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Todos podem ter um jardim

Não importa se é um pedacinho de terra ou um amontoado de vasos no canto da sala. Cultivar plantas é acessível a qualquer pessoa e faz a vida florescer
Texto: Amanda Rahra // Ilustração: Adriana Komura
Todos podem ter um jardim
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É uma dessas imagens que a gente guarda, mesmo sem nunca ter vivido de fato. O gramado verde, macio, com os pés descalços. Os canteiros perfumados e floridos de roxo, vermelho, amarelo, cor-de-rosa. A pitangueira carregada, o pé de jabuticaba fazendo sombra. O cheiro da terra molhada depois da chuva. A trepadeira cobrindo o muro, novas mudas nascendo do chão, uma abelha zunindo, a fileira de formigas em marcha. Isso é um jardim: pode ser o da sua casa de infância ou o da casa dos seus sonhos, tanto faz. Todo mundo tem um, plantado ou à espera de brotar.

Jardins são espaços de pausa. Onde a infância acontece, contempla-se a vida, descansa-se do resto. Eles estão na literatura, na mitologia, na religião, ao redor das construções grandiosas. São metáforas para a vida: se bem-cuidados, nascem, crescem, florescem, murcham e recomeçam. Cultivá-los é entrar em consenso com a natureza, cuidar de si mesmo e presentear os outros com uma paisagem.  Ah, suspira-se. Mas onde andarão os jardins agora? Para tê-los é preciso, antes de tudo, terra. Que nas cidades jaz sob cimento e asfalto, e só em poeira aparece nos apartamentos. Tudo bem. Um jardim não é feito apenas de grandes espaços planejados. Uma floreira na janela, um quadradinho no chão, aquele descampado no fim da rua: pode nascer de qualquer lugar.

Sabe bem disso dona Yayo Uemura, de São Paulo. O jardim dela é de uma causa só: orquídeas.  Aos 90 anos, ela já perdeu a conta de quantas têm. Vivem numa estufa nos fundos de casa. Yayo compra mudas raras quando estão ainda bem miúdas. Vão levar anos para dar a primeira flor. Não faz mal. A graça é cuidar, duas horas por dia pelo menos. “São como filhas”, diz. E, mesmo quando estão prestes a explodir em cores, ela mal vê, porque empresta os vasos floridos à família e às amigas. Quando caem as flores, pega de volta. E vai tratar da planta, por mais um ano até a próxima floração.

O cuidado e a espera são lições de quem cultiva um jardim. As plantas têm suas necessidades e o próprio tempo. Podem gostar da ajuda, mas não são controladas pelo jardineiro. E vê-las se desenvolver é assistir a um pequeno, porém grandioso, espetáculo. Manoel Pires descobriu isso jovem: seu primeiro curso de paisagismo foi aos 14 anos. Trinta anos depois, ele abastece uma porção de jardins paulistanos a partir do seu, onde cada muda é cuidada como se nunca fosse sair dali. Planta flores, folhagens, temperos, árvores, tudo misturado do seu jeito, sem ordem aparente. “Sei onde está cada uma”, conta. Mesmo sendo trabalho, é o seu jardim.

Cultivar um jardim é entrar em consenso com a natureza,
cuidar de si mesmo e presentear aos outros com a paisagem


Como Manoel, o jardim do professor Rubem Alves tem sua própria lógica, que não é o dos ângulos perfeitos e espécies vistosas: é o das suas lembranças. Quando menino, o jardim era o lugar de sua maior felicidade. Longe dos adultos, podia ser ele mesmo. Cresceu desejoso de ter um pedaço de terra como aquele da infância. Quando finalmente conseguiu, não chamou paisagista. “Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro”, escreveu.

Memória também é o que motiva a professora de filosofia Ivani Cunha Di Sarno a ter um jardim na varanda de seu apartamento, em São Paulo. Sua mãe, Helena, era dona de um dedo verde.  “Ela pegava galhinhos por onde passava. Era colocar num vaso que florescia”, lembra. Seu segredo eram algumas misturas caseiras, como regar com a água do arroz lavado, e o carinho com que cuidava das mudas. “Quando surgia um botão, ela dava um beijo para que virasse flor,”, conta. Faz quase cinco anos que Helena se foi. Ivani ainda cultiva a flor-de-maio, o antúrio e o lírio-branco da mãe na varanda – a lembrança dela vive em seu jardim. 
 

DICAS DO SEU MANOEL

Um cacto ou uma mangueira? Um jardim é sempre um jardim. Saiba como cuidar

Tenha você muito ou pouco espaço, luz ou sombra, mão boa ou assassina, a natureza tem plantas para seu feitio. Uma visita a uma loja especializada e uma conversa de canto com um jardineiro podem lhe apresentar as flores de sua vida. Alguns outros truques básicos, segundo o jardineiro Manoel:

# Alimente sua planta com esterco, húmus de minhoca e farinha de osso. Casca de ovo moída e a água do arroz lavado são boas soluções caseiras.

# Mate a sede da planta. Cada tipo tem uma necessidade, mas em geral elas pedem regas em dias alternados e terra sempre ligeiramente úmida.

# Pode. O básico é cortar folhas amareladas e galhos secos.

# Seja vaso ou canteiro, revolva a terra de vez em quando, para que areje.

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