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Vejo flores

Desde que me entendo por gente, em todos os aniversários meu presente foi um buquê de flores, que meu pai trazia na hora do almoço, com um cartãozinho de parabéns. Quando pequena, grandes margaridas eram minhas preferidas; depois me apaixonei pelas rosas de toda cor. Os botões eram mergulhados no vaso branco de porcelana, tirado do armário só nessas ocasiões, e enfeitavam a mesa de jantar até o último fôlego. Só de olhar para elas, já me sentia mais feliz.
Por causa desse ritual familiar, as flores são ainda hoje meu símbolo de cuidado e comemoração. Já crescida, os buquês fizeram saudade nos aniversários longe de casa. E passei a me auto-presentear com eles: o abraço e o cartão faziam falta, claro, mas reparar na beleza colorida me abria sorrisos como os da infância. Descobri outras preferidas, como os lírios tão perfumados que me tonteiam, as orquídeas cuja perfeição merece horas de contemplação, as angélicas com cheiro de beira de rio, as astromélias em cores que nem sabia existir na natureza. E aprendi uma lição: as sensações que as flores nos despertam não dependem da ocasião nem do remetente. Reservá-las aos momentos especiais é perder a chance de se encantar todos os dias um pouquinho. Pode ser um vaso barato de crisântemos amarelos na cozinha, um galho de jasmim cheiroso catado na rua e posto na cabeceira, um arranjo pomposo para a sala feito de flores de cebola achadas na feira, sempre-vivas compradas no farol para enfeitar o escritório. Ter flores por perto – elas que foram planejadas propositalmente para atrair os sentidos – nos faz sentir, de alguma forma, mais especiais.

















































