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Trata-se de arte

Faz dois anos que Emília Negre, de São Paulo, usou um pincel de pintura pela primeira vez. Do encontro – a princípio, inseguro – do instrumento molhado de tinta com a tela surgiram paisagens com casinhas em campos verdes e barcos ao pôr do sol. Pincelada a pincelada, a vida de Emília, que até então era bem cinza, também ganhou mais luz e cor. Na época da estreia nas telas, ela estava com 60 anos. Desde os 30, convive com sérias limitações motoras nos braços, devido a uma lesão na medula. “Fui uma pessoa triste por três décadas. Até que comecei a pintar. E tudo mudou”, conta. Usando um aparelho que lhe permite prender o pincel à testa, ela se converteu em artista, e começa a vender seus primeiros quadros, aos 62 anos.
A descoberta que transformou a vida de Emília foi a arteterapia, técnica terapêutica que utiliza a atividade artística como forma de auxiliar o tratamento de problemas físicos ou psicológicos. Surgida após a II Guerra Mundial, como alternativa para a recuperação dos milhares de pacientes politraumatizados sobreviventes do conflito, ela tem se popularizado mundo afora desde os anos 1960. Vale desenhar, pintar, esculpir, fazer colagens, fotografar, bordar ou explorar inúmeras outras linguagens, desde que haja a disposição criativa de experimentar as possibilidades de cada material.
E não precisa ser talentoso nem criar obras de arte. O objetivo mesmo é mergulhar num intenso e valioso processo de autoconhecimento. Foi o que aconteceu com a pintora Emília, para quem as sessões ajudaram a resgatar potenciais esquecidos e a estimular o senso de realização. “A arte levantou o meu ego”, afirma. E conhecer-se é o primeiro passo para mudar. “Na arteterapia, as modalidades artísticas são utilizadas para propiciar a comunicação de conteúdos inconscientes e, portanto, desconhecidos, até a consciência do próprio indivíduo. A partir dessa compreensão, surge a possibilidade da transformação pessoal”, explica a arteterapeuta Angela Philippini.
Pode parecer um processo muito abstrato, mas em alguns casos ele é bem fácil de ser entendido. Pense, por exemplo, em alguém muito exigente consigo mesmo, que tenta planejar a vida à perfeição e não consegue lidar com falhas nem imprevistos. No cotidiano, talvez seja difícil para essa pessoa reconhecer a cobrança exagerada e permitir-se errar ou surpreender-se com o acaso. Numa sessão de arteterapia, fica mais fácil. Uma técnica indicada para esse caso é a aquarela aguada, aquela tinta difícil de controlar, cuja beleza reside justamente no fato de ela se espalhar livremente sobre o papel.
O arteterapeuta Walter Muller cita outro exemplo: “Para tratar um adolescente com problemas com drogas, que não saiba lidar com seus limites, pode-se usar desenho sobre papel quadriculado”. “Na prática, ajudamos o paciente a exteriorizar e dar forma a seus conflitos, alegrias, desejos e fantasias pela arte, através de nosso referencial teórico”, completa a também especialista Ana Alice Francisquetti.
Experiência própria
Regina Chiesa, de 57 anos, de São Paulo, descobriu a arteterapia a trabalho – mas foi como paciente, durante o tratamento de um câncer, que ela sentiu melhor seus benefícios. Formada em arte-educação, Regina trabalhava na área com crianças e jovens. “Nunca tive dúvida do valor terapêutico da arte. Quando ouvi falar em arteterapia, em 1992, interessei-me e não parei mais de estudar”, conta. Por uma dessas coincidências da vida, dois anos depois, quando veio o diagnóstico do câncer, a especialista virou paciente. Com as sessões terapêuticas de arte, Regina viu surgir uma grande força interior que, acredita, a ajudou a vencer a doença.
“A pintura com aquarela me ajudou a expressar meus sentimentos mais profundos. Num dos trabalhos, tive de usar muito a tinta vermelha. O mergulho na cor foi complicado: ela é quente, cheia de energia, e é difícil lidar com isso num momento de debilidade. Mas você descobre que tem esse calor interno também, e isso é revelador”, afirma. “Além disso, na aquarela, imagens do inconsciente vão surgindo sem você pensar. Trabalhar isso com um terapeuta ajuda a pessoa a enxergar coisas que nem imaginava, o que foi extremamente curador”, completa Regina.
A experiência foi tão marcante que Regina se especializou na prática e, após se curar, passou a atuar como arteterapeuta com pacientes com câncer. Desde 2003, ela atende no Centro Oncológico de Recuperação e Apoio, em São Paulo. Mas não é preciso enfrentar uma doença grave ou um problema psicológico para se valer dos benefícios da arte. “Inerente ao ser humano, o impulso criativo, por si só, já é uma maneira de promover a saúde mental”, afirma Angela Phillipini. Além disso, ao afastar o estresse, a arte – mesmo amadora – fortalece o sistema imunológico e, como tudo o que nos relaxa, ajuda-nos a ser mais felizes.
Saiba quem é o arteterapeuta mais próximo de sua região no site da Associação Brasileira de Arteterapia: www.arteeterapia.com.br

















































