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Templo do Torcedor

Texto: Dilson Branco // Foto: Nidin Sanches / Nitro
Templo do Torcedor
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Não sou fanático. Em 27 anos, fui menos de dez vezes a um estádio de futebol. Mas tenho uma boa desculpa para isso: nunca morei na cidade do meu clube. Nasci no interior, escolhi um time da capital. Aos 18, eu me mudei de estado. Hoje, para acompanhar uma partida cara a cara com os jogadores, ou espero que eles venham enfrentar um clube da cidade onde moro ou encaro uma viagem de 1.100 quilômetros. Para essa segunda opção, é preciso um bom motivo. Uma final de Libertadores da América, o mais importante torneio interclubes do continente, é pra lá de suficiente. Foi isso que aconteceu alguns anos atrás.

Garanti a passagem com certa antecedência, mas não tinha ingresso. Comprar na hora seria praticamente impossível, todos diziam. E foi a dez minutos do início da partida que cheguei ao estádio. Consegui um bilhete pelo exato valor que tinha em dinheiro, e enfim entrei na arena. Torcer é se autoenganar, acreditar que nosso esforço influencia o resultado do jogo. E eu estava certo de que fazia minha parte. De repente, quatro quero-queros sobrevoaram o gramado, causando uma surpreendente comoção coletiva. Detalhe: meu time precisava fazer quatro gols para ser campeão. “Um quero-quero para cada gol! É um sinal! Olha aqui meu braço, estou arrepiado” – me gritou, olho no olho, o senhor que estava ao meu lado. Se nos encontrássemos na rua, passaríamos reto um pelo outro. Ali, éramos velhos conhecidos enxergando mensagens divinas em aves. Coisas que só acontecem em estádio,  o templo do sofrimento mais divertido que o homem inventou: o ato de torcer. Falando nisso, o resultado aquele dia foi um desastre.  Mas não tenho a menor dúvida de que valeu a pena. Se perder não fosse tão triste, ganhar não teria a menor graça.

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