conviver
Tramas faladas

Em um sábado de muito calor, num prédio da Avenida Paulista, em São Paulo, cerca de 15 crianças estão deitadas em almofadas espalhadas pelo chão. Elas aguardam ansiosas pelo início do espetáculo que vai acontecer logo mais naquele Sesc. Duas atrizes, trajando vestido colorido, perguntam aos pequenos espectadores o que eles estão fazendo ali. Um responde com empolgação: “Viemos ouvir histórias!”. As contadoras atendem ao chamado. Logo, todos mergulham numa narrativa fantasiosa composta de vozes, gestos e muita imaginação.
Nascidas num mundo onde a alta tecnologia se encontra por todos os lados, essas crianças provavelmente não sabem que estão repetindo um ritual tão antigo quanto a cultura humana. Antes da invenção da escrita, a contação de histórias era a única maneira de passar o conhecimento para as novas gerações. “Todos se sentavam próximos uns dos outros e ouviam as notícias que eram importantes para a sociedade”, explica a doutora em comunicação Gilka Girardello, coordenadora da oficina de contação de histórias da Universidade Federal de Santa Catarina.
Apesar de as mídias impressa e eletrônica terem tomado para si essa função, a contação continua sendo um processo único. “Retornamos ao princípio de prestar atenção às informações que estão sendo passadas oralmente e ao de ter paciência para falar apenas quando for a nossa vez. Isso desenvolve a concentração e o respeito pelo próximo”, afirma Gilka. Francisca Rodrigues, cujas filhas Catarina, de 5 anos, e Vitória, de 11, são frequentadoras assíduas das sessões promovidas pelo Sesc da Avenida Paulista, observa os benefícios na prática: “Ajuda a desenvolver a oralidade. As meninas aprendem a ouvir e a recontar o que aprenderam”.
Ana Luísa Lacombe é chamada por empresas para contar
histórias antes de reuniões de negócios: “Quando ouvimos
um bom conto, agimos mais filosoficamente, refletimos
melhor antes de tomar uma decisão”
No Colégio Pentágono, em São Paulo, a contação complementa o conteúdo das aulas. A pedagoga Mafuane Oliveira narra contos de diversas culturas aos alunos de 6 a 10 anos. “Se eles têm dúvidas sobre a Índia, por exemplo, eu conto uma história do país, aproveitando para falar sobre suas tradições”, explica. Ao perceber as reações de expectativa, surpresa, medo, alegria, ela comprova o caráter social da contação: “Dividir uma emoção com um amigo é uma forte experiência de aproximação”, afirma.
Por prazer e por ofício
Nina Quirino, de 63 anos, conhece esse poder de integração desde que se entende por gente. Quando era pequena, era ela quem contava histórias a seus pais. A menina faladeira se casou e teve cinco filhos. Todos os dias, antes de irem para a cama, as crianças ouviam as fábulas da mãe. Quando os rebentos ficaram adultos, foi hora de ampliar a plateia para além da família.
Em 2008, enquanto via TV, Nina deparou com a propaganda de um curso de contação de histórias em sua cidade, Belo Horizonte. Matriculou-se. Lá, fez cinco amigas, com as quais montou o grupo Colar de Flor, que organiza apresentações voluntárias em igrejas, asilos e hospitais. “Dinheiro a gente não ganha, mas o carinho que recebemos em troca das nossas histórias não tem preço. No fim das apresentações, eu abraço todas as pessoas da plateia”, conta. “O sentimento de partilha provocado pela contação de histórias é muito importante para a nossa convivência. Principalmente no mundo atual, em que cada um vê sua televisão no seu quarto, e quase não há espaço para dividir emoções e impressões provocadas por histórias”, explica Gilka Girardello.
Se na vida pessoal já anda difícil compartilhar sentimentos, imagine no agitado universo corporativo. Pois a contadora Ana Luísa Lacombe, de São Paulo, não só achou essa brecha como fez dela sua profissão. Ela realiza apresentações sob encomenda antes de reuniões de negócios. “Quando uma pessoa ouve uma boa história, passa a agir mais filosoficamente. Assim, acaba refletindo melhor antes de tomar uma decisão”, explica.
Uma vez, Ana foi contratada por uma empresa que estava organizando um evento sobre ecologia, com participantes de opiniões divergentes, como chefes indígenas e representantes de cooperativas agrícolas. “Contei um mito sobre a importância de ceder para realizar acordos. Acredito que ele contribuiu para que todos ficassem mais abertos ao debate”, revela. Em sua experiência, que se estende a apresentações em festas de amigos e famílias, ela entendeu por que a contação é um hábito que sobreviveu aos séculos: “Nunca conheci alguém que não gostasse de ouvir histórias. Até os mais durões se entregam”.
Vai fundo! Para saber como participar de uma roda de contação de histórias, acesse: revistasorria.com.br/blog_sorria/contacao


















































