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Superavós

Quando eu era pequena, minha avó me mimava tanto que teve uma época em que segredei às colegas da escola, debaixo do banco do pátio: “Na verdade, a minha avó é a minha mãe, e a minha mãe é uma feiticeira que fez uma mágica para trocar de lugar com ela”. Felizmente, era só imaginação – porque a minha avó era tão maravilhosa em me paparicar que, se tivesse me criado, até hoje eu estaria querendo que alguém cortasse o meu bife e me desse mamão na boca.
A vó Elza fazia isso por mim, entre muitas outras coisas extraordinárias – como ficar na fila do bate-bate por horas, entregando um novo ingresso ao moço do parque cada vez que a sirene anunciava o fim da brincadeira, para que eu não precisasse descer nunca do carrinho. Com ela, aprendi a amar livros e alho, a ter letra bonita, a cozinhar um simples feijão como quem faz um banquete, a usar vestidos e perfume.
Já o vô Luiz, marido dela, era o nosso Indiana Jones. Trabalhava num museu fantástico, havia viajado o mundo, morado com índios, conhecia história de todas as coisas e sua biblioteca era cheia de mistérios. Todo sério na sua careca brilhante, de terno e colete, cachimbo e bengala, era um lorde – até que, de repente, soltava uma piada suja engraçadíssima. Adorávamos assisti-lo à mesa, comendo com um prazer inenarrável, ou sendo o esportista que corria e nadava na praia.
Do outro lado da família, as coisas eram mais simples, mas não menos divertidas. Com a vó Dalila, aprendi ditados como “Com o andar da carruagem, as morangas se ajeitam”, para apaziguar preocupações, ou “Dou-lhe uma enxadada no pé!”, em momentos de ira. (A mais recente foi um conselho para a moça ciumenta do marido, que olhava para outras na rua. Disse a vó: “Deixe que ele esquente a água, é tu quem vai tomar o chimarrão”.) Friorenta como só, ela me ensinou a arte de enrolar bebês em cueiros pra curar choros. E ainda fazia a melhor guloseima do mundo: o doce de leite no fogão à lenha, cortado em quadradinhos que se desmanchavam na boca.
Do vô Adão, seu ex-marido, guardo meu maior exemplo de alegria de viver: aos 84 anos, ele está apaixonado outra vez. Mesmo com um pé estragado e a aposentadoria de salário mínimo, dança que é uma beleza nos bailes e não perde uma desculpa para viajar: é visitar parente na praia, excursão da terceira idade para pagar promessa, ir até outro estado só para consertar a pia entupida da neta. Embora terminantemente proibido, não perde uma jogatina com cachacinha. É vê-lo todo pimpão com a sua boina e suas bermudas de tergal para saber: esta aí alguém descaradamente feliz.
Tive muita sorte. Meus avós já tinham os cabelos brancos quando nasci, enquanto muitos amigos da minha idade não chegaram a conhecer os seus. E é essa, arrisco dizer, a melhor das coisas dos tempos que vivemos: o aumento da expectativa de vida, que vai permitir à minha filha e às crianças das próximas gerações conviver por muito mais tempo com os pais de seus pais. E eles estão melhores ainda: além de mimar e ensinar, agora têm energia para pular junto na cama elástica com os netos. Espero que essas crianças possam ser felizes como eu fui – e por muito mais tempo do que tive.
VEJA MAIS
• O fotógrafo francês Sacha Goldberger também é apaixonado por sua avó, Frederika, de 90 anos. É ela que estrela esse ensaio, chamado Super-Mamika. Veja mais aqui: http://verd.in/06gt
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