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Todos no mesmo barco

Somos todos distintos. E, ao mesmo tempo, iguais. Podemos nos deter às diferenças, criar conflitos, tentar viver só. Ou destacar o que nos une. E perceber que só assim somos capazes das mais grandiosas realizações
Texto: Dilson Branco, com reportagem de George Ferreira e Larissa Soriano // Ilustração: Gunther Ishiyama // Fotos: Daniela Toviansky e Fernando Gardinali
Todos no mesmo barco
União é... tomar como seu um problema alheio, como Ellen, Luiz e Omar, voluntários em São Luiz do Paraitinga
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Ellen Vargas havia acabado de chegar em casa, em São Paulo, após uma viagem de fim de ano. Era dia 7 de janeiro. A assistente de marketing, de 28 anos, ainda teria algumas semanas de férias, que poderia aproveitar de mil formas relaxantes e divertidas. Mas naquela hora o que ela queria era cama. Antes de dormir, só uma olhadinha nos e-mails. Lá estava uma convocação urgente da Cruz Vermelha, para trabalhar em São Luiz do Paraitinga (SP), cidade que uma semana antes havia sido devastada por uma enchente. Ela trocou a roupa suja da bagagem por uma leva nova e, no outro dia de manhã, caiu na estrada de novo.

Desde 2008, Ellen esperava por uma oportunidade como essa. Naquele ano, fortes chuvas atingiram Santa Catarina, desalojando milhares de pessoas e matando mais de uma centena. As imagens na TV a deixaram atormentada. Ao assistir a uma entrevista com um representante da Cruz Vermelha, recrutando voluntários, ela sentiu que deveria fazer alguma coisa. Inscreveu-se. Naquela ocasião, atuou em São Paulo, fazendo a triagem de roupas e alimentos doados aos catarinenses. Nos meses seguintes, seguiu prestando outros serviços na Cruz Vermelha, como trabalhos preventivos de primeiros-socorros em comunidades carentes. Sua grande vontade, porém, era poder ajudar diretamente as vítimas de catástrofes, in loco. Mas, devido aos compromissos com sua profissão, nunca havia tempo. Agora, estando de férias, finalmente Ellen poderia ser útil do jeito que sempre quis.

Logo nos primeiros dias de 2010, o rio que corta São Luiz do Paraitinga subiu 15 metros, por causa das fortes chuvas. Dos 11 mil habitantes da cidade, 9 mil tiveram de deixar suas casas. Houve uma morte, por desabamento. Famoso por seus prédios históricos, o município viu 80% dos imóveis tombados ser afetados. Vários foram destruídos, como a igreja matriz, do século 19.

Quando chegou à cidade, Ellen notou que o cenário era ainda pior do que o visto pela TV. A água já tinha baixado, mas havia muita lama e lixo pelas ruas. A canalização do esgoto fora destruída, trazendo os dejetos para a superfície. Havia também animais mortos, tornando o cheiro insuportável. Com praticamente todos os pertences destruídos, as famílias tentavam limpar suas casas e contabilizar os prejuízos.

Ellen percebeu quanto sua ajuda era necessária. Mas notou que, sozinha, não poderia fazer muita coisa. Seria o trabalho conjunto com as dezenas de outros voluntários que conseguiria de fato remediar a situação. Gente como o empresário Luiz Carlos Begliomini Júnior, de 30 anos, e o estudante de nutrição Omar Mendes, de 26, ambos também de São Paulo. Os três, que acabaram se tornando amigos, nunca haviam se encontrado. Agora, longe de casa, estavam unidos pela vontade de ajudar outros milhares de pessoas, os quais também nunca tinham visto.

Os voluntários foram divididos em grupos, com funções específicas. Ellen e Luiz, por exemplo, estavam organizando as doações, separando alimentos de roupas, checando as datas de validade, conferindo se as vestimentas estavam em condições de ser doadas.

Já Omar foi encaminhado para o hospital, onde ficou responsável por receber os pacientes e encaminhá-los aos médicos. As crianças sofriam principalmente de diarreia, vômito, febre e infecções. Os adultos, abalados emocionalmente, muitas vezes precisavam mesmo era de um ouvido atento. “Uma hora chegou uma mulher que não parava de chorar. Sentei-me ao lado dela e comecei a conversar”, conta Omar. A moradora disse que tinha perdido tudo, e que o único dinheiro que havia sobrado, reservado para pagar uma dívida, fora roubado de sua casa. Atormentada, ela havia acusado um vizinho, sem provas. “Falei para ela esfriar a cabeça e rever a atitude. Dias depois, ela veio me dizer que havia encontrado o dinheiro e que fora perdoada pelo vizinho”, lembra Omar.

Além da força dos braços, Luiz também sentiu a satisfação de ceder sua atenção às vítimas. Andando pela cidade devastada, ele encontrou um homem de 75 anos sentado sobre as
ruínas de sua casa. “Ele me contou que morava na cidade desde que havia nascido. De repente, achou entre os escombros um álbum de fotografias. Apontando as imagens, ele me apresentou seus filhos e netos. E, cheio de otimismo, disse que iria reconstruir tudo o que perdera”, conta Luiz.

O empresário ficou três dias na cidade. Ellen e Omar, 15. Nas semanas seguintes, acompanharam a recuperação pelo noticiário. As doações foram tantas que passaram a ser encaminhadas a municípios vizinhos. No fim de março, 80% do comércio já estava reaberto. Na Páscoa, a cidade organizou seus ritos tradicionais, como a encenação da Paixão de Cristo, com 150 figurantes. Aos poucos, as fachadas coloridas devolvem alegria ao centro histórico, e a vida vai voltando ao normal.

Nascido para ser bom

O reerguimento do município não deixa dúvidas de como o trabalho coletivo foi importante. Mas, na hora de explicar o que leva alguém a sair do conforto de sua casa e se unir a estranhos num cenário de destruição para ajudar desconhecidos, Ellen, Luiz e Omar não sabem direito que palavras usar.

Talvez porque se trate do mais puro instinto. “Desde os 12 meses de idade, bebês apontam para objetos supostamente perdidos por outros. Aos 18 meses, ao ver um adulto sem parentesco, cujas mãos estão ocupadas e que precisa de ajuda para abrir uma porta ou apanhar algo do chão, eles imediatamente ajudarão”, escreve o psicólogo americano Michael Tomasello no livro Why We Cooperate (Por que Cooperamos, inédito em português). O fato de esse tipo de comportamento aparecer tão cedo, antes de os pais ensinarem às crianças as normas básicas de educação, e por ser verificado em diferentes culturas, com variadas regras sociais e formas de transmiti-las, faz crer que a solidariedade seja uma característica inata.

É essa capacidade de ser bom que, por volta dos 3 anos, vai nos unindo em grupos. Nessa idade, já somos mais seletivos em nossas relações. Nos associamos mais facilmente a quem é generoso com a gente. Aí surge o senso das normas sociais. Se um coleguinha se recusa a obedecer às regras de uma brincadeira, atrapalhando a diversão, nos opomos. Michael defende a ideia de que as crianças aprendem as normas porque querem fazer parte do grupo. E não só as seguem como fazem questão que os demais as adotem, a fim de que o esforço coletivo seja justo e bom para todos.

 

Bebês são espontaneamente cooperativos. A solidariedade e o senso de grupo
nascem com a gente, mas podem ser estimulados pela educação

 

Mesmo sendo inato, o senso de cooperação depende de estímulos para se desenvolver. Por isso, os pais têm papel importante. Michael acredita que é preciso conversar com as crianças e demonstrar a elas como suas ações afetam os outros. Se bater em alguém, vai machucar. Se não quiser compartilhar a bola, vai acabar brincando sozinho. Se todos se divertirem com uma brincadeira, ela será muito mais prazerosa.

Os benefícios do trabalho em equipe são conhecidos desde a Idade da Pedra. Naquela época, quem não caçava em grupo não abatia as maiores presas. Depois, quem não vivia em sociedade jamais poderia beneficiar-se das maravilhas da agricultura. E foi assim, em união, que surgiram as primeiras civilizações. Hoje, numa época em que o individualismo está tão em voga, muitas vezes nos esquecemos de que as maiores conquistas são coletivas. Mas, quando redescobrimos essa regra básica, escrita em nossos genes, somos capazes de grandes transformações.

 


União é... revolucionar o bairro com as próprias
mãos, como Samara (à esquerda) e seus vizinhos

 

Ser o que se quer

Prova disso é o que vem acontecendo no bairro Paquetá, em Santos (SP). Como é comum a outras grandes cidades brasileiras, o município que abriga o maior porto do país tem a região do seu centro antigo, onde fica Paquetá, tomada pela degradação. Prédios do início do século passado, que um dia ostentaram graça e requinte, há décadas se transformaram em cortiços, sendo ocupados de modo informal por famílias de baixa renda que veem neles sua única opção de moradia. As ruas, antes marcadas pelo intenso comércio, pela alegria dos blocos de Carnaval e pela tranquilidade das brincadeiras das crianças, acabaram tomadas por vandalismo, tráfico de drogas e violência.

Em 1996, os moradores perceberam que, se não se organizassem para lutar por um bairro melhor, a situação dificilmente mudaria. Naquele ano foi fundada a Associação dos Cortiços do Centro de Santos (ACC). Aos poucos, o movimento ganhou força. Hoje, vê sonhos se concretizar, tijolo a tijolo.

Um passo importante para essa guinada aconteceu em 2003. Naquele ano, os moradores dos cortiços entraram em contato com o Instituto Elos, uma ONG fundada por arquitetos com o objetivo de ajudar comunidades a realizar, por si próprias, as transformações que desejam para o lugar onde vivem. Era exatamente o tipo de orientação de que o pessoal de Paquetá precisava. A ONG estimulou a comunidade a organizar um mutirão, e em um dia mudar radicalmente uma parte da paisagem do bairro.

Em assembleia, os moradores decidiram que o local a ser revitalizado seria a Praça Nagasaki, tradicional espaço de convivência que se encontrava totalmente abandonado. Cerca de 250 pessoas participaram. Empresas da região doaram material de construção. Um morador, pedreiro, elaborou o projeto de um parquinho para as crianças. Com o aval da prefeitura, a comunidade passou um domingo inteiro limpando lixo, cortando mato, pintando muros, capinando canteiros e instalando bancos e brinquedos.

 

"Em vez de enxergar meu vizinho como um adepto de outra religião, posso vê-lo
como alguém que ama cães, como eu. Temos de aflorar os pontos de identificação"

 

Restaurada, a praça voltou a ser frequentada pelas famílias. Mas o ganho para a comunidade foi muito além de um novo local de lazer. “Depois do mutirão, as pessoas passaram a acreditar em si”, afirma a diretora da ACC, Samara Faustino, de 52 anos. “Nós percebemos que podemos transformar a realidade em que vivemos”, completa.

Outra prova da força da comunidade – e da importância do estabelecimento de parcerias – foi inaugurada em janeiro deste ano. É uma padaria comunitária. O imóvel foi doado pela ONG Associação Comunidade de Mãos Dadas (ACMD), fundada por empresários da Baixada Santista, em conjunto com grandes empresas. As fornadas ficam sob responsabilidade de um grupo de moradoras, antes desempregadas, que, com recursos da ACC, fizeram um curso profissionalizante. Anexo à padaria, os moradores pretendem construir outra demanda antiga: uma creche 24 horas.

E um plano ainda mais ambicioso já está em fase final. É a transformação de um armazém de café abandonado em dois edifícios com 181 apartamentos, para abrigar 600 pessoas. O projeto conta com recursos do governo e com assessoria de empresas de engenharia e arquitetura. A construção é feita pelos futuros moradores, que, com sua mão de obra, conseguem descontos no financiamento. Além de moradia de qualidade, o condomínio trará cultura e consciência ambiental. Haverá cozinha-escola, biblioteca, espaço para reciclagem do lixo, jardins com reaproveitamento de água da chuva, bicicletário e internet gratuita. O térreo abrigará boxes comerciais para estimular a geração de renda. Os primeiros apartamentos devem ser entregues ainda neste ano. Ao vislumbrar essa enorme conquista, Samara se emociona: “O maior prêmio é o reconhecimento do valor humano”.

 


União é... ver no concorrente um parceiro, como Onivaldo e Pedro

 

Eles somos nós

Beneficiar-se da união exige certo treino do olhar. Pedro Pellegrini, de 47 anos, e Onivaldo Belone, de 48, sabem bem disso. Ambos vivem na mesma cidade, Valinhos (SP), e têm a mesma profissão: produtor de frutas. Poderiam enxergar-se como concorrentes. Mas preferiram um ângulo mais proveitoso. Há dez anos são parceiros. Com outros 140 agricultores, eles integram a Associação Agrícola de Valinhos e Região.

“Identificação é a palavra certa”, afirma o filósofo Paulo Ghiraldelli Júnior. “Quando criamos linguagens que permitam que ‘eles’ passem a ser ‘nós’, melhoramos. Se considero que meu vizinho tem outra religião, ele não será ‘um de nós’. Mas, em vez disso, posso pensar que, assim como eu, ele gosta de cachorros. Nesse quesito, ele é ‘um de nós’. Temos de fazer aflorar esses pontos de identificação”, completa Paulo.

Pedro, que é o presidente da associação, conta que, no início, foi difícil convencer alguns produtores a aderir à iniciativa. “Era aquela velha história de ter de ver para crer”, conta. Pois quem apostou logo se deu bem. O primeiro benefício foi o barateamento dos insumos. Ao comprarem adubo, sementes e defensivos em conjunto, eles conseguiram negociar descontos de até 25%.

Outra vantagem é que, pela associação, fica mais fácil criar parcerias que ajudem no progresso dos negócios. Um contato feito com o Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf), por exemplo, estimulou os produtores a obter certificações de boas práticas agrícolas, o que amplia significativamente o leque de possíveis compradores. A associação também construiu a ponte entre os produtores e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), que oferece cursos de aperfeiçoamento e especialização.

A melhoria dos processos e, consequentemente, do produto final, fez com que mais agricultores tivessem condições de exportar. Nessas horas, a camaradagem também é fundamental. Sozinhos, os agricultores não conseguiriam atender a muitos dos pedidos, pois os compradores estrangeiros costumam exigir grandes volumes de produção. Então os negócios são fechados em grupo. Onivaldo, por exemplo, hoje vende 95% da sua produção de figo à Europa. “Estamos cada vez mais organizados. Ao seguir a mesma linha de pensamento, tudo fica mais fácil”, diz.

A história dos produtores de Valinhos mostra que, mesmo no capitalismo – um sistema baseado na concorrência, muitas vezes dita selvagem –, há espaço para a cooperação. Aliás, foi justamente nas origens de nosso sistema econômico, no século 18, que se teria difundido a ideia de que o ser humano é, por definição, competitivo. “Provavelmente era útil ao sistema estabelecer tal imagem”, afirma o biólogo holandês Frans de Waal, em entrevista à revista americana Time. Autor do livro The Age of Empathy (A Idade da Empatia, inédito em português), em que defende a ideia de que a evolução das espécies nos tornou seres conciliadores, Frans sabe que a sociedade não vive em perfeita harmonia. “Sim, há competição. Há dominação e hierarquia. Às vezes brigamos. Às vezes até matamos uns aos outros”, diz. “Mas nos mantemos juntos, porque unidos vivemos muito melhor.” Que o digam os moradores e voluntários de São Luiz do Paraitinga, o pessoal de Paquetá, Pedro, Onivaldo e seus colegas – e todo mundo que um dia se sentiu mais forte, só pelo fato de ter uma mão para segurar.
 

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adoravel....
luciana
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