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Tá na mesa, pessoal!

A mãe chama uma, duas, três vezes – até ter de recorrer a uma bronca para juntar a turma à mesa. Se todos soubessem o tanto de benefícios que uma simples refeição em família pode trazer, estariam lá antes do primeiro anúncio...
Texto: Nina Weingrill // Ilustração: Romolo
Tá na mesa, pessoal!
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O cheiro é de alho refogado para o arroz, feijão carregado no louro, bife tostadinho, tomate recém-cortado. Invade a casa inteira, enquanto as crianças chegam, fazendo bagunça na volta da escola. “Lavem as mãos e já para a mesa!”, grita a mãe. O pai xereta a panela e senta-se, ansioso. Logo todos se reúnem e, entre travessas, garrafas e guardanapos que passam de lado a lado, põem as energias e a conversa em dia.

A cena é clássica. Mas está ameaçada de extinção. Segundo um recente estudo internacional, coordenado pela marca Knorr, mais de 50% das pessoas acreditam que a vida moderna tem dificultado as refeições em família. Os serões e os horários conflitantes são apontados como os maiores inimigos do ritual.

Com essa mudança de hábito, perde-se muito mais do que um antigo costume. Refeições em família previnem o estresse, a insônia, a obesidade e a depressão. Ajudam a evitar o álcool em excesso e o cigarro. Estimulam o desempenho escolar das crianças. Fazem as pessoas se sentirem mais amadas, alegres e confiantes. Todos esses benefícios, revelados por pesquisas recentes, confirmam um saber quase instintivo, que vêm do início da civilização. “Comer junto é a origem da socialização. Nos ajuda a organizar nossa identidade e a hierarquia social”, afirma Henrique Carneiro, historiador e autor de Comida e Sociedade – Uma História da Alimentação.

Todos juntos, sempre

A advogada Maria Inês Kibrit, de 52 anos, de São Paulo, sabe bem disso. “Quando eu era pequena, todas as refeições eram feitas em casa, com todos juntos. Aos sábados, os almoços duravam da 1 às 6 da tarde. Era uma delícia!”, lembra. Quando formou a própria família, Maria Inês bateu o pé para manter o hábito.

Nem sempre foi fácil. Quando as filhas chegaram à adolescência, passaram a achar chata a obrigação de comer em casa. “Aí eu peguei mais leve, porque o encontro deve ser prazeroso, não um dever”, conta Maria Inês. O jogo de cintura da mãe também foi importante quando as filhas entraram na faculdade. “Passamos a jantar mais tarde, para conciliar as agendas”, explica.

Para 84% dos brasileiros, comer junto tem papel fundamental na união da família, segundo a pesquisa da Knorr. Com todos sentados frente a frente, a conversa flui. Resolvem-se problemas do cotidiano, trocam-se conselhos e opiniões. O clima de abertura também torna o momento ideal para importantes anúncios. “Foi num almoço de domingo que minha filha mais velha contou que ia se casar”, lembra Maria Inês. Ela acredita que conseguiu passar adiante o valor da refeição em família. E espera que, com a expansão do clã, mantenha-se a tradição. 

Aprender e ensinar

O crescimento da família pode ser uma ótima oportunidade para disciplinar os hábitos alimentares. Fã de fast-food, Flávia Cassita, de 30 anos, ouviu um rígido alerta do médico assim que engravidou: era preciso mudar. Pensando no filho, a dona de casa, de Araçatuba (SP), aprendeu a gostar de comida saudável, descobrindo maneiras saborosas de cozinhar vegetais. “Desde que o Antônio nasceu, há um ano, criamos o costume de comer todos juntos em casa. Quero ensinar para ele o que faz bem. E está dando certo. Ele adora feijão, carne, salada e suco”, diz.

“As crianças são grandes imitadores. Comer com elas é uma grande oportunidade de ensinar hábitos saudáveis”, chancela Marle Alvarenga, coordenadora do Grupo de Estudos em Nutrição e Transtornos Alimentares da USP.

Mas esse é apenas um dos benefícios para os filhos. Pesquisas feitas por universidades americanas, como Columbia e Harvard, mostram que adolescentes que comem pelo menos cinco vezes por semana com a família têm 40% mais chances de tirar notas A ou B, usam menos drogas e têm menos probabilidade de sofrer de depressão, bulimia e anorexia. Para os pequenos, 30 minutos de conversa diária com os pais – seja à mesa ou não – já são suficientes para incrementar de forma significativa o vocabulário. O bate-papo em casa também ajuda a tranquilizar os ânimos, combatendo o estresse e melhorando o sono.

Em casa, ou não

E quando a família não mora junto? Nelson Caldini Junior, de 52 anos, pai de duas filhas, de diferentes casamentos, levou os encontros para fora de casa. Pelo menos uma vez por mês, os três saem para jantar. “Sempre achei importante comer com a família. Fiz muito isso com as duas, em casa, quando eram mais novas”, diz o professor, de São Paulo.

Os especialistas defendem que, para uma refeição em família, não há lugar como o lar. Mas o principal não é o ambiente físico, e, sim, a conexão entre os membros. “O ideal é que se acostume a comer em casa primeiro, para que as pessoas se sintam à vontade para conversar. Depois, você pode ir a um restaurante sem se dispersar pelas interferências externas”, afirma Marle Alvarenga.

Em ocasiões especiais, os Caldini retornam ao método tradicional. O marido da ex-mulher de Nelson costuma convidar as duas famílias para um grande e longo almoço, em que todos se reúnem em torno da mesma mesa. “Com comida caseira da melhor qualidade!”, ressalta Nelson. Cheirinho de alho refogado, feijão, bife, vegetais frescos, e toda a alegria de um ritual que nunca vai passar da validade.

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