editorial
Vamos adiante

No dia em que fechamos esta revista, acordei com o céu ainda escuro para uma despedida. Não de ninguém, mas, sim, de uma história: cinco anos vivendo na mesma casa, fazendo os mesmos caminhos, cumprimentando as mesmas pessoas todas as manhãs – os taxistas da esquina, os chineses da venda, o jornaleiro, a balconista da padaria. Nesse dia, mudamos de casa, de bairro e, de certa maneira, de vida. Durante os preparativos, às voltas com a infinita lista de coisas a fazer, não pensei no quanto a mudança significava mais do que só trocar o endereço das contas. Embora não seja a primeira – na verdade, é a décima vez que mudo de casa –, essa foi diferente de todas as outras. Provavelmente porque esse foi o lugar onde fiquei por mais tempo em toda minha vida adulta. Que escolhi sozinha, quando me mudei para São Paulo em definitivo, num bairro que adoro, na época jurando que seria para sempre. Queria que a minha filha tivesse a mesma experiência que eu tive, de crescer em um lugar onde fosse reconhecida na rua como “a filha da Roberta”, assim como até hoje sou “a filha da Loiva” na vizinhança dos meus pais.
Ou seja: esse foi o primeiro endereço com o qual, já crescida, criei laços verdadeiros. Conheço todas as vielas e bibocas, todo mundo conhece os cachorros pelo nome, minha filha estuda na escola do bairro, posso entrar em um táxi sem dizer nada e o motorista já sabe para onde ir. É onde me sinto acolhida em uma cidade que é grande demais para fazer alguém se sentir parte dela.
Já escrevo este texto da casa nova. Tudo me estranha: é outro cheiro, não reconheço os barulhos, não sei onde ficam os interruptores. Amanhã é sábado, e, quando acordar, não vou saber por onde começar. É isso que mudanças, esperadas ou não, fazem com a gente: abrem um vazio, uma desordem que não parece natural. Não deixamos as coisas fisicamente apenas – perder o que quer que seja também arranca um pedaço da nossa história, dos nossos hábitos, da nossa identidade. Mesmo que eu desencaixote tudo, as coisas continuarão fora do lugar – e só parecerão certas quando eu puder me reconhecer aqui.
Mas também sei que o que me angustia é, na verdade, o que faz a beleza das mudanças. Ao deixar algo que nos obriga a reorganizar os dias, ganhamos a chance de nos reencontrarmos com nós mesmos. Embalando e desembalando a casa, achei documentos perdidos e pilhas de coisas inúteis das quais não me desfiz por comodidade. Vi quantas coisas sem conserto guardava, e me dei conta de que bem poucas me importavam de verdade.
No fim, abri mão de um caminhão de coisas. De móveis grandes demais à segurança de me sentir querida pelas pessoas. Podia ter adiado, inventado desculpas para continuar no mesmo lugar. Estaria mais confortável. Mas a verdadeira pergunta é: eu estaria mais feliz?
Partidas me deixam nostálgica. Com medo do novo, tendo a me apegar ao velho e a esquecer o sofrimento que levou a história a acabar. Tento me lembrar: a casa antiga estava caindo aos pedaços. Há prédios sendo construídos ao redor, com um barulho infernal dia e noite. O bairro está cheio e caro. Não há crianças brincando na rua. Não era essa a vida que nossa família queria.
Preciso aceitar que toda escolha implica perdas, e toda mudança pede um adeus. Não é preciso negar o passado - até porque preciso das lições dele para fazer um presente (e um futuro) melhores. As memórias felizes merecem ser guardadas. Mas com realismo – e sem o apego que cega para o que não foi tão bom.
Então, combinado: vou olhar para a frente. Um fim é um ano-novo particular, e no meu estou jurando que vou ser mais organizada, plantar mais flores, ter uma casa mais bonita, praticar esportes e tomar café da manhã. A agonia do que deixo ir vai virar só saudade. E com ela convive também a alegria de uma chance de se reinventar.
Esse é o tema desta edição: despedidas. Choramos um tanto com as histórias. Mas não foi de tristeza: é a emoção da esperança, inspirada por pessoas que nos mostram que, mesmo os maiores adeus são novos começos. Espero que ajudem você a seguir adiante também.

















































