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Uma cozinha mais verde

O cômodo mais gostoso da casa é também o lugar onde mais precisamos dos recursos da natureza. Usá-los menos – e melhor – faz bem para o prato, o bolso e a vida
Texto: Jeanne Callegari // Ilustração: Pedro Piccinini e Mariana Coan
Uma cozinha mais verde
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Você decide o cardápio da noite. Vai até a despensa, pega alguns itens. Abre a geladeira e retira os ingredientes que faltam. Coloca os produtos para cozinhar e joga as embalagens no lixo. Quando a família está alimentada, o resto da comida vai para o cestinho, e a louça é lavada. Essa é uma cena rotineira na casa de quase todo mundo. Remete ao conforto do lar, ao prazer de estar entre pessoas queridas, saboreando uma comida preparada com carinho.

Agora veja o filme de outro ponto de vista: o da natureza. A cozinha é o cômodo da casa em que mais realizamos trocas com ela. Consumimos muita luz para fazer funcionar os eletrodomésticos, gás para o fogão, água na pia, além de todos os alimentos e bebidas que vêm da terra. E produzimos montanhas de lixo, entre embalagens e resto de comida. Cada uma dessas ações tem impacto no meio ambiente – e também no bolso e na qualidade de vida da gente. É inevitável gastar recursos, claro. Mas dá para diminuir muito o desperdício, que tantas vezes a gente comete até sem saber.

Pense na geladeira, por exemplo. Você sabia que ela é responsável por 40% do consumo total de energia da residência? Perde só para o chuveiro, segundo dados do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL). A solução é ter um refrigerador mais econômico possível (veja mais no infográfico da página 20), já que precisamos mantê-lo ligado. O mesmo não ocorre com o micro-ondas: qual a necessidade de deixá-lo conectado à tomada durante todo o tempo? Os aparelhos em stand by – todos que ficam plugados mesmo quando não estão sendo usados – são responsáveis por 15% da conta de luz.

A pia também pode ser cenário de muito desperdício. Se deixar a torneira aberta durante 15 minutos para lavar a louça, você vai gastar 240 litros de água. Ou seja: se faz isso no almoço e no jantar, são 14 mil litros de água por mês! Já imaginou jogar ralo abaixo o conteúdo de 28 mil garrafinhas de água mineral? Usando uma bacia (ou a própria cuba) com água e sabão e abrindo a torneira só para enxaguar a louça, você pode economizar 10 mil litros mensais.

Gerenciar melhor o lixo também é um necessidade. Diariamente, no Brasil, são produzidas 230 mil toneladas de resíduos. Numa cidade como São Paulo, mais de 70% desse total vem das casas. É cerca de 1 quilo de lixo doméstico por pessoa a cada dia. Pode-se pensar que esse número não seja tão preocupante, afinal, a reciclagem dá conta de reaproveitar muita coisa – mas a verdade é que só 2% do lixo brasileiro é reciclado. O resto vai para os lixões, muitos dos quais estão sobrecarregados e não têm a estrutura necessária para evitar a contaminação do solo e da água – de onde virão nossa comida e bebida depois.
 
Mais prático do que parece


Veja outro dado assustador: segundo o Instituto Akatu, que prega o consumo consciente, um terço dos alimentos que compramos vai direto para o lixo. Programar melhor nossas compras para não deixar nada estragando na geladeira e aprender receitas que utilizam partes dos alimentos descartadas, como a casca das frutas, são atitudes que racionalizam essa conta – e também significam economia de dinheiro.

E mesmo o lixo orgânico que inevitavelmente produzimos pode ter um destino sustentável. É assim no apartamento de Eduardo Selbach Nasi, de 33 anos, de São Paulo. Pensando em diminuir o impacto ambiental da sua alimentação, ele adquiriu uma composteira. Trata-se de um equipamento simples, formado por três caixas plásticas empilhadas, dentro das quais há terra habitada por dezenas de minhocas. Lá, Eduardo deposita boa parte do lixo orgânico – os restos de alimentos – que produz. As minhocas decompõem tudo e, como resultado, produzem húmus (uma terra preta nutritiva) e um fertilizante líquido. “É muito prático. Não tem mau cheiro, não vaza e cabe tranquilamente num apartamento”, diz Eduardo.

Hábitos como esse – e outros ainda muito mais simples – colaboram demais para diminuir os danos que toda cozinha causa ao meio ambiente. E ainda representam economia para o bolso. Curioso para saber outras formas de agir? Então confira a série de boas ideias no infográfico ao lado. São uma receita infalível para que os momentos na cozinha sejam agradáveis não só para você e sua família, mas também para o mundo de todos nós.
 

Pequenas grandes soluções

Hábitos simples que você pode adotar na sua rotina diminuem significativamente as agressões ambientais na sua cozinha

• Será que os eletrodomésticos precisam mesmo ficar sempre ligados à tomada? Quinze por cento da conta de luz deve-se aos aparelhos que ficam em stand by, conectados à rede elétrica mesmo quando não estão em uso. Desligue o micro-ondas quando não o estiver usando. E prefira eletrodomésticos com o selo Procel, mais econômicos.

• Um litro de óleo jogado pelo ralo polui 1 milhão de litros de água dos rios. Doe o óleo de cozinha usado a entidades sociais que produzem sabão, como o Instituto Triângulo (www.triangulo.org.br). No site eles ensinam também como fazer o sabão em casa. Outra dica na hora de fazer a comida é deixar as panelas tampadas: assim elas cozinham mais rápido, gastando menos gás.

• Já pensou quanto plástico você consome em galões e garrafas de água mineral? Evite-os! Além de gerar muito lixo, esses produtos exploram fontes e dependem de transporte para chegar à sua casa. O melhor é ter um filtro na torneira. Só não se esqueça de limpá-lo conforme as instruções do fabricante.

• Você sabia que mudando a forma de lavar a louça você pode economizar cerca de 320 litros de água por dia? Ensaboe-a na cuba, com o ralo fechado, e use água corrente só para enxaguar. Pôr um aerador (aquela “telinha”) no bico da torneira faz você usar menos água e diminui o desperdício. Prefira detergentes biodegradáveis, menos agressivos aos mananciais.   

• Só um cestinho na cozinha é coisa do passado. Separe o lixo reciclável do orgânico. Se seu prédio não tem coleta seletiva, ajude a implantá-la (o site www.lixo.com.br ensina como). Você também pode entregar seu lixo reciclável a cooperativas da sua cidade (encontre a mais perto da sua casa no site www.rotadareciclagem.com.br) ou a redes de supermercados que recolham.

• Cuidado com a porta aberta: a geladeira é o segundo eletrodoméstico que mais consome energia elétrica na casa. Abra-a o mínimo de vezes possível, para evitar desperdício. Se puder, troque a sua por um modelo com selo econômico do Procel. Também evite usar toalhinhas ou forros nas prateleiras: eles dificultam a circulação do ar, exigindo mais eletricidade para manter a temperatura baixa.

• Você sabia que são consumidos 12 bilhões de sacolas plásticas por ano no Brasil? Leve bolsas retornáveis ao mercado. As sacolinhas podem ser práticas para embalar o lixo, mas demoram 400 anos para se decompor. Prefira embalá-lo em caixas de papelão ou sacos de plástico biodegradáveis ou recicláveis.

• Você sabia que um terço dos alimentos que compramos vai direto para o lixo? Não estoque em grande quantidade produtos de validade curta. Ao planejar melhor suas compras, você gasta menos dinheiro e evita o desperdício de comida.

• Algumas frutas causam menos impacto ambiental que outras. Prefira vegetais da época e da sua região, que são mais baratos, saborosos e saudáveis, e ainda economizam no transporte. Se possível, opte pelos orgânicos, que não usam agrotóxicos – o que protege sua saúde e o meio ambiente.

 

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