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Todos por todos

A generosidade não é só doar o que se tem de sobra. Há muitas outras formas de pôr esse valor em prática no dia-a-dia – e criar um ciclo onde quem faz o bem ganha tanto quanto quem o recebe
Texto: Tarso Araújo //  Foto: Daniela Toviansky e Rodrigo Braga
Todos por todos
Generosidade é...Se abrir para conhecer o mundo e doar, em troca, o sorriso. Marina e Juliana fazem rir em Urucuriá, no Pará
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Quando tinha 13 anos, Severino saiu de Olho D’água Seco, no sertão de Pernambuco, para morar com um tio na capital Recife. Certo dia, perdeu-se na cidade grande: sem saber ler, não conseguia encontrar o caminho de volta olhando as placas e o nome das ruas. “Era como se fosse cego”, diz. Quando, afinal, achou o endereço, pediu ao tio para lhe comprar uma cartilha de alfabetização. Sozinho, aprendeu a ler e a escrever. Um ano depois, voltou ao sertão e tratou de ensinar o que sabia à irmã. Não era muito, mas era o bastante. Depois, improvisou uma escolinha para alfabetizar outros moradores. Já tinha ensinado 231 pessoas a ler quando deixou Pernambuco, há 24 anos, por uma vida melhor em São Paulo. Durante a viagem, ensinou mais 12 conterrâneos a assinar o próprio nome. “Gosto de passar adiante tudo o que aprendo. Não vou levar nada para o caixão. Então tenho de compartilhar o que sei com quem precisa, senão esse conhecimento morre comigo”, conta.


Estamos acostumados a reconhecer a generosidade em gestos grandiosos como o de Bill Gates, fundador da Microsoft e um dos homens mais ricos do planeta, que doou 29 bilhões de dólares à instituição de combate à pobreza que fundou com a mulher, Melinda. Mas a história de Severino não deixa dúvida de que a generosidade pode ser praticada mesmo por quem tem pouco ou quase nada – e de várias formas, muito além de dar bens que sobram. Como faz Antônio, um desembargador de Justiça que conta histórias para crianças num hospital. Ou Élcio, que incentiva a solidariedade na empresa que lidera e ajudou a fazer dela um dos melhores lugares do mundo para trabalhar. Como Juliana e Marina, que fazem as pessoas rir sem pedir nada em troca. Que nem Danielle, que aos 63 anos ajuda milhares de deficientes visuais a ter acesso a livros.


“Generosidade é a capacidade de compartilhar e proteger a vida. Podemos doar coisas materiais, mas também a amizade, o amor, a lealdade, um beijo, o ouvido para uma conversa”, diz o filósofo Mário Cortella, consultor de empresas e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Atitudes muito simples, como ser atencioso com o estranho que lhe pergunta onde fica aquela rua, ter paciência com o filho, relevar o mau humor do colega, reconhecer com um elogio um trabalho bem-feito ou fazer a gentileza de parar o carro para a moça cheia de sacolas atravessar a rua, também são generosidade. E, indo além, doar dinheiro, tempo, trabalho e conhecimento, em um voluntariado ou no dia-a-dia, também. Para Cortella, não importa a ação – só aprender que “fazer o bem é bom e faz bem”.


Parece uma obviedade. Mas é só olhar ao redor para perceber que, apesar de tantas possibilidades que temos de fazer algo pelos outros, a generosidade é artigo em falta. Você tem medo de sair da fila do banco para preencher um papel e perder o lugar? Acha o ambiente profissional hostil, com os colegas sem disposição para trabalhar em equipe? Irrita-se com a falta de consideração das pessoas no trânsito, que não dão passagem nem para sair da garagem? Fica chateado se não vê seu esforço reconhecido? Provavelmente você tem outros exemplos de como a ausência da generosidade deixa a vida mais estressante. E talvez sinta que as coisas estão cada vez mais difíceis. Está certo: nem sempre foi assim.

Homus generosus

Se estamos aqui hoje é porque durante sua evolução, o homem contou com um poderoso instinto de cooperação. Fracos, incapazes de se proteger sozinhos dos predadores e de resistir a longos períodos de frio e sem comida, nossos ancestrais pré-históricos precisaram ser extremamente unidos e colaborativos para sobreviver. Se alguém não comesse, o grupo ficava menor e, mais fraco, todos acabariam sucumbindo. A saída, então, era compartilhar.


O espírito do coletivo ainda é prioridade em muitas comunidades do mundo, como entre as tribos nômades da África. Nelas, quando um filho se casa, em vez de sair da casa dos pais, ele agrega a esposa ao resto da família, fazendo da união uma força. A lógica também predomina por aqui, geralmente entre famílias mais pobres. “Numa favela, quando crianças ficam órfãs por causa de um incêndio ou deslizamento, é muito comum que a vizinha as adote, mesmo com toda dificuldade. Para ela vale o lema ‘onde comem três comem sete’”, diz Cortella. “Entre a classe média e alta, o normal é que nem se saiba o nome do vizinho de porta. O que impera é o ‘cada macaco no seu galho’”, completa.


Não é que pobres sejam bonzinhos e ricos, egoístas, mas, sempre que as dificuldades aparecem, aquele espírito de cooperação que ajudou os homens das cavernas prevalece. Como o desenvolvimento econômico diminuiu um bocado as dificuldades para conseguir casa, comida e outras necessidades básicas, a cooperação pôde sair de moda em alguns lugares, para que as pessoas pudessem pensar mais em si mesmas. “O coletivo perdeu espaço para a individualidade, que também é um valor importante para a formação da identidade. O problema é que passamos a dar um valor exagerado a ela”, diz Cortella.


Essa cultura, que conhecemos bem, se alastrou pelo mundo e concentrou pessoas em torno dos próprios objetivos e problemas. Aos poucos, deixamos de ser arquipélagos para nos tornar ilhas, palavra que vem do italiano isola, sinônimo de isolamento. Além de contar cada vez menos com a colaboração do próximo, ele virou concorrente, quase um inimigo. Daí a gente se ver com tanta freqüência naquelas situações de frustração e estresse, com medo de alguém tomar nosso lugar. Trocar a chave do modo “cada um por si” para o “todos por todos” começa prestando mais atenção ao outro – pessoas quase sempre muito próximas e, ao mesmo tempo, tão distantes.
 


Generosidade é...Aceitar a diferença para promover a igualdade. Élcio comanda a Serasa, um dos melhores lugares para trebalhar no país


Olhar o outro


“Quando tinha 13 anos, topei fazer um trabalho para fugir do teste de geografia. Tinha que ir à tal de favela para contar como era”, lembra Antônio Carlos Malheiros, o Antônio de quem falamos antes. Criado numa família de classe média, em São Paulo, até então ele não sabia o que era miséria. “Depois de 15 minutos na entrada da favela, de onde não pretendia passar, chegou uma menina da minha idade, grávida. Fiquei assustado. Começamos a conversar e ela me convidou para conhecer sua casa: um barraco minúsculo, com um colchão imundo sobre o chão de terra, onde morava com a mãe e cinco irmãos. Aquilo me incomodou muito”, conta. Daquele dia em diante, o então adolescente, mais tarde universitário e, afinal, juiz de direito, nunca mais parou de fazer trabalho voluntário.

Para a psicóloga Luciene Togneta, a experiência de Antônio mostra como a generosidade depende da sensibilidade para ver o outro. “Essa disposição para ajudar só vai existir se formos capazes de perceber a dor do próximo, suas carências e necessidades”, diz. É o que Cortella chama de visão da alteridade: “Trata-se de ver o outro como diferente, mas não como estranho, exótico. E reconhecer a diferença não quer dizer exaltar a desigualdade, e sim respeitá-la”.

Conhecer esse “outro” mudou para sempre a vida de Antônio. Depois de trabalhar em favelas, com moradores de rua e adultos portadores de HIV, hoje ele dedica as tardes de sexta-feira a contar histórias a crianças com aids no Hospital Emílio Ribas, em São Paulo. E ainda é presidente da Comissão de Justiça e Paz, em que luta, como voluntário, pelos direitos humanos. Ah, sim, e ele trabalha – e muito: além de desembargador de Justiça, dá aulas em três universidades. A falta de tempo nunca é desculpa. “Isso é a parte mais importante da minha vida. Ajudando, ganho o que nada poderia me dar: vida”, diz. De quebra, tenta mobilizar colegas e alunos a acompanhá-lo. “Quero chacoalhar as pessoas como um dia fui chacoalhado. Porque não tenho a menor dúvida de que a generosidade é transmissível.”


Generosidade é...Doar tempo e compaixão. Antônio Carlos conta histórias para jovens pacientes no Hospital Emílio Ribas


O valor da diferença

Um bom exemplo de como a generosidade pode ser passada adiante vem de uma empresa, justamente o tipo de organização na qual o individualismo costuma ser mais incentivado. “Em algumas, o ambiente é tão ruim que parece o mar, onde peixe não morre de velho – é devorado antes”, compara Cortella. Mas o filósofo é otimista: para ele, o famoso capitalismo selvagem está com os dias contados. “Algumas organizações começam a perceber
que um ambiente mais solidário e humano pode ser melhor não só para os funcionários, mas também para os lucros”, diz. É o caso da Serasa, a popular empresa de análise de crédito, consultada cada vez que você faz uma compra ou abre uma conta. Ninguém gosta quando o nome “vai parar na Serasa”. Mas se for na lista de funcionários, é outra história.


Em 2007, a Serasa foi considerada pela Great Places to Work, uma consultoria que realiza pesquisas de satisfação entre funcionários de empresas do mundo inteiro, o décimo melhor lugar para trabalhar da América Latina – e o melhor do Brasil. Para se ter uma idéia, 91% dos funcionários ali estão satisfeitos, 90% estão de bem com os colegas e 87% não têm o que reclamar do chefe. Como é possível? “Aqui, cada pessoa é vista com suas características e as diferenças não são discriminadas, e sim respeitadas”, explica o presidente, Élcio Aníbal de Lucca. “Damos condições de crescimento a todos – inclusive às minorias”, diz. Não por acaso que a Serasa tem um dos maiores percentuais de mulheres em cargos de liderança no país – 45% dos chefes são do sexo feminino.


“Meu trabalho é valorizado e tenho respeito como a pessoa que sou, com uma vida e uma família lá fora”, conta a gerente Helen de Lima, há nove anos na Serasa, sem pensar em sair. Além do bom clima, pesa o exemplo solidário da empresa, que faz suas ações sociais e estimula os funcionários a tomar iniciativas próprias – entre as 2 mil pessoas que trabalham lá, quase metade faz algum tipo de trabalho voluntário.


O que a Serasa entendeu são duas coisas fundamentais para a generosidade: a capacidade de ver cada um com suas necessidades específicas, e reconhecer essa diferença para garantir igualdade. Parece fácil, mas o egoísmo nos deixa tão preocupados com as nossas coisas – nosso lucro, nossa pressa, nosso desejo, nossa tristeza, nossa competência, nosso problema, nossa satisfação – que nos tornamos cegos para o outro. E esquecemos de como pode ser bom até para nós mesmos ser generosos com alguém.


Generosidade é...Transmitir o conhecimento para multiplicá-lo. Danielle e Regina revisam livros editados em braile


 É dando que...

“Faço isso porque me faz muito feliz. Meu pagamento é saber que ajudo milhares de pessoas a ter a chance de ler. Mas isso não me torna uma heroína, nem é nada excepcional”, avisa Danielle Goldstein, que trabalha voluntariamente na revisão de livros editados em braile, a linguagem para deficientes visuais. Ela passa pelo menos três horas por semana na Fundação Dorina Nowill para Cegos, organização não-governamental paulista responsável pela edição de mais de 2 mil livros “traduzidos”. Enquanto Danielle recita o original, sua parceira Regina de Oliveira, deficiente visual, lê com os dedos a versão em braile em busca de erros, em livros que vão de romances best-sellers a didáticos de química.


Ser generoso para ter satisfação pessoal pode soar como egoísmo disfarçado. Ao contrário, diz a psicóloga Luciene Togneta: a alegria de fazer o bem é um sentimento fundamental para que a generosidade seja multiplicada. “Quando fazemos algo por alguém, pensamos no outro, mas também queremos que ele perceba nosso gesto”, diz. O reconhecimento reforça a imagem que queremos projetar – no caso, a de que somos boas pessoas. E isso não é nenhum crime. Se o que fazemos pelo outro vai beneficiá-lo, não importa o que nos motiva. Em compensação, o prazer que se tira de ser generoso estimula a continuidade da ação. Não à toa, Danielle é voluntária há 18 anos.

Generosidade é a capacidade de compartilhar e proteger a vida. Podemos doar
coisas materiais, mas também amizade, conhecimento, tempo, atenção


O retorno pessoal surge mesmo quando a generosidade não é intencional, como bem sabem as amigas Marina Quinan e Juliana Balsalobre. Palhaças do grupo Doutores da Alegria, que leva diversão a crianças hospitalizadas, elas queriam conhecer melhor o Brasil. Saíram de São Paulo em maio de 2006 com alguma bagagem, a cadelinha Firula e pouco dinheiro no bolso para uma viagem de seis meses pelo Ceará, Maranhão, Pará, Goiás e Rio de Janeiro. “Queríamos conhecer pessoas e como elas viviam”, diz Marina. Decidiam o caminho enquanto andavam. Nas paradas, em lugares como comunidades ribeirinhas isoladas do mundo, aproveitavam para fazer apresentações, a maioria gratuitas. O compromisso maior não era com o riso, e sim com a troca de vivências. Ao levar alegria e novidade a estranhos, receberam sabedoria, experiências, um lugar para dormir. “As pessoas armavam a rede pra gente na casa delas”, lembra Marina.


Generosidade é...Criar oportunidades e fazer o possível, mesmo quando parece pouco. Severino monta bibliotecas com livros catados no lixo

Todo mundo pode

A generosidade também mudou a vida de Severino Manoel de Souza, aquele pernambucano de quem falamos no começo da história. As coisas não correram como ele sonhava quando cruzou pela primeira vez a Ipiranga e a Avenida São João. Por um tempo, precisou morar no Edifício Prestes Maia, no centro de São Paulo, na época a maior ocupação de sem-teto da América Latina. Quando um grupo de universitários e ONGs organizou algumas atividades culturais no local, Severino sugeriu criar uma biblioteca no prédio. “Não dá, não temos livros”, ouviu. Ao que retrucou: “Tudo bem. Tenho 600 livros lá em casa”.


Trabalhando como catador de papel, o pernambucano sempre encontrava livros. Mesmo sem nunca ter freqüentado a escola, desde que comprou aquela cartilha de alfabetização, Severino aprendeu o carinho pelas palavras. “Tinha pena de vender para a reciclagem. Livro é um tesouro”, diz. Começou a guardá-los – começando por uma edição de Quincas Borba, de Machado de Assis – e não parou mais. Biblioteca funcionando, outros sem-teto, vizinhos e trabalhadores da região pegavam os livros emprestados, de graça. O projeto ficou famoso, e Severino começou a receber doações. Quando o Prestes Maia foi desocupado, em junho de 2007, a biblioteca tinha 16 225 livros, que ficaram com o Movimento dos Sem-Teto do Centro.


Severino mudou-se com a esposa, Roberta, para Itapecerica da Serra, subúrbio carente da Grande São Paulo. Vive numa casa emprestada por uma professora da Universidade de São Paulo, que conheceu por causa da biblioteca. Dorme no segundo andar. No térreo, montou uma espécie de centro cultural, com cerca de 4 500 livros que trouxe do Prestes Maia e doações que continua a receber, como dois computadores e uma brinquedoteca. Está tudo à disposição da comunidade, sem custo nenhum. O casal cuida do espaço, recebe os visitantes, organiza os livros e faz os empréstimos sem receber nada por isso. Admirado, perguntei a Severino o que é, para ele, a generosidade. Ele pensou um pouco e respondeu, meio sem jeito: “Olha, como não tive muito estudo na vida, não sei explicar o que é isso não.” Sabe sim, Severino. Você é uma lição viva do que ela significa.

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Comentários:
Essa matéria prova que todo mundo pode doar alguma coisa... Inspirador!
Leandro Villas
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