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Vá procurar sua turma

Festas sempre deixavam Claudiléia Marques, de 36 anos, um pouco frustrada. Tímida, ela olhava os casais deslizando pela pista e morria de vontade de fazer o mesmo. Insistia com o marido, mas ele, ainda mais inibido, topava no máximo um dois-pra-lá-dois-pra-cá no cantinho. Parecia condenada a ficar passando vontade.
Numa consulta médica, essa história começou a mudar. Atribulada com o emprego como secretária, a casa e os filhos, ela foi aconselhada a buscar um passatempo prazeroso. Dias antes, havia visto que uma academia de dança de salão acabara de ser inaugurada perto de seu trabalho, em São Paulo. Era a oportunidade ideal. Tentou convencer o marido a se matricular junto. Ele não quis. Então, ela tomou coragem e foi sozinha.
No início, optou por aulas individuais. Só com a insistência do professor, experimentou uma em grupo. “Eu achava que todo mundo ia perceber que eu não sabia dançar. E o medo de pisar no pé do outro?”, lembra. Mas então Claudiléia notou que não era a única insegura. “Todo mundo tinha vergonha. E isso ajudou a nos enturmarmos. Já na segunda semana, nem parecia que um dia havíamos estado acanhados”, conta.
Quase um ano após o começo das aulas, Claudiléia percebe que aprendeu muito mais do que passos de dança: “Eu me sinto mais desinibida. Já não tenho vergonha de tirar um colega para dançar, por exemplo. Além disso, as aulas me deixam mais leve. Sinto que estou fazendo algo por mim”, afirma.
Muitas histórias que começam de forma parecida com a de Claudiléia não têm o mesmo final feliz. Quando não encontramos entre nossos parentes e amigos os parceiros para realizar algo que desejamos, o mais fácil é desistir. “Sair da zona de conforto emocional formada pelas pessoas mais próximas exige esforço. Ao conhecermos gente nova, nós expomos não só nossas qualidades, mas também nossos defeitos, e aí corremos o risco de sermos criticados, o que nos dá medo”, explica a psicóloga Adriana Dorgan.
O bom é que, se esse temor é comum a todos nós, as armas para vencê-lo também são. “Coragem e segurança nascem junto com cada um, só precisamos ativá-las. Quando acreditamos que nosso bem-estar depende disso, esses sentimentos brotam”, diz a psicóloga.
Companheiras de mala
Vontade de viajar a assistente administrativa Flávia Helena Gonçalves, de 37 anos, de Santos (SP), sempre teve. Companhia não costumava ser uma necessidade. Em março do ano passado, porém, ela mudou de ideia. Sozinha em Santiago, no Chile, Flávia passou mal após comer um prato típico. Sem nenhum amigo num raio de centenas de quilômetros, viu-se perdida. “Fiquei muito assustada. Não conseguia me comunicar direito. Estava tonta e não podia levantar da cama”, lembra.
A experiência influenciou o planejamento da viagem das férias seguintes. Flávia convidou algumas amigas, mas nenhuma podia. Então foi buscar ajuda na internet. E foi assim que conheceu o projeto Mulheres pelo Mundo, que agencia roteiros turísticos para mulheres sem companhia para viajar.
Entre os destinos, interessou-se pelo Deserto do Atacama, também no Chile, para o qual já havia um grupo agendado. Só faltava vencer o medo de embarcar para outro país com pessoas que nunca havia visto. “Eu pensava em coisas como ‘e se uma delas quiser dormir com a luz acesa?’, ou ‘e se não gostarem de algum passeio?’ Mas depois você vê que são questões fáceis de resolver, desde que haja cordialidade”, diz Flávia. Por fim, ela percebeu que as companhias foram uma ótima maneira de unir o útil ao agradável. “Além de me sentir mais preparada para enfrentar algum imprevisto, foi muito divertido ter alguém para tirar foto, conversar durante o almoço e trocar as impressões da viagem”, conta.
Bando virtual
A internet também foi a ponte para o arquiteto aposentado Tancredo Maia Filho, de 62 anos, de Brasília, encontrar companheiros para seu novo hobby. Em agosto do ano passado, enquanto passeava por um parque, ele viu um beija-flor fêmea chocando em seu ninho. No dia seguinte, voltou com a máquina fotográfica. Acompanhou o animal durante um mês. Quando percebeu, estava clicando todos os pássaros que cruzavam seu caminho.
Tancredo mostrava as fotos à família e aos amigos. Eles as achavam bonitas, mas não compartilhavam da mesma empolgação. Um dia, num de seus passeios, encontrou um fotógrafo que lhe contou sobre a comunidade virtual WikiAves. Lá estava a turma de Tancredo: o site reúne centenas de apaixonados por registrar imagens de aves. Mesmo a distância, o interesse compartilhado faz com que um estimule o outro a se aprofundar ainda mais na atividade. “Quando alguém publica uma foto de um pássaro que não conhece, logo alguém identifica a espécie. Também se trocam dicas de fotografia”, conta.
No fim de outubro, Tancredo viajou cerca de mil quilômetros até Ubatuba (SP) para se encontrar com outros 60 integrantes da WikiAves. “Foi uma experiência ótima, fizemos um passeio noturno, no meio da mata”, conta. O gosto pelo novo hábito também o levou a montar uma exposição fotográfica em Brasília, no aniversário do parque onde o hobby começou. Impulsionado pelas companhias que arranjou fora do próprio ninho, agora Tancredo se empenha em disseminar a paixão entre seus netos. “Eles passam um bom tempo vendo as fotos, depois procuram aves novas no parque. Certamente serão observadores de pássaros”, diz o avô, orgulhoso.

















































