o sonho hippie. Era um dos vários artesãos que faziam sandálias com sola de pneu, bolsas de couro e bijuterias de metal e as vendiam nas portas de restaurantes e em feiras. Um dia, ao conversar com colegas argentinos, conheceu o material que mudaria sua vida: a resina de poliéster. “Fiquei fascinado por seu colorido”, conta. Carlos foi em várias lojas até encontrar o material. Em 1978, abriu a própria empresa, para produzir pulseiras. Tornou-se o maior fabricante do país. Mas, assim como a moda veio, foi embora: no fim do ano, ele estava com milhares de peças encalhadas.
Aí pensou: “Por que não vender o excedente na Europa?”. E lá foi ele. “Eu era ingênuo. Não sabia que a Europa é que dita a moda. Se aqui não queriam mais as pulseiras, lá muito menos!”, conta. Eis a primeira vez em que ele usou o fracasso como lição. Poderia ter voltado com a cabeça baixa, mas aproveitou a viagem para entender como o mercado do Velho Mundo funcionava e fazer o maior número possível de contatos. No ano seguinte, voltou, mais preparado, e conseguiu vender muitas peças.
O negócio cresceu, mas Sobral ainda teria de enfrentar várias crises. Em 1993, foi a invasão chinesa: os produtos baratos vindos do outro lado do mundo tornavam a competição impossível. Mas foi justamente aí que surgiu a marca própria de Carlos. Assinar seu produto, em vez de vendê-lo para atacadistas, como fazia até então, foi a forma que ele arranjou para valorizar suas joias e superar a concorrência oriental.
Nos anos seguintes, outros imprevistos ameaçaram Sobral. Em um assalto, foram perdidos 70 mil reais em mercadorias. Em 2001, o empresário investiu pesado para abrir uma loja na França e participar da feira Bijorhca. No dia seguinte ao fim do evento, o ataque às Torres Gêmeas, nos Estados Unidos, congelou o mercado.
Mas Carlos nunca desistiu. “É a minha paixão. Não tenho escolha”, diz. Jogador destacado na aventura capitalista, ele mantém boa dose do romantismo hippie com que começou a carreira. “John Lennon disse que o sonho acabou. Mas, para mim, ele continua.”
Presente, passado, futuro
Uma das grandes descobertas de Carlos, nos altos e baixos da vida, foi que, para manter o sucesso, é preciso empenho diário naquilo que fazemos bem. O especialista em marketing Richard St. John, autor do livro 8 to Be Great: The 8-Traits that Lead to Great Success (“8 para Ser Grande: os 8 Talentos que Levam a Grandes Sucessos”) acredita que muitas pessoas atingem o sucesso e depois o perdem justamente porque deixam de fazer aquilo em que são boas. Assim como acontece em alguns casamentos de longa data, as pessoas se acomodam. “Nós chegamos lá, pensamos que já conseguimos e, então, nos recolhemos em nossas zonas de conforto”, afirma.
Saber planejar o futuro é essencial. É assim que desistimos do cineminha para
estudar para uma prova. Mas o risco é esquecer de aproveitar o que acontece já
O esforço diário, muitas vezes, significa deixar de lado algumas coisas de que gostamos e dar atenção ao que requer maior prioridade no momento. O psicólogo americano Phillip Zimbardo, autor do livro The Time Paradox (O Paradoxo do Tempo), acredita que a melhor maneira de fazer isso é prestar atenção na forma como encaramos o tempo. Quem é focado no presente só leva em consideração as recompensas imediatas de suas ações. Já quem se prende mais ao passado se baseia em situações anteriores que viveu para tomar decisões. E quem é orientado para o futuro consegue analisar custos e benefícios no longo prazo.
Saber antecipar o futuro é essencial. É assim que sacrificamos um cineminha para poder estudar para uma prova, por exemplo. Mas olhar só para o que está por vir tem um risco: esquecer de aproveitar o presente. “Pessoas orientadas apenas para o futuro sacrificam tempo para a família, amigos, diversão, hobbies e até sono”, diz Phillip. A perspectiva de tempo ideal mistura um pouco de tudo: saber tirar lições de ontem, aproveitar o hoje e construir o amanhã.

Sucesso é... saber o balanço certo entre
nossas prioridades, como Alfredo
Escolhas necessárias
Alfredo Assumpção, de 59 anos, fundador da Fesa, empresa líder no segmento de caça-talentos para o mercado financeiro no Brasil, hoje pode dizer que encontrou o equilíbrio entre o que era, o que é e o que quer ser. Mas, para chegar nesse estágio, teve de passar por momentos em que a balança deliberadamente pendeu para um lado ou para o outro.
Nascido em Anta (RJ), Alfredo passou a adolescência jogando bola e tocando com sua banda, Los Ringos, pelos bailes da região. A vida era só diversão. Bom, na verdade, havia um plano: entrar na faculdade para poder participar do Festival Universitário da Canção. O curso não importava. Alfredo acabou entrando em Ciências Atuariais, que tinha 50 vagas e apenas 47 concorrentes.
A canção inscrita, porém, não foi nem para as eliminatórias. Hora de abraçar um plano B: virar executivo. “As coisas mudaram quando conheci minha mulher, Nádia”, conta. Por amor, largou a boemia, passou a se dedicar aos estudos e a planejar a carreira. Decidiu se tornar um grande profissional na área de recursos humanos. E assim fez, passando por empresas como Kibon, Reynolds Tobacco e pelo banco Chase Manhattan.
Nessa época, trabalhava de dia, fazia cursos à noite e levava trabalhos como free lancer para casa nos fins de semana. Nádia cuidava do lar e das filhas. Não havia tempo nem para a lua de mel, adiada por longos dez anos. “Mas não importava. Eu estava feliz”, diz Alfredo. Sua opção, naquele momento, era sacrificar o presente em prol do futuro. “Assim, pude proporcionar coisas à minha família que não conseguiria de outro jeito. Foi a minha escolha”, diz.
Mas, em 1995, Alfredo entrou em crise. Depois de sair do Chase, tinha montado dois negócios: a Fesa, que engatinhava, e uma videolocadora. Esta última não deu certo. Ao estresse somou-se uma crise de angina. Era preciso mudar. Aí o empresário redistribuiu as prioridades em sua vida. Redescobriu seu lado espiritual, voltou a fazer exercícios físicos, tirou do armário o contrabaixo do tempo dos Ringos, resolveu investir mais na sua veia de escritor. Coisas que ele sempre gostou de fazer, que por muito tempo foram deixadas de lado para que construísse seu sonho, mas que, nessa fase da vida, puderam enfim ser retomadas.
Hoje, além de ser um dos 100 caça-talentos mais influentes do mundo, segundo a prestigiada revista americana Business Week, Alfredo tem oito livros publicados, sendo quatro de poesia e quatro sobre negócios, já lançou CDs com sua banda e se considera mais feliz do que nunca. Seu livro mais recente, Felicidade – O Deus Nosso de Cada Dia, é um retrato dessa transformação. Ao dividir seu tempo entre tudo o que considera importante, ele multiplicou sua satisfação.
A meta de cada um
Eliane Brum está sentada no sofá de uma simpática confeitaria. É segunda-feira, em pleno horário comercial. “Gosto de vir aqui para ver o pôr do sol”, diz. Quando saiu da revista Época, a jornalista queria ter mais tempo para outros projetos. Mas também queria condições para ir ao cinema de tarde, ficar à toa, viajar. “Quero me aproximar cada vez mais de meu ideal de vida, ser cada vez mais coerente comigo mesma”, diz. A demissão não foi intempestiva. Ela se preparou durante meses, e só pôs a ideia em prática quando se viu minimamente preparada. O apartamento está quitado, a filha de 27 anos já não precisa dela. “Construí minha vida de forma que posso viver com muito pouco, se precisar.” Ao tomar a decisão, Eliane não olhou para o lado: “Eu sou a minha medida”.
Aqui está uma chave essencial para entender o sucesso: não existe um modelo que sirva para todos. A definição deve ser nossa e de mais ninguém. Se os pais, os amigos ou a mídia insistem em padrões preestabelecidos, é preciso certificar-se de que eles se aplicam à gente. Se não, a saída é buscar outros caminhos. “Ao usar a régua da realização pessoal para medir nosso sucesso, pensamos não só no dinheiro, mas em questões como: ‘Qual é o meu legado? Quais são os meus valores?’”, diz o psiquiatra Frederico Porto. O sucesso é aquilo que a gente acredita que seja. É preciso olhar para dentro de si. E, então, depois de ter certeza de que a meta é realmente nossa, investir o que for preciso para chegar lá. Sem se esquecer, claro, de ver e viver a paisagem no meio do caminho.

















































