brincar {eu amo...}
Uma boa prosa de calçada

“Quando aquele fio de ar gelado entra pela janela da sala, já sei: no relógio batem 16 horas. O sol está baixando (bom para os olhos, que não cansam da claridade), eu e meu velho nos olhamos, desligo a TV e vamos à garagem – ali, as cadeiras enferrujadas pelo tempo nos esperam. Saímos e paramos em frente ao nosso portão branco e pesado. Rua Lisboa, número 93. O trajeto é curto porque, claro, as pernas estão cansadas dos 78 anos de jornada. O Luis coloca nossas companheiras no chão, uma ao lado da outra, juntinhas. (Sabe, ele se faz de rabugento, mas não consegue esconder que fez da vida um cuidar de mim, desde que começamos a namorar, em frente a esse mesmo portão, quando a casa ainda era de papai. Da rua ele também se ocupa, como se fosse o dono, plantando manjericão para os vizinhos e brigando com o vento para que deixe as calçadas limpinhas.)
Há dez anos nossa rotina é a mesma. Se não aqui, na praia: assistindo ao tempo. Um tempo lento que faz as crianças da rua crescer um pouco por ano – mudam as brincadeiras, as estaturas, os namoricos. Um tempo que pára quando estamos proseando sobre a vida – a prosa é boa como bolo de fubá saindo do forno, e nem pela fome é interrompida. E então olhamos para o céu: anoiteceu. O Luis coloca a mão pesada sobre o meu joelho... ‘Vamos, velha, tá na hora’. E eu só levanto porque sei que amanhã me sento aqui mais uma vez, para sentir que o bonito da vida é poder olhar para ela.Melhor ainda se for da calçada da minha casa.”
*Joaquina Moreira tem 78 anos, é aposentada e reparou que estes dez anos de calçada têm feito um bem danado a seu lado poeta

















































