conviver
Tudo em família

Era uma vez uma vila cheia de casinhas coloridas. Lá, os vizinhos se conhecem pelo nome e deixam a casa aberta. As crianças correm pela rua sem precisar olhar para os lados, seguidas pelos cachorros de estimação de quem todos ajudam a cuidar. Enquanto isso, o cheiro de pão assando invade os quintais, e os adultos dividem uma cerveja, jogam conversa fora na soleira de casa, cuidam do jardim, planejam uma festa para o fim de semana. ?As tardes passam devagar para quem vive ali, mesmo que do outro lado do portão a cidade não pare de correr.
Esse lugar existe. A passagem se esconde em uma rua movimentada de São Paulo. Na pequena vila vivem 37 pessoas, divididas em 13 sobrados. Gente como Kiara Terra, atriz e contadora de histórias que, acostumada a um conto de fadas, não pensou duas vezes quando teve a chance de se mudar com a família, três anos atrás. Ali descobriu um jeito novo de viver, bem diferente da impessoalidade dos prédios e dos muros farpados que costumam separar as pessoas em cidades grandes. Algo como velho sonho da casinha com cerca branca – sem a cerca.
“Aqui, as portas ficam sempre abertas. Fazemos almoços comunitários. Nossos filhos estudam juntos. Num Carnaval, organizamos aulas de tamborim e por semanas, às 6 da tarde, todo mundo ensaiava na rua. Outro dia teve um mutirão para pintar um muro, sem dono, de roxo”, conta Kiara. Sua vizinha, a professora Edite Kanashieru, costumava assistir às festas juninas na vila da janela do prédio da frente. “Sempre quis morar aqui”, conta. Há 14 anos, conseguiu realizar o desejo. Divide a casa com os filhos, o marido e a mãe, que costuma tomar conta das plantas e dos bichos de quem viaja.
Nada de prédios impessoais e muros farpados. Viver em vila dá chance de criar
uma comunidade para dividir o trabalho e a diversão do dia-a-dia
A vila é especial, mas não é a única: existem cerca de 5 mil delas só na capital paulista. Erguidas entre as décadas de 1920 e 1960 nos arredores de fábricas para abrigar funcionários e como uma espécie de “poupança” dos proprietários, portugueses em sua maioria, durante muito tempo elas foram malvistas. Serviam para preencher o miolo dos quarteirões – mas chique mesmo era morar de frente para a rua. Hoje, o resguardo das casinhas geminadas é disputado, e as raras desocupadas nem chegam aos classificados: é no boca a boca, em longas listas de espera e com alguma sorte, que se consegue uma vaga.
Claro que viver em comunidade também dá trabalho. Há responsabilidades e problemas como em qualquer espaço de convivência. Mas, com boa vontade, eles têm solução. Quando Kiara chegou, por exemplo, ainda não havia portão na entrada, e o pessoal andava assustado com moradores de rua e meninos vendendo drogas por perto. A turma conversou com uma ONG, que bolou projetos sociais na área. Um grupo foi atrás da licença na prefeitura para fechar a rua. E as pequenas coisas do dia-a-dia vão sendo resolvidas na conversa.
Tem a sujeira dos cachorros, a superlotação no estacionamento, e a privacidade diante do mundo exterior não é a mesma lá dentro, com tantas paredes coladas e quintais miúdos.
“A gente acaba sabendo o que se passa na casa ao lado”, reconhece a urbanista Ana Bellan, outra moradora. “Mas não importa, porque as pessoas são o que temos de mais especial”, releva. Quando comprou seu imóvel, Ana havia acabado de se separar e começava a reconstruir sua vida sozinha.“Aqui me senti amparada.”

















































